O concurso seria em
seis meses. Eu já sabia disso há pelo menos um ano, mas como a inconstância é a
alma do artista, obviamente deixei pra pensar nisso na última hora. O problema
é que ser produtor de queijos, ainda que seja um trabalho artístico, também
exige muito mais comprometimento, estrutura e planejamento que pintar a porra
dum quadro, né? Não desmerecendo os pintores, mas me perdoem, eu tenho muito
mais trabalho.
A competição das
últimas edições do Festival do Queijo Artesanal do Sul de Minas foi violenta. O
Sérgio, meu vizinho, queijeiro há uns 30 anos, saiu na mão com um produtor
paulista que disse que o queijo dele não prestava pra comer com azeite de
qualidade, porque tinha gosto de "reboco velho". Como o paulista
sabia qual era o gosto de reboco velho, nunca saberemos, mas pelo sorriso
acidentado dele, era de se imaginar. Loucura.
Ainda que tivesse
dado menos importância do que deveria pra velocidade com que o tempo corre,
pelo menos eu já tinha tudo meio planejado. Ia fazer um queijo de pouca cura,
revestido com uma camada fina de cera de abelha jataí pra curar tranquilo,
ficar com a massa macia e o sabor delicado, ligeiramente adocicado, com pouca
acidez e um fundo amanteigado, meio de nozes, coisa fina. A receita tinha sido
desenvolvida pela minha avó, segredo de Estado, só circulava na nossa família,
mas ela nunca conseguiu chegar no resultado exato que pretendia. Eu ia mudar
essa história e ganhar o concurso.
Era uma terça-feira.
Ordenhei as vacas e fui pra queijaria. A noite não tinha sido exatamente de
sono tranquilo. Acordei 3 ou 4 vezes depois de sonhar que ouvia alguém me
chamar. Talvez fosse um prelúdio, talvez só minha imaginação. Não importa.
Tinha que recuperar o tempo perdido e testar a receita o máximo de vezes
possível. Ouvi uma batida na porta. Ótimo, mais distrações, tudo que eu
precisava.
"Fala, jovem!
Tudo bom?"
"Mais ou menos,
Sérgio, mas sabe como é, o Universo não tá nem aí pro meu estado mental, então
seguimos. Diz aí, que que manda?".
"Esse ano não
vou participar do concurso, então vim ver se de repente cê não precisa de uma
ajuda".
"Uai, como não
vai participar? Achei que cê queria dar o troco no paulista".
"Pois é, até
pensei, mas descobri uma coisa".
"Como assim,
uma coisa? Que coisa"?
"O paulista tá
envolvido com um grupo aí, não sei bem o que que é, mas é gente da pesada. Eles
levam o negócio de queijo a sério".
"Mas a gente
também leva, é nossa profissão".
"Não, não, você
não tá entendendo. Eles levam isso A SÉRIO".
"E eu devia
saber o que cê quer dizer com isso"?
"Olha, tudo
certo, isso não importa, agora. Cê vai querer ajuda ou não"?
"Cê falando
desse jeito, parece que eu vou TER QUE QUERER ajuda, né"?
"Seria
prudente".
"Tá certo,
então. Quer uma dosinha"?
"São 8h da
manhã".
"Pois é,
Sérgio, mas como eu falei, a noite foi mais ou menos".
Três meses correram
razoavelmente tranquilos. Tinha alguma coisa meio esquisita no ar, como se
alguém muito sorrateiro passasse os dias vigiando nosso trabalho, mas acho que
não passava do sentimento de ameaça natural que alguém com concorrência tem. A
ajuda do Sérgio foi uma mão na roda, consegui quase quadruplicar o volume de
testes do queijo da minha vó sem deixar de produzir os outros. Finalmente tinha
chego num resultado agradável, mas achava que ainda faltava alguma coisa.
Seis peças, o
resultado final de cinco meses de trabalho, refinariam até o concurso, e aí sim
teria chego no queijo perfeito, o ápice dos laticínios. Ouvindo de fora talvez
soe uma alegria meio boba, ficar tão feliz assim por causa de queijo, mas eu
garanto, não tem nada mais satisfatório que o resultado primoroso de um produto
tão suscetível ao ambiente. Ser mineiro é bom demais.
Batemos o martelo e
resolvi que era hora de descansar um pouco. Cinco meses de imersão deixam
qualquer um meio desconectado da realidade. Nem lembrava a última vez que tinha
dormido uma noite inteira ou aparado a barba, essas coisas corriqueiras que
fazem a gente se manter em contato consigo mesmos. Sérgio comentou algumas
vezes que tinha visto uma caminhonete rondando nossa região, sempre pelos
mesmos horários, como se tentasse monitorar a atividade da redondeza.
Sinceramente não dei muita importância, achei que ele já tava alucinando por
conta do tempo de exposição aos fungos da queijaria, ou que fosse só aquela
perturbação natural que eu falei antes. Ledo engano.
Tirei uma folguinha
e fui na cidade comprar comida, bebida e essas coisas que gente normal consome.
Fazia um tempo que eu tava precisando me sentir normal de novo, fora que
precisava me alimentar de coisas que não fossem feitas de leite, também. E bom,
não ia matar minhas vacas. Fiz as compras, encontrei amigos, tomei café. Que
coisa linda, se sentir liberto novamente.
Voltando pro sítio,
botei reparo que a estrada parecia meio mexida, como se alguém tivesse dirigido
muito rápido por lá. Ela só levava pra minha casa e a do Sérgio, e ele não
tinha carro. Na verdade, depende. Pelo menos eu não considero aquele Chevette velho
um carro. Enfim. Acelerei o quanto deu. Chegando em casa, tudo estranhamente
normal. A única coisa fora do lugar era uma pedra. Infelizmente era exatamente
a pedra que eu deixava em cima da caixa escondida onde ficava a chave reserva
da queijaria. Merda. Entrei e vi exatamente o que eu não queria: levaram meus
queijos. Não soube como reagir, então achei prudente deitar no chão e olhar pro
teto por alguns minutos.
A primeira vez que
eu entrei na queijaria tinha 6 anos. Lembro do cheiro pungente invadindo minhas
narinas, as senhoras que trabalhavam com a minha avó rindo enquanto transferiam
a massa coalhada para os moldes. Depois disso, quis passar cada segundo ali,
aprendendo. A velha não era uma pessoa paciente, dá até pra dizer que em algum
lugar escondido do seu âmago ela odiava a ideia de ter gente a menos de 10
metros de distância. Menos na queijaria.
Aquele lugar parecia
apaziguar minha avó. Diria que o ar lácteo e ligeiramente ácido causava nela o
mesmo efeito que incenso causa em millennials (apesar de todo mundo saber que
na verdade essa paz é por causa de droga antes do incenso, mesmo. Sem julgamentos).
Era ela cruzar a porta e o cenho franzido e os ombros retesados viravam um
corpo leve, calmo e concentrado.
Onde quer que fosse,
nunca consegui encontrar essa paz. Tem um lado meu constantemente obcecado com
um tipo de perfeição não exatamente perfeita, sempre insatisfeito com o
resultado das coisas que eu faço. E existe ainda um outro que não consegue
parar de pensar em todos os possíveis resultados negativos do que quer me
proponha a fazer. Preciso voltar pra terapia. Mas antes, voltemos ao infortúnio
do momento presente.
Não havia mais tempo
pra produzir peças novas, então fui atrás do Sérgio pra explanar o plano genial
que eu tinha bolado.
“Sair por aí
perguntando se alguém viu a caminhonete? Esse é o plano?”
“Bom, passei três
horas deitado no chão da queijaria lutando contra a ideia de que eu perdi todo
o progresso dos últimos cinco meses só porque eu precisava FINGIR por algumas
horas que eu ainda sou um ser humano e faço parte da sociedade, Sérgio. Mil perdões
se esse plano não parece bom o suficiente pra você.”
“Não foi isso que eu
quis dizer. A minha questão é que tá cheio de gente na cidade que com certeza
se beneficiaria da gente rodando nessa situação. Se eu e você sairmos por aí
perguntando pra qualquer um, provavelmente alguém envolvido nessa palhaçada vai
ficar sabendo e aí sim a gente nunca vai encontrar esses queijos.”
“É, vou dar o braço
a torcer, isso foi surpreendentemente sensato.”
“Eu sou sensato,
jovem, você devia me dar um pouco mais de crédito.”
“Quanto crédito você
quiser. Mas diz aí, então, o que fazemos agora?”
“Me dá 10 minutos,
vou fazer uma ligação”.
“Seguinte, consegui
umas informações”.
“Sou todo ouvidos”.
“Lembra da
caminhonete que eu vi circulando aqui na região? Perguntei pra um conhecido que
é melhor você não saber quem é se ele tinha reparado em alguma movimentação
diferente na cidade e adivinha? Me falou que tem uns caras hospedados naquela
pousadinha no fim da estradinha que entra na rodovia estadual”.
“Tá, e isso deveria
significar exatamente o quê? Vários caras se hospedam naquela pousada. É uma
pousada, é pra isso que ela serve”.
“Bicho, mas cê é
lerdo, heim?”.
“Olha, Sérgio,
alguns meses respirando mais vapores lácteos do que ar puro PODEM SIM afetar a
cabeça de alguém, ao contrário do que dizem por aí. Dá pra ser mais direto?”.
“Eu tava certo, uai!
Os caras na pousada são os caras da caminhonete, meu conhecido viu os quatro
saindo todos os dias de lá, no mesmo horário, nos últimos dois meses”.
“Quem é esse seu
conhecido? E por que ele tem tanto tempo livre pra observar pessoas saindo de
pousadinhas na beira de estradas?”.
“Já falei, melhor
não saber”.
“Tá, tá, tudo bem,
ignoremos o homem misterioso que certamente não deve estar envolvido em
falcatruas e retornemos ao tópico. O que exatamente a gente devia fazer com
essa informação?”.
“Uai, os queijos são
seus, você que decide”.
“A gente pode ir até
lá, ficar meio de tocaia, esperar os caras saírem e entrar, perguntar se alguém
viu alguma coisa”.
“Outro plano
horrível”.
“Ô, cacete, cê que
disse pra eu decidir! Dá uma ideia melhor, então”.
“Não tenho”.
“Então vai ser o
plano horrível, mesmo. Se quiser ficar aí, fica, mas eu vou lá”.
“Eu vou também.
Conheço o dono da pousada, acho que eu desenrolo com ele pra deixar a gente dar
uma fuçada no quarto deles”.
“Cê podia ter dito
isso no COMEÇO da conversa, né?”.
“Uai, e eu lá ia
saber que cê ia querer ir até lá?”.
“Que escolha eu
tenho?”.
“Várias. Mas tudo
bem, se cê tá decidido, bora”.
“Muito obrigado”.
Esperamos umas duas
horas no café do posto que ficava de frente com a pousada. Assim que vimos a
caminhonete sair, atravessamos à pé e fomos até a recepção da pousada. Por fora
o prédio de 3 andares parecia o cenário de um filme que misturava Mad Max, Fuga
de Nova York e Legalmente Loira. Pintura rosa num tom pastel, claramente sem
retoque há pelo menos 10 anos, alguns descascados, grades de ferro escuro em
todas as janelas e muitas touceiras parcialmente mortas de flores dos mais
diversos tipos e cores. O interior, ao contrário, era sóbrio, meio art déco,
quase excessivamente limpo e bem cuidado. Vai entender.
“Fala, Gonça! Cê tá
bom?”.
“Sérgio, pelo amor
de Deus, ninguém mais me chama de Gonça desde que a gente tinha 20 e poucos
anos”.
“Uai, é a prova de
que a gente tem uma amizade sólida e duradoura”.
“Tem uns 10 anos que
a gente mal troca meia dúzia de palavras”.
“Detalhes, Gonça,
detalhes”.
“Tá bom, Sérgio.
Bem-vindos à pousada Ferrovia, o que desejam?”.
“Então, Gonça, botei
reparo que saíram uns rapazes que podem ou não ter a ver com uma investigação
que eu e meu amigo aqui estamos fazendo”.
“Investigação?
Largou a queijaria?”.
“Não, não, só tô
ajudando o jovem. Digamos que talvez seja possível que estes distintos senhores
podem estar relacionados ao sequestro de queijos valiosíssimos que a gente
produziu pro Festival do Queijo Artesanal. Será que, em nome da nossa amizade,
você não compartilharia informações com esses dois árduos trabalhadores que
aqui se encontram?”.
“Olha, Sérgio, antes
de mais nada, acredito que você seja inteligente o bastante pra saber que eu
não posso compartilhar informações sobre os hóspedes. Além disso, sendo bem
sincero, não sei se esses caras são o tipo com quem você quer mexer. Não posso
afirmar nada, mas eu não mexeria”.
Já não aguentava
mais ficar ali. Além da clara falta de objetividade ou eficiência do Sérgio, o
tal do Gonça também não me parecia muito propenso a ajudar, então resolvi
entrar na jogada.
“Amigo, cê me
desculpa, mas é o seguinte. Eu tô há meses trabalhando nesses queijos com a
ajuda do Sérgio, o concurso vai acontecer em algumas semanas e eu PRECISO achar
essas merdas. Tô cansado, estressado e sem cabeça pra esse joguinho esquisito
de mais-ou-menos-amigos de vocês dois, então é o seguinte: você viu qualquer
coisa que possa indicar que aqueles caras possam ter alguma relação com o roubo
dos meus queijos?”.
O Gonça claramente
não tinha qualquer expectativa de que eu dissesse alguma coisa, ficou alguns
segundos olhando pra mim como quem presencia um motoqueiro caindo com a moto
parada. Esfregou os olhos, saiu de trás do balcão da recepção e trancou a porta
da pousada.
“Seguinte, NÃO FUI
EU que te dei a chave do quarto e disse que que ele fica de frente com a escada
do segundo andar, muito menos que eles costumam ficar umas 3 horas fora quando
saem, o que te ainda te dá um bom tempo pra entrar e olhar lá. Mas, novamente,
ainda acho isso um erro”.
“Muito obrigado,
Gonça, vou lembrar do seu conselho”.
“Garoto, vai lá. Vou
ficar aqui com o Gonça e te mando uma mensagem no celular caso os caras cheguem
antes do esperado”.
Subi as escadas,
enfiei a chave no trinco e abri a porta. Nada. O quarto era absolutamente
impecável, como se ninguém entrasse ali há dias. Senti um baque na nuca e caí
no chão apagado.
Acordei uma semana
depois no hospital da cidade. O médico que acompanhava minha internação disse
que os frentistas me encontraram desacordado no posto, na manhã seguinte à
minha ida com o Sérgio na pousada. Minhas lembranças à princípio só chegavam
até o momento que subi as escadas em direção ao quarto, levei alguns dias pra
atinar que talvez os caras nunca nem tivessem ficado hospedados nele,
possivelmente nem no hotel. Por mensagem, o Sérgio me contou que também foi
atacado, mas que acordou no dia seguinte, também no hospital, sem maiores
complicações e logo recebeu alta. Me visitou por três dias, mas como não havia
previsão pra que eu acordasse, resolveu passar uns dias com a mãe na cidade
vizinha.
Dois dias depois de
receber alta voltei até a pousada pra tentar descobrir o que aconteceu comigo.
“Sinto muito, amigo,
mas faz alguns dias que o Armando não aparece no trabalho nem me dá satisfação.
Sinceramente eu nem quero saber no que ele se meteu, caso você tenha vindo até
aqui pra falar disso”.
“Na verdade, eu
QUERO saber no que ele se meteu, porque foi a mesma merda em que me envolveram
e que me deixou desacordado uma semana no hospital. Enfim, obrigado por nada”.
“Disponha”.
O sentimento de
estranheza havia desaparecido. Certamente não tinha mais ninguém me vigiando, e
mesmo que houvesse, não fazia mais diferença. Meu trabalho foi todo pelo ralo e
faltavam menos de 3 semanas pro festival, nem perto de ser tempo suficiente pra
tentar reproduzir a receita e curar uma peça de queijo que fosse. Resolvi que
tava na hora de retomar minha vida normal, produzir meus queijos de sempre,
cuidar das vacas como sempre, esquecer desse negócio de festival, de Gonça,
esquisitões em caminhonetes roubando queijos alheios, enfim, qualquer coisa que
remetesse aos últimos meses.
Num domingo de
manhã, mais ou menos um mês depois, acordei cansado depois de uma noite
conturbada. Sonhei novamente com alguém me chamando, provavelmente um rebote
emocional daquela merda toda, e pareceu sensato levantar logo ao invés de ficar
tentando fingir pra mim mesmo que seria possível virar pro lado e voltar a
dormir. Passei um café, liguei a TV e sentei no sofá pra assistir Globo Rural.
Na matéria especial, ele mesmo, o famigerado Festival do Queijo Artesanal do
Sul de Minas. E qual não foi minha surpresa ao ver a entrevista com os
vencedores do festival: Gonça e SÉRGIO. Sorridentes, falando pra repórter como
foi complexo o desenvolvimento da receita, segurando uma das peças de queijo
roubado e o troféu.
Nas semanas
anteriores tentei várias vezes entrar em contato com o Sérgio. Liguei, mandei
mensagem, e nada. Fui até a casa dele, ver se já tinha voltado, mas a casa
parecia vazia, a horta já estava quase toda morta e um outro vizinho disse que
havia comprado as vacas dele. Imaginei que depois de tantas décadas ele
estivesse cansado, que precisasse de um tempo longe de tudo aquilo, ficar
próximo da família, qualquer coisa do gênero. Mas ISSO? Nunca.
Essa imagem veio
como uma voadora na minha cara. Meu estômago embrulhou, minha cabeça começou a
formigar, o suor não parava de escorrer em meio ao clima ameno do outono.
Tentei encontrar algum sentido naquilo, mas nada vinha. Desnorteado, tomei o
último gole de café e fiz a única coisa sensata naquele momento: deitei no chão
e passei algumas horas olhando pro teto.




