terça-feira, 18 de novembro de 2025

Dois Queijeiros

 


O concurso seria em seis meses. Eu já sabia disso há pelo menos um ano, mas como a inconstância é a alma do artista, obviamente deixei pra pensar nisso na última hora. O problema é que ser produtor de queijos, ainda que seja um trabalho artístico, também exige muito mais comprometimento, estrutura e planejamento que pintar a porra dum quadro, né? Não desmerecendo os pintores, mas me perdoem, eu tenho muito mais trabalho.

A competição das últimas edições do Festival do Queijo Artesanal do Sul de Minas foi violenta. O Sérgio, meu vizinho, queijeiro há uns 30 anos, saiu na mão com um produtor paulista que disse que o queijo dele não prestava pra comer com azeite de qualidade, porque tinha gosto de "reboco velho". Como o paulista sabia qual era o gosto de reboco velho, nunca saberemos, mas pelo sorriso acidentado dele, era de se imaginar. Loucura.

Ainda que tivesse dado menos importância do que deveria pra velocidade com que o tempo corre, pelo menos eu já tinha tudo meio planejado. Ia fazer um queijo de pouca cura, revestido com uma camada fina de cera de abelha jataí pra curar tranquilo, ficar com a massa macia e o sabor delicado, ligeiramente adocicado, com pouca acidez e um fundo amanteigado, meio de nozes, coisa fina. A receita tinha sido desenvolvida pela minha avó, segredo de Estado, só circulava na nossa família, mas ela nunca conseguiu chegar no resultado exato que pretendia. Eu ia mudar essa história e ganhar o concurso.

Era uma terça-feira. Ordenhei as vacas e fui pra queijaria. A noite não tinha sido exatamente de sono tranquilo. Acordei 3 ou 4 vezes depois de sonhar que ouvia alguém me chamar. Talvez fosse um prelúdio, talvez só minha imaginação. Não importa. Tinha que recuperar o tempo perdido e testar a receita o máximo de vezes possível. Ouvi uma batida na porta. Ótimo, mais distrações, tudo que eu precisava.

"Fala, jovem! Tudo bom?"

"Mais ou menos, Sérgio, mas sabe como é, o Universo não tá nem aí pro meu estado mental, então seguimos. Diz aí, que que manda?".

"Esse ano não vou participar do concurso, então vim ver se de repente cê não precisa de uma ajuda".

"Uai, como não vai participar? Achei que cê queria dar o troco no paulista".

"Pois é, até pensei, mas descobri uma coisa".

"Como assim, uma coisa? Que coisa"?

"O paulista tá envolvido com um grupo aí, não sei bem o que que é, mas é gente da pesada. Eles levam o negócio de queijo a sério".

"Mas a gente também leva, é nossa profissão".

"Não, não, você não tá entendendo. Eles levam isso A SÉRIO".

"E eu devia saber o que cê quer dizer com isso"?

"Olha, tudo certo, isso não importa, agora. Cê vai querer ajuda ou não"?

"Cê falando desse jeito, parece que eu vou TER QUE QUERER ajuda, né"?

"Seria prudente".

"Tá certo, então. Quer uma dosinha"?

"São 8h da manhã".

"Pois é, Sérgio, mas como eu falei, a noite foi mais ou menos".

Três meses correram razoavelmente tranquilos. Tinha alguma coisa meio esquisita no ar, como se alguém muito sorrateiro passasse os dias vigiando nosso trabalho, mas acho que não passava do sentimento de ameaça natural que alguém com concorrência tem. A ajuda do Sérgio foi uma mão na roda, consegui quase quadruplicar o volume de testes do queijo da minha vó sem deixar de produzir os outros. Finalmente tinha chego num resultado agradável, mas achava que ainda faltava alguma coisa.

Seis peças, o resultado final de cinco meses de trabalho, refinariam até o concurso, e aí sim teria chego no queijo perfeito, o ápice dos laticínios. Ouvindo de fora talvez soe uma alegria meio boba, ficar tão feliz assim por causa de queijo, mas eu garanto, não tem nada mais satisfatório que o resultado primoroso de um produto tão suscetível ao ambiente. Ser mineiro é bom demais.

Batemos o martelo e resolvi que era hora de descansar um pouco. Cinco meses de imersão deixam qualquer um meio desconectado da realidade. Nem lembrava a última vez que tinha dormido uma noite inteira ou aparado a barba, essas coisas corriqueiras que fazem a gente se manter em contato consigo mesmos. Sérgio comentou algumas vezes que tinha visto uma caminhonete rondando nossa região, sempre pelos mesmos horários, como se tentasse monitorar a atividade da redondeza. Sinceramente não dei muita importância, achei que ele já tava alucinando por conta do tempo de exposição aos fungos da queijaria, ou que fosse só aquela perturbação natural que eu falei antes. Ledo engano.

Tirei uma folguinha e fui na cidade comprar comida, bebida e essas coisas que gente normal consome. Fazia um tempo que eu tava precisando me sentir normal de novo, fora que precisava me alimentar de coisas que não fossem feitas de leite, também. E bom, não ia matar minhas vacas. Fiz as compras, encontrei amigos, tomei café. Que coisa linda, se sentir liberto novamente.

Voltando pro sítio, botei reparo que a estrada parecia meio mexida, como se alguém tivesse dirigido muito rápido por lá. Ela só levava pra minha casa e a do Sérgio, e ele não tinha carro. Na verdade, depende. Pelo menos eu não considero aquele Chevette velho um carro. Enfim. Acelerei o quanto deu. Chegando em casa, tudo estranhamente normal. A única coisa fora do lugar era uma pedra. Infelizmente era exatamente a pedra que eu deixava em cima da caixa escondida onde ficava a chave reserva da queijaria. Merda. Entrei e vi exatamente o que eu não queria: levaram meus queijos. Não soube como reagir, então achei prudente deitar no chão e olhar pro teto por alguns minutos.

A primeira vez que eu entrei na queijaria tinha 6 anos. Lembro do cheiro pungente invadindo minhas narinas, as senhoras que trabalhavam com a minha avó rindo enquanto transferiam a massa coalhada para os moldes. Depois disso, quis passar cada segundo ali, aprendendo. A velha não era uma pessoa paciente, dá até pra dizer que em algum lugar escondido do seu âmago ela odiava a ideia de ter gente a menos de 10 metros de distância. Menos na queijaria.

Aquele lugar parecia apaziguar minha avó. Diria que o ar lácteo e ligeiramente ácido causava nela o mesmo efeito que incenso causa em millennials (apesar de todo mundo saber que na verdade essa paz é por causa de droga antes do incenso, mesmo. Sem julgamentos). Era ela cruzar a porta e o cenho franzido e os ombros retesados viravam um corpo leve, calmo e concentrado.

Onde quer que fosse, nunca consegui encontrar essa paz. Tem um lado meu constantemente obcecado com um tipo de perfeição não exatamente perfeita, sempre insatisfeito com o resultado das coisas que eu faço. E existe ainda um outro que não consegue parar de pensar em todos os possíveis resultados negativos do que quer me proponha a fazer. Preciso voltar pra terapia. Mas antes, voltemos ao infortúnio do momento presente.

Não havia mais tempo pra produzir peças novas, então fui atrás do Sérgio pra explanar o plano genial que eu tinha bolado.

“Sair por aí perguntando se alguém viu a caminhonete? Esse é o plano?”

“Bom, passei três horas deitado no chão da queijaria lutando contra a ideia de que eu perdi todo o progresso dos últimos cinco meses só porque eu precisava FINGIR por algumas horas que eu ainda sou um ser humano e faço parte da sociedade, Sérgio. Mil perdões se esse plano não parece bom o suficiente pra você.”

“Não foi isso que eu quis dizer. A minha questão é que tá cheio de gente na cidade que com certeza se beneficiaria da gente rodando nessa situação. Se eu e você sairmos por aí perguntando pra qualquer um, provavelmente alguém envolvido nessa palhaçada vai ficar sabendo e aí sim a gente nunca vai encontrar esses queijos.”

“É, vou dar o braço a torcer, isso foi surpreendentemente sensato.”

“Eu sou sensato, jovem, você devia me dar um pouco mais de crédito.”

“Quanto crédito você quiser. Mas diz aí, então, o que fazemos agora?”

“Me dá 10 minutos, vou fazer uma ligação”.

“Seguinte, consegui umas informações”.

“Sou todo ouvidos”.

“Lembra da caminhonete que eu vi circulando aqui na região? Perguntei pra um conhecido que é melhor você não saber quem é se ele tinha reparado em alguma movimentação diferente na cidade e adivinha? Me falou que tem uns caras hospedados naquela pousadinha no fim da estradinha que entra na rodovia estadual”.

“Tá, e isso deveria significar exatamente o quê? Vários caras se hospedam naquela pousada. É uma pousada, é pra isso que ela serve”.

“Bicho, mas cê é lerdo, heim?”.

“Olha, Sérgio, alguns meses respirando mais vapores lácteos do que ar puro PODEM SIM afetar a cabeça de alguém, ao contrário do que dizem por aí. Dá pra ser mais direto?”.

“Eu tava certo, uai! Os caras na pousada são os caras da caminhonete, meu conhecido viu os quatro saindo todos os dias de lá, no mesmo horário, nos últimos dois meses”.

“Quem é esse seu conhecido? E por que ele tem tanto tempo livre pra observar pessoas saindo de pousadinhas na beira de estradas?”.

“Já falei, melhor não saber”.

“Tá, tá, tudo bem, ignoremos o homem misterioso que certamente não deve estar envolvido em falcatruas e retornemos ao tópico. O que exatamente a gente devia fazer com essa informação?”.

“Uai, os queijos são seus, você que decide”.

“A gente pode ir até lá, ficar meio de tocaia, esperar os caras saírem e entrar, perguntar se alguém viu alguma coisa”.

“Outro plano horrível”.

“Ô, cacete, cê que disse pra eu decidir! Dá uma ideia melhor, então”.

“Não tenho”.

“Então vai ser o plano horrível, mesmo. Se quiser ficar aí, fica, mas eu vou lá”.

“Eu vou também. Conheço o dono da pousada, acho que eu desenrolo com ele pra deixar a gente dar uma fuçada no quarto deles”.

“Cê podia ter dito isso no COMEÇO da conversa, né?”.

“Uai, e eu lá ia saber que cê ia querer ir até lá?”.

“Que escolha eu tenho?”.

“Várias. Mas tudo bem, se cê tá decidido, bora”.

“Muito obrigado”.

Esperamos umas duas horas no café do posto que ficava de frente com a pousada. Assim que vimos a caminhonete sair, atravessamos à pé e fomos até a recepção da pousada. Por fora o prédio de 3 andares parecia o cenário de um filme que misturava Mad Max, Fuga de Nova York e Legalmente Loira. Pintura rosa num tom pastel, claramente sem retoque há pelo menos 10 anos, alguns descascados, grades de ferro escuro em todas as janelas e muitas touceiras parcialmente mortas de flores dos mais diversos tipos e cores. O interior, ao contrário, era sóbrio, meio art déco, quase excessivamente limpo e bem cuidado. Vai entender.

“Fala, Gonça! Cê tá bom?”.

“Sérgio, pelo amor de Deus, ninguém mais me chama de Gonça desde que a gente tinha 20 e poucos anos”.

“Uai, é a prova de que a gente tem uma amizade sólida e duradoura”.

“Tem uns 10 anos que a gente mal troca meia dúzia de palavras”.

“Detalhes, Gonça, detalhes”.

“Tá bom, Sérgio. Bem-vindos à pousada Ferrovia, o que desejam?”.

“Então, Gonça, botei reparo que saíram uns rapazes que podem ou não ter a ver com uma investigação que eu e meu amigo aqui estamos fazendo”.

“Investigação? Largou a queijaria?”.

“Não, não, só tô ajudando o jovem. Digamos que talvez seja possível que estes distintos senhores podem estar relacionados ao sequestro de queijos valiosíssimos que a gente produziu pro Festival do Queijo Artesanal. Será que, em nome da nossa amizade, você não compartilharia informações com esses dois árduos trabalhadores que aqui se encontram?”.

“Olha, Sérgio, antes de mais nada, acredito que você seja inteligente o bastante pra saber que eu não posso compartilhar informações sobre os hóspedes. Além disso, sendo bem sincero, não sei se esses caras são o tipo com quem você quer mexer. Não posso afirmar nada, mas eu não mexeria”.

Já não aguentava mais ficar ali. Além da clara falta de objetividade ou eficiência do Sérgio, o tal do Gonça também não me parecia muito propenso a ajudar, então resolvi entrar na jogada.

“Amigo, cê me desculpa, mas é o seguinte. Eu tô há meses trabalhando nesses queijos com a ajuda do Sérgio, o concurso vai acontecer em algumas semanas e eu PRECISO achar essas merdas. Tô cansado, estressado e sem cabeça pra esse joguinho esquisito de mais-ou-menos-amigos de vocês dois, então é o seguinte: você viu qualquer coisa que possa indicar que aqueles caras possam ter alguma relação com o roubo dos meus queijos?”.

O Gonça claramente não tinha qualquer expectativa de que eu dissesse alguma coisa, ficou alguns segundos olhando pra mim como quem presencia um motoqueiro caindo com a moto parada. Esfregou os olhos, saiu de trás do balcão da recepção e trancou a porta da pousada.

“Seguinte, NÃO FUI EU que te dei a chave do quarto e disse que que ele fica de frente com a escada do segundo andar, muito menos que eles costumam ficar umas 3 horas fora quando saem, o que te ainda te dá um bom tempo pra entrar e olhar lá. Mas, novamente, ainda acho isso um erro”.

“Muito obrigado, Gonça, vou lembrar do seu conselho”.

“Garoto, vai lá. Vou ficar aqui com o Gonça e te mando uma mensagem no celular caso os caras cheguem antes do esperado”.

Subi as escadas, enfiei a chave no trinco e abri a porta. Nada. O quarto era absolutamente impecável, como se ninguém entrasse ali há dias. Senti um baque na nuca e caí no chão apagado.

Acordei uma semana depois no hospital da cidade. O médico que acompanhava minha internação disse que os frentistas me encontraram desacordado no posto, na manhã seguinte à minha ida com o Sérgio na pousada. Minhas lembranças à princípio só chegavam até o momento que subi as escadas em direção ao quarto, levei alguns dias pra atinar que talvez os caras nunca nem tivessem ficado hospedados nele, possivelmente nem no hotel. Por mensagem, o Sérgio me contou que também foi atacado, mas que acordou no dia seguinte, também no hospital, sem maiores complicações e logo recebeu alta. Me visitou por três dias, mas como não havia previsão pra que eu acordasse, resolveu passar uns dias com a mãe na cidade vizinha.

Dois dias depois de receber alta voltei até a pousada pra tentar descobrir o que aconteceu comigo.

“Sinto muito, amigo, mas faz alguns dias que o Armando não aparece no trabalho nem me dá satisfação. Sinceramente eu nem quero saber no que ele se meteu, caso você tenha vindo até aqui pra falar disso”.

“Na verdade, eu QUERO saber no que ele se meteu, porque foi a mesma merda em que me envolveram e que me deixou desacordado uma semana no hospital. Enfim, obrigado por nada”.

“Disponha”.

O sentimento de estranheza havia desaparecido. Certamente não tinha mais ninguém me vigiando, e mesmo que houvesse, não fazia mais diferença. Meu trabalho foi todo pelo ralo e faltavam menos de 3 semanas pro festival, nem perto de ser tempo suficiente pra tentar reproduzir a receita e curar uma peça de queijo que fosse. Resolvi que tava na hora de retomar minha vida normal, produzir meus queijos de sempre, cuidar das vacas como sempre, esquecer desse negócio de festival, de Gonça, esquisitões em caminhonetes roubando queijos alheios, enfim, qualquer coisa que remetesse aos últimos meses.

Num domingo de manhã, mais ou menos um mês depois, acordei cansado depois de uma noite conturbada. Sonhei novamente com alguém me chamando, provavelmente um rebote emocional daquela merda toda, e pareceu sensato levantar logo ao invés de ficar tentando fingir pra mim mesmo que seria possível virar pro lado e voltar a dormir. Passei um café, liguei a TV e sentei no sofá pra assistir Globo Rural. Na matéria especial, ele mesmo, o famigerado Festival do Queijo Artesanal do Sul de Minas. E qual não foi minha surpresa ao ver a entrevista com os vencedores do festival: Gonça e SÉRGIO. Sorridentes, falando pra repórter como foi complexo o desenvolvimento da receita, segurando uma das peças de queijo roubado e o troféu.

Nas semanas anteriores tentei várias vezes entrar em contato com o Sérgio. Liguei, mandei mensagem, e nada. Fui até a casa dele, ver se já tinha voltado, mas a casa parecia vazia, a horta já estava quase toda morta e um outro vizinho disse que havia comprado as vacas dele. Imaginei que depois de tantas décadas ele estivesse cansado, que precisasse de um tempo longe de tudo aquilo, ficar próximo da família, qualquer coisa do gênero. Mas ISSO? Nunca.

Essa imagem veio como uma voadora na minha cara. Meu estômago embrulhou, minha cabeça começou a formigar, o suor não parava de escorrer em meio ao clima ameno do outono. Tentei encontrar algum sentido naquilo, mas nada vinha. Desnorteado, tomei o último gole de café e fiz a única coisa sensata naquele momento: deitei no chão e passei algumas horas olhando pro teto.


sábado, 18 de outubro de 2025

O (Velho e o Novo) Som das Araucárias

 


Voltei pra Mantiqueira, concretizando as quase proféticas reflexões produzidas na crônica “O Som das Araucárias”. E que estranho voltar. Não que eu acreditasse em transformações profundas, mas é engraçado como quase nada mudou. Ou melhor, uma coisa mudou. Eu.

É a quarta vez que moro em Campos. Como também dito no mesmo texto, houve um tempo em que afirmava veementemente que nunca mais pisaria aqui, como se tivesse qualquer controle real sobre como as coisas na vida se desdobram. Um ano após o outro, sinto como se um fio me ligasse à montanha, se fortalecendo cada vez mais, me puxando de volta sempre que se estabelece um desalinho.

A volta também foi às panelas. Assim como disse aos 19 que nunca voltaria pra cá, disse aos 27 que abandonaria a gastronomia. Minha última experiência na cozinha - sobre a qual não me sinto exatamente confortável em falar sobre, ao menos por agora - marcou meu âmago tanto quanto os respingos de óleo quente e os cortes de faca marcaram minhas mãos.

Me desfiz de uniformes, deixei de me apresentar como cozinheiro e decidi seguir outros caminhos. Voltei pra faculdade, numa área sem relação nenhuma com qualquer coisa que tivesse estudado antes, consegui um emprego igualmente distante da restauração e entrei de cabeça na escrita, uma paixão que, ainda que acredite que estivesse guardada em algum canto escuro aqui dentro, até então não havia sido seriamente explorado. Mas alguma coisa parecia fora do lugar.

Não sinto que fiz a escolha errada naquele momento. De fato, precisava me afastar de tudo, como meu próprio corpo avisou quando, após receber um convite pra trabalhar em um dos meus restaurantes preferidos de Santos, tive uma crise de ansiedade descomunal só de pensar em pisar novamente em uma cozinha. Tempos complexos, mas nos quais felizmente pude passar próximo da minha família, cuidar da minha saúde mental e, como no passado, colocar as coisas em perspectiva e retomar as rédeas dos meus sentimentos. E cá estamos novamente.

Ao longo desse tempo, mesmo olhando pra todas essas marcas e tentando entender o que elas queriam me dizer, o eco do som da cozinha, tal qual o das araucárias, continuava reverberando em mim, um chamado quase instintivo ao ofício. Foi inevitável atendê-lo, e cá estou novamente. Entre trancos, barrancos e acertos, em algum lugar acredito que esse movimento seja, além de trabalhar num ambiente educacional, minha grande busca em todos esses anos, uma forma de dizer pra mim e pra todas as inseguranças e dúvidas que por muito tempo me consumiram que eu ainda posso fazer isso. Sempre pude. Não é simples, mas nunca foi dito que seria.

Depois de pouco mais de um mês e meio, o sentimento é genuíno de que fiz a escolha certa. A sensação de inadequação e incapacidade sempre volta pra dar aquele alô, mas com cada vez menos frequência e intensidade. Tento levar um dia de cada vez, sem pensar demais nos pormenores que uma mente ansiosa é capaz de produzir. Aos poucos sinto que retomo a sintonia com os pisos antiderrapantes, fornos e panelas que por tantos anos foram quase uma obsessão. O que vem por aí, só o tempo vai dizer, e enquanto o ar da Mantiqueira não sussurra nos meus ouvidos a resposta, sigo fazendo o que eu sei.

Até a próxima.


segunda-feira, 11 de agosto de 2025

Rápida Reflexão Sobre Autocobrança por Produtividade

 

Nas últimas semanas estive à beira de vitimar a mim mesmo da estapafúrdia condição de autocobrança por produtividade de escrita. Quando iniciei o blog e, previamente a ele, a atividade do escrever, mesmo havendo a vontade de que tudo isso se convertesse em algo sério e recorrente, estabeleci comigo o acordo que rege todas as minhas atividades que não sejam obrigatórias e, de forma mais abrangente, a forma como eu me relaciono com o mundo: eu não “tenho que” nada.

“Como assim, André? Nossa, essa afirmação ficou muito confusa”. Explico. Tempos atrás relatei minha relação com o hobby mais significativo que tenho hoje, a fotografia analógica, que segue firme e forte. Venho me aprofundando cada vez mais no entendimento sobre equipamentos, técnicas e possibilidades sem absolutamente nenhuma intenção de que isso se torne algo além do que é, um hobby.

A mesma coisa acontece com a academia. Toda vez que ponho os pés naquele antro de autoflagelação é ridículo como é fácil identificar quem tá indo, como eu, só pra fazer a tão necessária manutenção da saúde física e quem vai pra performar. Quando digo performar me refiro a todo tipo de situação imaginável em que alguém se coloca nesse lugar de parecer - ou talvez tentar provar - alguma coisa, seja pra si ou pros outros.

A pessoinha X de calça, moletom e pochete em TODOS os treinos, a pessoinha Y que usa todo o aparato caricato de bodybuilder de revista (com a irreverente regatinha esfola-mamilo inclusa, claro) e a pessoinha Z que passa andando de braço aberto parecendo aqueles abridores de vinho meia-boca pra mostrar pra todo mundo o quanto a musculatura tá tonificada (enquanto as pernas parecem as de um boneco de palitinho desenhado por uma criança de 5 anos).

Vou revelar um grande segredo pra essas pessoas, agora: NINGUÉM se importa. Na humilde posição de comentador da vida cotidiana - e obviamente falando o que eu quiser, já que esse blog é meu - deixo meus centavos de contribuição sobre qual deveria ser a etiqueta comportamental da academia: a mesma de um boteco decadente. Nesses espaços, pessoas taciturnas entram discretas e ligeiras pra adquirir sua dose momentânea de endorfina, dopamina e o que mais lhes convenha, saindo por fim no mesmo estado de consternação solene em que chegaram.

E isso é válido pra todos os outros âmbitos da vida. A não ser que de fato se esteja disputando uma competição, NADA na vida tá valendo um prêmio. Tira suas fotos, vai fazer seus exercícios, aprender a cozinhar sem precisar virar CEO de MEI, só curte. O pódio que a sociedade vende simplesmente não existe. Aproveita sua vida e seu tempo pra curtir sem neuras. A vida já é dura demais sem achar que tudo é uma disputa.

Esse texto, por exemplo. Completamente mediano. O primeiro que eu escrevo em mais de um mês e atingi a mais absoluta mediocridade, mas tudo bem. Me reservo o direito de não prometer e também não entregar nada além do que eu estiver afim.

Até a próxima.



quinta-feira, 12 de junho de 2025

Sobre a morte, o luto e, obviamente, a vida

 


Escrevo esse texto para falar sobre um tema muito difícil, não porque tenho um problema em tratar dele, mas por tudo que uma sociedade fundada em preceitos cristãos e que tem parte majoritária das pessoas professando algum tipo de fé e exercendo sua espiritualidade acredita sobre isso. Em nível pessoal, é difícil por um motivo relativamente simples, mas exatamente por todas essas crenças serem fundantes do pensamento “ocidental”, camadas de complexidade se sobrepõem ao tema.

Você já deve imaginar, mas me refiro à morte. Qual é essa dificuldade, afinal? Bom, sendo ateu, acho que não há dúvida sobre eu não acreditar que exista algo depois da morte. Se não me falha a memória já tratei da questão em alguma crônica no passado, possivelmente para falar que acredito que é exatamente aí que se encontra a preciosidade da vida, na sua singularidade. O que sempre me deixa reticente diante da questão é que, apesar de ser, no meu entendimento, uma visão positiva, ela raramente condiz com o que pessoas pensam sobre isso, e na busca de tentar ser sensível ao lidar com momentos de perda e luto, uma pergunta me acompanha desde a minha primeira recordação sobre vivenciar a morte de alguém: como ser de fato acolhedor quando sua percepção sobre o fim pode não soar reconfortante?

Ao longo dos meus 30 anos vivenciei um número considerável de lutos. O mais recente deles é pelo meu avô, que nos deixou no dia 31 de março desse estranho ano de 2025, coincidentemente o dia que nomeia um dos bairros dessa Cubatão que ele tanto amou.

Tenho, desde então, tentado elaborar os sentimentos e o tema em si, o luto. Há uma frase no livro mais recente do Jefferson Tenório, “De Onde Eles Vêm”, que diz que o luto é como uma amputação: um pedaço de você é arrancado e não tem essa de substituir. Pode até ser que uma prótese seja posta no lugar e cumpra, de alguma forma, a mesma função, mas o vazio daquela ausência é eterno. A questão é que a gente se adapta. Vai ser difícil, a princípio, e vai doer por muito tempo, mas cada dia um pouco menos.

Somos levados a acreditar que só o que conta são grandes feitos, a vida majestosa, e passamos nossa existência aflitos por não sermos os protagonistas de um épico. Mas a vida não é isso. Nunca foi, nem daqueles que, entre muitas aspas, nos olham de um suposto topo. Acho que talvez venha daí uma das grandes aflições sobre pensar e lidar com a morte: confrontar a ideia de que sua vida ou a de quem você ama não tenha o significado ou impacto que acreditamos que deveria ter. Mas será mesmo?

Para falar sobre isso, penso na vida do meu avô. Cresci ouvindo dezenas de histórias sobre ele. A mais emblemática talvez tenha sido sua recusa ao convite de jogar no Santos, já que sempre foi corinthiano, o que abriu espaço pra que o time convidasse um dos maiores jogadores de sua história, o Pepe, pra ocupar a posição que seria dele.

Seu Nico não se tornou um jogador mundialmente renomado, mas viveu e vive como um dos maiores na memória daqueles que o viram jogar, assim como na de dezenas de pessoas que aprenderam com ele o ofício da marcenaria durante o período que ensinou na extinta Fábrica da Comunidade e na de tantas outras que cruzaram seus caminhos com os dele. Pra mim bastaria dizer que foi um avô gentil e afetuoso. Isso já não é grandeza?

Fiquei - e continuo - triste por sua morte, bem como pela de todos os familiares e pessoas amadas das quais tive que me despedir irrevogavelmente ao longo da vida, mas a felicidade de tê-los conhecido e a singularidade de suas existências é tão maior que não consigo me apegar à dor. Retornando à questão do início, sobre como ser acolhedor, acredito não ter uma resposta muito concreta.

Tentar sempre que possível estar presente é um ótimo começo. Subestimamos - e muito - a importância da presença. Quanto ao que dizer, bom, eis uma resposta muito mais difícil. Essas são palavras que provavelmente vou continuar perseguindo pelo resto da vida. Se algum dia as encontrar ficarei feliz em compartilhar. No meio tempo sigo me fazendo presente.

Nesse malfadado dia 31, durante o velório, vendo a serra e a cidade encobertas do prenúncio de temporal, só conseguia pensar que chorava a Rainha das Serras por um de seus filhos ilustres. Entre o choro e o riso das pessoas, todos os afetos ali presentes celebravam a vida de Seu Nico. Torço pra que todos os lutos encontrem esse afago.

quinta-feira, 22 de maio de 2025

Por Favor, Me Poupe do Supino

 


Começo essa crônica com um anúncio que nunca imaginei fazer: estou na academia. Proferir essas palavras me causa até um arrepio na coluna, um calafrio daqueles que dizem que rola quando um espírito atravessa seu corpo pelas costas, o que nesse caso pode ser verdade, já que os fantasmas da diversão e da felicidade habitam aquele lugar. Meu Deus, que situação insalubre.

Sentimentos à parte, beirando os 31 anos a consciência de que preciso manter um certo grau de sanidade física em prol de sustentar por muito mais décadas minha sanidade mental finalmente se instalou. O empecilho pra manter o foco fica em um questionamento: por que todos os exercícios parecem meio imbecis? Mais que isso, por que tudo te faz se sentir tão ridículo?

Utilizando a infame cadeira adutora, por exemplo, fiquei toda a primeira série de repetições que fiz pensando “o que diabos eu fiz pra ser vilipendiado por esse aparelho”? Absolutamente nada. Era apenas um transeunte incauto pego de surpresa pelos horríveis desígnios de mim mesmo buscando dias mais saudáveis. O que falar então dos terríveis leg press, aquelas coisas pra treinar bíceps e tríceps e todos os outros odiosos aparelhinhos feitos pra fortalecer sua musculatura e enfraquecer seu espírito?

Vou me valer do conceito de Immanuel Kant sobre liberdade, que é a de que ser livre é fazer o que não se quer. Assim como o professor Mário Sérgio Cortella, que me lembrou dessa frase na sua participação em uma das últimas edições do programa Altas Horas, também exerço minha liberdade submetendo meu corpo a esses pequenos desprazeres físicos e minha mente aos ainda piores desprazeres ambientais que a academia gera.

Agora, respondendo as questões do início, estar na academia - ao menos pra mim - soa e me faz sentir meio imbecil porque sua existência é um totem da lembrança de que houve um tempo em que simplesmente viver era o bastante pra manter a saúde física em dia. Não que se vivesse muito - e afinal, pra quê diabos queremos viver tanto? - mas séculos de evolução pra nos tornarmos caçadores que unissem força física e cérebros altamente desenvolvidos entram diariamente em colapso quando os séculos seguintes transcorrem engenhosamente pra desfazer isso. Cá estamos, então, essas ridículas massas ambulantes capazes de alterar os rumos da existência e do espaço que habitam, mas presos à tosca necessidade de balançar barrinhas de metal e plástico e andar sem sair do lugar só pra conseguirmos andar até os 90 anos. Patético. Nós somos patéticos.

Fui alguma vezes numa balada mequetrefe em Campos do Jordão, em tempos menos católicos, como dizem os jovens. Qual a relevância dessa informação? Ambos os ambientes sofrem das mesmas características: entre meia-luz e escuro, música eletrônica que poderia ter sido a gravação do colapso de uma estrutura predial e gente em busca de algum tipo de salvação. Em ambas, infelizmente, a conclusão é a mesma, nenhuma salvação é possível, independente de quanto álcool você ingira ou quantas séries do maldito supino reto você faça. Estamos todos condenados.

Achou que esse texto ia ter alguma lição ou que de repente eu resolvesse falar alguma coisa positiva sobre os impactos da academia na vida? Você nunca se enganou tanto, esse aqui sou eu voltando a deliberadamente reclamar de alguma coisa, como há um bom tempo eu não fazia. Se você gosta da academia, me poupe dessa informação. Enquanto isso prossigo exercendo minha liberdade e resmungando em cada intervalo das séries de exercício.

Até a próxima.

sábado, 26 de abril de 2025

Recomendamentos: Filmes de Stephen Chow

 


Inauguro - depois de “Receitas Que Você Não Pediu, Mas Vai Ganhar Mesmo Assim” - uma nova coluna no Notas, a “Recomendamentos”, como você obviamente já notou pelo título. Tal qual as receitas que você não pediu, esse espaço vai servir pra compartilhar absolutamente qualquer coisa que eu ache que faz sentido compartilhar, e se você vai ou não atrás já não é comigo.

Partindo de tal pressuposto, não que alguém tenha perguntado, mas Stephen Chow é provavelmente meu ator preferido. Assim como Jackie Chan, Michelle Yeoh, Jet Li, Chow Yun-Fat e tantos outros astros chineses do cinema, Stephen - que na real se chama Chow Sing-Chi, mas meteu esse Stephen no meio da história pra ter mais aceitação no mercado “ocidental”, como todos os outros citados - é cria real das artes marciais, 110% habilitado para chutação de bundas e pancadaria generalizada.

Ainda que, assim como pros outros, o kung-fu seja um elemento fundamental nos universos de seus filmes, eles raramente giram diretamente em torno das artes marciais. A pegada aqui é outra: o foco é na comédia. As tramas costumam ser desnecessariamente complexas e desconexas, e é exatamente isso que te prende nas narrativas, te deixar muito confuso com situações surreais que vão te carregando através de detalhes que, a princípio, parecem soltos e sem sentido, mas que se costuram aos poucos pra te cobrir com uma aconchegante colcha de retalhos absurdos.

Não gosto de dizer isso porque acho que deveríamos assistir todo tipo de filme, então afirmo com dor no coração: não é humor pra todo mundo. Seus filmes, tanto os só dirigidos quanto os dirigidos e atuados por ele, usam elementos humorísticos e formas de atuação muito característicos do cinema chinês. Se não é sua praia, não vão te pegar, especialmente porque outro elemento recorrente neles é o exagero, seja de expressões, do uso do humor de repetição, do humor físico palhacesco, tudo opera em outro nível. Imagine “A Hora do Rush” ainda mais maluco e caricato. Isso é cinema com e por Stephen Chow.

Caso ache que pode funcionar pra você, começo as recomendações com o que talvez seja mais palatável para o público “ocidental”: “Kung-Fusão”. Foi o segundo dele que assisti, mas tão impactante quanto o primeiro (o próximo da lista). A história gira em torno de dois ferrados - um deles o próprio Chow - que sobrevivem tentando cometer pequenos delitos, sonhando em entrar pra famigerada Gangue do Machado, que está em conflito com os moradores de um cortiço, por sua vez protegido por três ex-mestres de estilos lendários de kung-fu. Eu falei que as tramas eram complexas. Acompanham a doidera reviravoltas bem posicionadas ao longo do filme, que ajudam a manter a dinâmica sem parecerem só artifícios narrativos, e a estranha facilidade de se relacionar com os personagens, cheios de contradições que você facilmente encontraria em um vizinho ou parente.

Quanto ao meu primeiro contato com seus filmes, nos arredores do já distante ano de 2006, apresento rapidamente, e já explico o porquê. O nome do filme é “Kung-Fu Futebol Clube”, um suplex de insanidade que conta a história de um monge shaolin que foi embora do monastério onde vivia após a morte de seu mestre, e acaba por acaso conhecendo em Hong Kong um ex-jogador de futebol em busca de redenção após ter entregue uma final de campeonato muitos anos antes. O motivo de não me estender é porque existe um maravilhoso episódio do meu amado - e por hora ainda inativo - podcast Cinemasso sobre o filme (que você pode ouvir aqui: https://open.spotify.com/episode/43rPhnGiybfXkQMGDOrQlL?si=ZnFk0nPTRlmA316_dNha-A). Sigamos.

A terceira recomendação é, coincidentemente, uma trilogia: “Fight Back to School”. A trama do primeiro filme é um pouco mais direta, acompanhando um policial de elite altamente eficiente, porém indisciplinado na mesma medida, que é obrigado a trabalhar como agente infiltrado pra recuperar a liderança de seu esquadrão depois de fazer cagada em uma operação. O inusitado fica por conta do fato de que ele se infiltra como aluno em uma escola de ensino médio, monitorando as movimentações do irmão de um estudante, provavelmente envolvido com tráfico de drogas. Em nenhum momento ele usa maquiagem ou artifícios pra parecer mais novo, é só um adulto comum usando uniforme escolar no meio de estudantes que estranhamente parecem tão velhos quanto ele. As sequências também são divertidas e têm seus méritos, mas nada igual o primeiro.

Por último lhes entrego o penúltimo filme dirigido por ele, uma das coisas mais insanas que já tive o prazer de assistir, “As Travessuras de Uma Sereia”, daqueles filmes que começam, terminam e tudo que você sabe é que riu descontroladamente sem entender direito o motivo. A história gira em torno de uma sereia - ora ora, quem diria - enviada à superfície pra assassinar um empresário que conduz um projeto de recuperação de um trecho costeiro, mas que ameaça o local habitado pelas sereias. Os dois acabam se apaixonando, o cara desiste do projeto, mas o que ninguém esperava era que uma organização secreta está caçando as sereias (por um motivo que não recordo) e cabe ao empresário salvar sua amada marinha.

Pelas sinopses, acho que fica claro o que disse no início, não é o tipo de filme que vai funcionar pra todo mundo. Mas como você vai saber se não der pelo menos uma chance? Já assisti muitos outros filmes com Stephen Chow e, entre méritos e deslizes, todos mantém um bom nivelamento de qualidade geral. Aviso importante, alguns deles têm elementos de humor mais datados, mas nada que você não encontraria em qualquer filme estadunidense do mesmo intervalo de tempo, entre os anos 80 e 90, então veja os filmes também como o retrato de uma época e especialmente de uma cultura diferente da nossa, abrace o caos e se permita entrar de cabeça nessa piscina de bobajada.

 

Até a próxima.

 


terça-feira, 18 de março de 2025

Lapsos Culinários, Como Lido Comigo Mesmo e Duas Receitas que Você Não Pediu - Mas Vai Ganhar Mesmo Assim

 


Sabe aquele papo de que “você sai de ‘x’, mas ‘x’ não sai de você”? São coisas que ficam evidentes através do sotaque ou de um costume, e você com certeza carrega alguma coisa assim pra onde quer que você vá. Comigo não é diferente. É curioso que, mesmo depois de tanto tempo, a cozinha ainda ocupe um espaço tão grande na minha vida.

Tô sempre pensando em comida, assistindo um programa documental sobre alimentação, ficando irritado com alguma rasgueira tosca que alguém faz num reality culinário, lendo livros sobre como a alimentação serviu de motor pra um número absurdo de descobertas e eventos históricos.

Enfim, acho que me fiz entender: comida me move em diversos sentidos, e faz parte até de momentos em que preciso organizar a cabeça, botar as ideias no lugar ou só controlar a ansiedade. Demorei um pouco pra entender que, pra além de desviar minha atenção do que quer que estivesse ou esteja me incomodando, cozinhar ajuda porque é um processo que se estabelece sob uma certa rigidez e ordenação na cabeça de quem já pisou numa cozinha profissional.

Como nem tudo são flores, recordo a vocês que abandonei o ofício e pendurei as panelas porque, na mesma medida que faz bem, alimentava processos negativos que me adoeceram o suficiente pra mudar vertiginosamente essa relação durante alguns anos - como acredito que já mencionei anteriormente - mas que agora voltou ao que era. Tudo isso pra falar que, pela primeira vez, venho compartilhar receitas com vocês. Duas, pra ser exato.

Assim como as choux creams em 2022, os cookies em 2023 e as dezenas de risottos que fiz nas madrugadas do biênio 2012/2013 pros amigos da faculdade, duas semanas atrás me bateu uma vontade repentina de fazer molho de pimenta e picles de cebola roxa. No dia seguinte fui no mercado depois do expediente, comprei tudo e fiquei até 1h30 da manhã na cozinha.

Já aviso de antemão, nada de receita bonitinha com medidas exatas. O molho, especificamente, depende muito do sabor que você quer, seja um toque mais adocicado ou um pouco mais apimentado, a acidez mais presente, enfim, vou te dar os ingredientes e você que bote o quanto achar melhor, afinal quem sou eu pra dizer o que é mais saboroso pra você. O picles, por sua vez, tem uma quantidade exata, mas mais nas proporções do que na quantidade. Agora chega de papo e vamos ao que interessa, começando pelo último.

Picles de cebola roxa

Os ingredientes são vinagre de vinho tinto, água, pimenta-do-reino em grão, louro e - ora quem diria - cebola roxa. “Ai, André, posso usar outro vinagre no lugar do vinho tinto? E se a cebola for da branca, tem problema”? Olha, ninguém vai na sua casa fiscalizar o que você tá fazendo, então fique à vontade pra substituir o que quiser, sabendo que o resultado vai ser completamente diferente pra cada coisa alterada, então esteja por sua conta e risco. Prossigamos para o modo de preparo.

Misture PARTES IGUAIS - detalhe importante - de água e vinagre numa panela, em quantidade que seja suficiente pra cobrir a quantidade de cebola que você quer piclezar. Adiciona um tanto de grão de pimenta e folhas de louro junto, de novo recorrendo ao bom senso pra deixar os sabores equilibrados, e bota pra esquentar.

Enquanto a mistura esquenta, corte as cebolas radialmente (como no desenho tosco abaixo, que você vai fingir que tá certinho porque eu já tô te fazendo a boa de passar uma receita show), ponha num escorredor de massa e enxágue bem, depois encha uma tigela com água e gelo e jogue a cebola dentro.

Assim que a mistura de água e vinagre levantar fervura, escorra a cebola e a ponha em um recipiente - preferencialmente de vidro - que tenha tampa, tire o líquido do fogo e bote diretamente sobre ela, coando com uma peneira pra não ter que ficar catando folha e grão de pimenta do meio, depois. Tampa o recipiente e bota direto na geladeira - sim, ainda quente. Espera de um dia pro outro e pronto, agora você tem quanto picles quiser.

 

Molho de pimenta

Aqui dei uma roubada no nome porque a parada ficou mais pra pasta do que pra molho. Quanto menos água no resultado final melhor, porque aumenta a durabilidade, então usei como líquido um pouco de vinagre de vinho tinto, o que também influencia no sabor. Os ingredientes que eu usei foram pimenta dedo-de-moça, pimenta cambuci, pimentão amarelo, tomate, cebola, alho, alecrim, manjerona, azeite, sal e vinagre de vinho tinto. De novo, muda o que você quiser, só não desapegue do bom senso.

Pré-aquece o forno a uns 220ºC e espalha em uma assadeira todos os legumes, cortados do tamanho que você achar melhor e que se encaixem na forma como você vai bater o molho depois. Eu usei um mixer, então cortei tudo em pedaços pequenos. Espalhe uns galhos das ervas aromáticas por cima deles e besunte tudo com azeite. Sei que tá caro, então se quiser misturar com um tico de óleo pra render, pode. O mais importante é que seja quantidade suficiente pra untar o fundo da forma, já que não é pra vedar a assadeira, e que o sabor do azeite não seja sobreposto ou suavizado demais. AINDA NÃO PONHA SAL, pra evitar formar água no fundo, já que a ideia é assar e não vaporizar os ingredientes.

Bota pra dentro do forno e deixa assar até que tudo esteja com aquele aspecto dourado começando a tostar, como se fosse um gratinado que passou um pouco do ponto. O ideal é que a assadeira fique o mais distante possível do fogo, no forno, então se o seu só tiver uma grade, abaixa a temperatura pra 200ºC quando colocar os legumes lá dentro. Depois de assados, só bater/processar tudo junto e temperar com sal, mais um pouco de azeite e vinagre (que você pode usar pra ajustar a textura, lembrando que, obviamente, quanto mais vinagre, mais ácido).

Agora uma dica. Como eu gosto de coisas com quantidades inumanas de pimenta, ainda peguei mais um tanto delas, espetei num garfo trinchante e tostei direto na boca do fogão, depois misturei na pasta só cortado na faca, mesmo. Lembre-se que o limite é o bom senso, e como essa fronteira é muito pessoal, cruze por sua própria conta e risco.

Se fizer alguma das receitas e dúvidas surgirem, pode dar um alô, ainda que eu ache que, apesar de zero técnicas, as descrições ficaram razoavelmente didáticas. Ou se não fizer nenhuma e só quiser bater papo sobre comida, também pode dar um alô. Caso esteja esperando outras receitas, quem sabe alguma hora elas aparecem por aqui, também. Agora, sendo sincero, abaixe essas expectativas, porque não faço ideia de quando isso vai acontecer de novo.


Até a próxima.

 

terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

Gostava Mais de IA Quando Era Só Aquele Moleque Robô Chato

 


Um tempo atrás, navegando naquele cemitério de bom senso que chamam de LinkedIn, vi o anúncio de um curso da plataforma de ensino própria da rede social sobre produção de prompts pra IA assistente que faz parte dos diversos programas do pacote Office. Em outro post um grupo de pessoas debatia as falhas e virtudes de IAs generativas e sua capacidade de produzir imagens. A exposição à profundidade de um pires das discussões que rolam por lá me causou uma coceira horrível, e o antídoto, óbvio, era vir azedar um pouquinho por essas bandas. Antes de prosseguir, deixa eu tirar logo isso da frente: eu não sou contra o uso de “inteligências artificiais”. Mais ou menos. Vamos à explicação.

Se você acompanha meu trabalho há algum tempo - ou leu meu livro - deve lembrar de “Será Se a Internet Foi Longe Demais”. Quando o escrevi, confesso que considerei, já naquele momento, inserir o tema inteligência artificial, também, mesmo que de forma discreta, já que não era o foco. Por fim decidi deixar de fora e, em algum momento, dedicar um espaço exclusivo pra ele.

A ideia de elaborar sobre os dois tópicos num mesmo espaço me ocorreu pelo paralelo que podemos traçar entre ambos os fenômenos diante da perspectiva elaborada anteriormente: grande ferramenta, responsabilidade mínima sobre seus impactos. A gente teve a chance de entender que a internet era só uma ferramenta e fomentar o uso sensato dela e perdeu esse bonde, então por que seria diferente com IAs?

Em tempos de volumes colossais de informação bombardeando ininterruptamente nossos cérebros biologicamente projetados pra pegar fruta no mato, as pessoas estão perdendo em ritmo acelerado a capacidade crítica e de síntese de ideias - como têm demonstrado o número crescente de pesquisas sobre o tema - coisas que demandam tempo e paciência pra que se faça reflexões que considerem de verdade os diferentes aspectos e dimensões do objeto analisado, e simplesmente se entregando pros resultados toscos, rasos e muitas vezes errados que saem do ChatGPT e seus congêneres.

Pra mim isso não parece praticidade, mas o rendimento total da autonomia do pensar. E isso é sintomático do capitalismo: estamos tão cansados o tempo todo que até elaborar uma ideia mais complexa se tornou um estorvo, e o novo produto revolucionário a ser vendido (já que usá-las não só não é gratuito como, assim como em redes sociais, nossos dados são a moeda de troca) são os algoritmos que te poupam o tempo de ser um humano comum que lida com essa chaticezinha que é pensar. Junte isso a empresas bilionárias monopolizando tecnologias e direcionando a percepção acerca delas e pronto, tá feito o estrago.

Vou dar um exemplo prático do meu ponto. Estou há semanas escrevendo essa crônica. Pra falar a verdade não lembro a última vez que escrevi um texto numa tacada só, ou em alguns poucos dias. Geralmente fico ruminando o tópico, esqueço dele, relembro, escrevo mais meia dúzia de linhas, leio um pouco sobre o tema e então, depois de muito elaborar sobre o que eu penso sobre o assunto, começo realmente a organizar a ideia.

Se eu não passasse por isso escrevendo, ainda seria escrever? Sem falsa modéstia de “na minha humilde opinião”, aqui, vou ser direto e reto: não. Afirmo categoricamente que não. Se você se pergunta o porquê, a resposta é relativamente simples: criar algo não é só juntar um monte de partes através de técnica. O que diferencia um texto que eu ou qualquer outra pessoa produza de algo gerado por um algoritmo é a subjetividade - sempre ela.

Assim como quem escreve, a máquina é capaz de reunir um monte de referências e estruturar um texto a partir dos dados mais relevantes, obviamente muito mais rápido que qualquer ser humano, mas isso só poderia de fato ser considerado conhecimento ou arte passando por todos os filtros da subjetividade de uma pessoa. Hoje - no dia em que termino esse texto, no caso - vi um vídeo do mestre maior da animação, Hayao Miyazaki, criticando duramente os diretores de uma empresa de IA generativa que cria animações, dizendo que achava o resultado daquilo um insulto à vida.

O cerne dessa reflexão é exatamente esse. Boas ou ruins - nesse momento específico sem entrar no mérito do que define qualidade - expressões artísticas de qualquer natureza só são possíveis por causa dessa maravilhosa capacidade humana de interiorizar, remoer e reconstruir à imagem do seu “eu” todo o universo de acontecimentos que nos moldaram. Quando entregamos esse processo ao computador, estamos abrindo mão também desse possibilidade de autoconstrução e terceirizando nossa humanidade.

Chegando aos finalmentes, reitero: não sou contra o uso de IAs. A questão é que seu uso deveria se limitar a operações que não demandam a tal humanidade. Cálculos ultra complexos, análises estatísticas e outros tantos processamentos de dados sem dúvida nenhuma se beneficiam muito dessa ferramenta. Temos no Brasil um exemplo incrível na figura da doutoranda em Astrofísica Roberta Duarte, que pesquisa o comportamento de buracos negros usando simulações produzidas por IA.

O que não pode escapar do nosso horizonte é colocar as coisas em deu devido lugar. Como disse nosso grande neurocientista Miguel Nicolelis em entrevista à Revista Fórum,

"A inteligência é algo restrito aos organismos porque ela é uma propriedade emergente da interação de seres vivos com o seu ambiente. A inteligência resulta no processo de seleção natural, é a forma pela qual os organismos conseguem sobreviver às vicissitudes de um ambiente em contínua modificação. O termo inteligência é inapropriado porque os sistemas computacionais não preenchem a definição clássica de inteligência, nenhuma delas. E ela não é artificial porque ela é criada por seres humanos, ela não vem do nada, não cai do céu. A inteligência que existe nessa área é a inteligência dos programadores e das pessoas que geram esses sistemas".

Desde as primeiras representação de sistemas computacionais na cultura existe o medo de que um supercomputador dotado de algum nível de consciência tente destruir a humanidade ou robôs dotados de capacidades comportamentais quase indistinguíveis de seres humanos. Acho um tanto óbvio afirmar que meio que só depende da gente, enquanto sociedade, delimitar o que máquinas podem ou não fazer. Dito isso, preciso confessar: preferia falar de IA quando tudo que a gente lembrava ao ouvir isso era daquele moleque robô chato pra cacete num filme desnecessariamente longo do Spielberg. Voltemos a tempos mais simples.

 

Até a próxima.

terça-feira, 14 de janeiro de 2025

O Que Premia Um Prêmio?

 


Se tem uma coisa que eu posso chamar de falha de caráter enquanto escritor e amante de literatura é minha consciente displicência com a leitura de clássicos. Claro que li alguns dos mais conhecidos, especialmente durante o ensino médio, como meu amado “A Divina Comédia”, que ainda figura entre meus livros favoritos, mas sempre tive uma certa dificuldade de me conectar ou me atrair pelas grandes obras, nacionais ou não.

Essa conexão é, pra mim, o parâmetro mais importante de uma leitura. Por melhor escrito, tecnicamente apurado e com temáticas bem desenvolvidas e aprofundadas que seja, se o livro não dialogar em algum nível com o leitor, por mais que se insista, é grande a chance de a leitura ser lenta, arrastada e pouco proveitosa.

Claro que uma pessoa com hábito de leitura consegue contornar essas questões com alguma destreza, mas pra quem ainda está construindo essa relação, se forçar na leitura de uma obra com a qual a pessoa não se conecta costuma ter um efeito negativo. Confia em mim, tá tudo bem parar um livro que você achou chato no meio, o mais importante é não achar que a leitura “tem que” alguma coisa, ou que precisa ser mais uma coisa medida, registrada e quantificada como muito imbecil que gosta de incentivar essa nóia por produtividade costuma espalhar por aí. Leitura tem que ser prazerosa.

Agora, encerrando mais um capítulo da minha tradição de escrever introduções excessivamente longas, por que diabos entrei nessa reflexão? A resposta, direta e reta, é por causa dos dois últimos livros que li, “Sobre os Ossos dos Mortos” e “A Vegetariana”, ambos escritos por autoras que ganharam o Nobel de Literatura. Sobre ele falo um pouco mais pra frente, mas antes faço uma breve sinopse sobre os livros e faço algumas considerações do porquê escrevi esse texto.

“Sobre os Ossos dos Mortos”, da polonesa Olga Tokarczuk, narra os eventos ao redor de três assassinatos, todos aparentemente resultado da ação de animais selvagens, sob a perspectiva de Janina Dusheiko, professora aposentada e astróloga amadora - fato que, confesso, me ejetou da leitura algumas vezes porque não consigo deixar de achar astrologia uma grande bobajada - que vive nos arredores de uma cidadezinha já bastante isolada.

Colocado de lado seu inegável primor técnico, existe algo de previsível na narrativa, o que torna a reviravolta final entre zero e pouco chocante. O desfecho, na verdade, soa como a coisa mais provável por toda a história, e o que me prendeu na leitura foi exatamente a expectativa pela quebra dessa previsibilidade, pela constatação de que, de fato, haveria algo de sobrenatural operando naquele lugar. Gostei do livro, ao contrário do que possa parecer, mas senti falta de algo que provocasse um senso um pouco mais profundo de mistério e dúvida sobre as possibilidades.

“A Vegetariana”, assim como “Sobre os Ossos”, é impecável num sentido técnico, talvez até mais, além de ter uma dinâmica incrível que me fez, mesmo pouco entusiasmado com a narrativa, não conseguir parar de ler e terminá-lo em 3 dias. Nele, a coreana Han Kang narra o desenrolar da vida de uma mulher que, após um pesadelo, decide parar de ingerir quaisquer alimentos de origem animal, o que gera desdobramentos radicais e inesperados em todos da sua família, explorando questões como controle sobre o corpo e desejo feminino, culpa, saúde mental e exploração animal.

O que me incomodou na leitura, nesse caso, foi exatamente o que em tese me parece um artifício de metalinguagem para abordar essas temáticas: a história é contada sob a perspectiva do marido, do cunhado e da irmã da protagonista, meio que em segunda pessoa - talvez, não sei, desculpem minha ignorância e esquecimento nesse sentido, mas passei a última década não estudando teoria literária - o que, ao menos pra mim, gerou um descolamento das situações e desdobramentos subsequentes à revelação do vegetarianismo para a protagonista. Você simpatiza com ela, mas mais porque as pessoas ao redor estão o tempo todo tentando conduzir sua vida do que pela construção da personagem.

Reitero, essas percepções são puramente pessoais e singulares da minha experiência com ambos os livros, inclusive recomendo a leitura dos dois, até porque não recomendaria algo que não me fizesse pensar por pelo menos alguns dias sobre, como é o caso, mas é aí que, por fim, me vem a pergunta: o que premia, de fato, um prêmio? O que faz um clássico ser um clássico? Não tenho dúvida de que o conhecimento prévio de que ambos foram escritos por autoras premiadas com o Nobel teve um impacto significativo na experiência. A expectativa de que estaria adentrando narrativas superlativas movimenta conceitos altamente subjetivos sobre o que é ser superlativo, e mesmo tendo alguma capacidade de entender o primor técnico das obras, é impossível não ter uma certa decepção quando as expectativas não são atendidas.

Coincidentemente termino de escrever essa crônica pouco tempo depois de Fernanda Torres receber o Globo de Ouro de Melhor Atriz em Filme de Drama por sua atuação em “Ainda Estou Aqui”. Toda a discussão ao redor do filme à parte, me chamou a atenção a fala dela, assim como a de Selton Mello em algumas entrevistas, de que já estavam muito lisonjeados simplesmente por estarem ali, dividindo o espaço com outros grandes nomes da indústria e levando o cinema brasileiro para o mundo, e que isso por si só já era um grande prêmio.

Talvez meu ponto aqui seja esse. Existe uma ânsia bizarra do mundo em colocar as coisas em comparativo conflitivo e alguém precisa nos dizer qual o melhor. É claro, como já coloquei em algum texto anterior, existem certos parâmetros objetivos pra se estabelecer qualidade, mas quando esses parâmetros e a técnica se sobressaem ao conteúdo, o que fica é uma linda casca vazia: se vê a beleza, mas ela é preenchida por nada.

Voltando aos “Ossos dos Mortos” e “A Vegetariana”, não posso afirmar que esse seja o caso. Existe sim muito que se tirar de ambas as obras, mas ao refletir sobre elas sob a perspectiva de terem grande relevância na consagração de suas autoras com o Nobel de Literatura, me pergunto o que exatamente foi considerado pra além das metáforas elusivas que são colocadas na justificativa pública no site do Instituto Nobel - e que você pode conferir no link - pra estabelecer o ganhador. Tenho muitos tópicos elencados pra responder essa pergunta - questões geopolíticas, históricas, enfim, temas que demandariam muito mais que uma crônica pra desenvolver - mas que ainda assim não parecem conseguir montar o quadro completo.

É fato que ter seu trabalho reconhecido é extremamente gratificante, mas esse reconhecimento não passa necessariamente por uma premiação institucional, ou ao menos não deveria. Em alguma dimensão, o prêmio talvez seja mais importante para quem premia e quem observa do que para o próprio premiado, por alguns dos motivos citados acima. Não é meu objetivo aqui chegar a uma conclusão nem dizer o que deveria ou não guiar suas escolhas para o que você consome, é só te dar aquela cutucada pra estar sempre aberto a refletir o motivo de fazer as escolhas que você faz e colocá-las sob perspectiva, além de, claro, não se fechar para o novo, seja contemporâneo ou clássico.

Dito isso, não se engane, também escrevi esse texto pra mim mesmo, como um lembrete pessoal de que preciso me manter atento pra não cair no erro de deixar passar obras que podem enriquecer meu próprio fazer literário. Infelizmente não posso passar cada segundo do meu dia lendo, então sigo nessa missão no ritmo do possível e não do desejado.

 

Até a próxima.



Link para lista de ganhadores do Nobel: https://www.nobelprize.org/prizes/lists/all-nobel-prizes-in-literature/