terça-feira, 18 de novembro de 2025

Dois Queijeiros

 


O concurso seria em seis meses. Eu já sabia disso há pelo menos um ano, mas como a inconstância é a alma do artista, obviamente deixei pra pensar nisso na última hora. O problema é que ser produtor de queijos, ainda que seja um trabalho artístico, também exige muito mais comprometimento, estrutura e planejamento que pintar a porra dum quadro, né? Não desmerecendo os pintores, mas me perdoem, eu tenho muito mais trabalho.

A competição das últimas edições do Festival do Queijo Artesanal do Sul de Minas foi violenta. O Sérgio, meu vizinho, queijeiro há uns 30 anos, saiu na mão com um produtor paulista que disse que o queijo dele não prestava pra comer com azeite de qualidade, porque tinha gosto de "reboco velho". Como o paulista sabia qual era o gosto de reboco velho, nunca saberemos, mas pelo sorriso acidentado dele, era de se imaginar. Loucura.

Ainda que tivesse dado menos importância do que deveria pra velocidade com que o tempo corre, pelo menos eu já tinha tudo meio planejado. Ia fazer um queijo de pouca cura, revestido com uma camada fina de cera de abelha jataí pra curar tranquilo, ficar com a massa macia e o sabor delicado, ligeiramente adocicado, com pouca acidez e um fundo amanteigado, meio de nozes, coisa fina. A receita tinha sido desenvolvida pela minha avó, segredo de Estado, só circulava na nossa família, mas ela nunca conseguiu chegar no resultado exato que pretendia. Eu ia mudar essa história e ganhar o concurso.

Era uma terça-feira. Ordenhei as vacas e fui pra queijaria. A noite não tinha sido exatamente de sono tranquilo. Acordei 3 ou 4 vezes depois de sonhar que ouvia alguém me chamar. Talvez fosse um prelúdio, talvez só minha imaginação. Não importa. Tinha que recuperar o tempo perdido e testar a receita o máximo de vezes possível. Ouvi uma batida na porta. Ótimo, mais distrações, tudo que eu precisava.

"Fala, jovem! Tudo bom?"

"Mais ou menos, Sérgio, mas sabe como é, o Universo não tá nem aí pro meu estado mental, então seguimos. Diz aí, que que manda?".

"Esse ano não vou participar do concurso, então vim ver se de repente cê não precisa de uma ajuda".

"Uai, como não vai participar? Achei que cê queria dar o troco no paulista".

"Pois é, até pensei, mas descobri uma coisa".

"Como assim, uma coisa? Que coisa"?

"O paulista tá envolvido com um grupo aí, não sei bem o que que é, mas é gente da pesada. Eles levam o negócio de queijo a sério".

"Mas a gente também leva, é nossa profissão".

"Não, não, você não tá entendendo. Eles levam isso A SÉRIO".

"E eu devia saber o que cê quer dizer com isso"?

"Olha, tudo certo, isso não importa, agora. Cê vai querer ajuda ou não"?

"Cê falando desse jeito, parece que eu vou TER QUE QUERER ajuda, né"?

"Seria prudente".

"Tá certo, então. Quer uma dosinha"?

"São 8h da manhã".

"Pois é, Sérgio, mas como eu falei, a noite foi mais ou menos".

Três meses correram razoavelmente tranquilos. Tinha alguma coisa meio esquisita no ar, como se alguém muito sorrateiro passasse os dias vigiando nosso trabalho, mas acho que não passava do sentimento de ameaça natural que alguém com concorrência tem. A ajuda do Sérgio foi uma mão na roda, consegui quase quadruplicar o volume de testes do queijo da minha vó sem deixar de produzir os outros. Finalmente tinha chego num resultado agradável, mas achava que ainda faltava alguma coisa.

Seis peças, o resultado final de cinco meses de trabalho, refinariam até o concurso, e aí sim teria chego no queijo perfeito, o ápice dos laticínios. Ouvindo de fora talvez soe uma alegria meio boba, ficar tão feliz assim por causa de queijo, mas eu garanto, não tem nada mais satisfatório que o resultado primoroso de um produto tão suscetível ao ambiente. Ser mineiro é bom demais.

Batemos o martelo e resolvi que era hora de descansar um pouco. Cinco meses de imersão deixam qualquer um meio desconectado da realidade. Nem lembrava a última vez que tinha dormido uma noite inteira ou aparado a barba, essas coisas corriqueiras que fazem a gente se manter em contato consigo mesmos. Sérgio comentou algumas vezes que tinha visto uma caminhonete rondando nossa região, sempre pelos mesmos horários, como se tentasse monitorar a atividade da redondeza. Sinceramente não dei muita importância, achei que ele já tava alucinando por conta do tempo de exposição aos fungos da queijaria, ou que fosse só aquela perturbação natural que eu falei antes. Ledo engano.

Tirei uma folguinha e fui na cidade comprar comida, bebida e essas coisas que gente normal consome. Fazia um tempo que eu tava precisando me sentir normal de novo, fora que precisava me alimentar de coisas que não fossem feitas de leite, também. E bom, não ia matar minhas vacas. Fiz as compras, encontrei amigos, tomei café. Que coisa linda, se sentir liberto novamente.

Voltando pro sítio, botei reparo que a estrada parecia meio mexida, como se alguém tivesse dirigido muito rápido por lá. Ela só levava pra minha casa e a do Sérgio, e ele não tinha carro. Na verdade, depende. Pelo menos eu não considero aquele Chevette velho um carro. Enfim. Acelerei o quanto deu. Chegando em casa, tudo estranhamente normal. A única coisa fora do lugar era uma pedra. Infelizmente era exatamente a pedra que eu deixava em cima da caixa escondida onde ficava a chave reserva da queijaria. Merda. Entrei e vi exatamente o que eu não queria: levaram meus queijos. Não soube como reagir, então achei prudente deitar no chão e olhar pro teto por alguns minutos.

A primeira vez que eu entrei na queijaria tinha 6 anos. Lembro do cheiro pungente invadindo minhas narinas, as senhoras que trabalhavam com a minha avó rindo enquanto transferiam a massa coalhada para os moldes. Depois disso, quis passar cada segundo ali, aprendendo. A velha não era uma pessoa paciente, dá até pra dizer que em algum lugar escondido do seu âmago ela odiava a ideia de ter gente a menos de 10 metros de distância. Menos na queijaria.

Aquele lugar parecia apaziguar minha avó. Diria que o ar lácteo e ligeiramente ácido causava nela o mesmo efeito que incenso causa em millennials (apesar de todo mundo saber que na verdade essa paz é por causa de droga antes do incenso, mesmo. Sem julgamentos). Era ela cruzar a porta e o cenho franzido e os ombros retesados viravam um corpo leve, calmo e concentrado.

Onde quer que fosse, nunca consegui encontrar essa paz. Tem um lado meu constantemente obcecado com um tipo de perfeição não exatamente perfeita, sempre insatisfeito com o resultado das coisas que eu faço. E existe ainda um outro que não consegue parar de pensar em todos os possíveis resultados negativos do que quer me proponha a fazer. Preciso voltar pra terapia. Mas antes, voltemos ao infortúnio do momento presente.

Não havia mais tempo pra produzir peças novas, então fui atrás do Sérgio pra explanar o plano genial que eu tinha bolado.

“Sair por aí perguntando se alguém viu a caminhonete? Esse é o plano?”

“Bom, passei três horas deitado no chão da queijaria lutando contra a ideia de que eu perdi todo o progresso dos últimos cinco meses só porque eu precisava FINGIR por algumas horas que eu ainda sou um ser humano e faço parte da sociedade, Sérgio. Mil perdões se esse plano não parece bom o suficiente pra você.”

“Não foi isso que eu quis dizer. A minha questão é que tá cheio de gente na cidade que com certeza se beneficiaria da gente rodando nessa situação. Se eu e você sairmos por aí perguntando pra qualquer um, provavelmente alguém envolvido nessa palhaçada vai ficar sabendo e aí sim a gente nunca vai encontrar esses queijos.”

“É, vou dar o braço a torcer, isso foi surpreendentemente sensato.”

“Eu sou sensato, jovem, você devia me dar um pouco mais de crédito.”

“Quanto crédito você quiser. Mas diz aí, então, o que fazemos agora?”

“Me dá 10 minutos, vou fazer uma ligação”.

“Seguinte, consegui umas informações”.

“Sou todo ouvidos”.

“Lembra da caminhonete que eu vi circulando aqui na região? Perguntei pra um conhecido que é melhor você não saber quem é se ele tinha reparado em alguma movimentação diferente na cidade e adivinha? Me falou que tem uns caras hospedados naquela pousadinha no fim da estradinha que entra na rodovia estadual”.

“Tá, e isso deveria significar exatamente o quê? Vários caras se hospedam naquela pousada. É uma pousada, é pra isso que ela serve”.

“Bicho, mas cê é lerdo, heim?”.

“Olha, Sérgio, alguns meses respirando mais vapores lácteos do que ar puro PODEM SIM afetar a cabeça de alguém, ao contrário do que dizem por aí. Dá pra ser mais direto?”.

“Eu tava certo, uai! Os caras na pousada são os caras da caminhonete, meu conhecido viu os quatro saindo todos os dias de lá, no mesmo horário, nos últimos dois meses”.

“Quem é esse seu conhecido? E por que ele tem tanto tempo livre pra observar pessoas saindo de pousadinhas na beira de estradas?”.

“Já falei, melhor não saber”.

“Tá, tá, tudo bem, ignoremos o homem misterioso que certamente não deve estar envolvido em falcatruas e retornemos ao tópico. O que exatamente a gente devia fazer com essa informação?”.

“Uai, os queijos são seus, você que decide”.

“A gente pode ir até lá, ficar meio de tocaia, esperar os caras saírem e entrar, perguntar se alguém viu alguma coisa”.

“Outro plano horrível”.

“Ô, cacete, cê que disse pra eu decidir! Dá uma ideia melhor, então”.

“Não tenho”.

“Então vai ser o plano horrível, mesmo. Se quiser ficar aí, fica, mas eu vou lá”.

“Eu vou também. Conheço o dono da pousada, acho que eu desenrolo com ele pra deixar a gente dar uma fuçada no quarto deles”.

“Cê podia ter dito isso no COMEÇO da conversa, né?”.

“Uai, e eu lá ia saber que cê ia querer ir até lá?”.

“Que escolha eu tenho?”.

“Várias. Mas tudo bem, se cê tá decidido, bora”.

“Muito obrigado”.

Esperamos umas duas horas no café do posto que ficava de frente com a pousada. Assim que vimos a caminhonete sair, atravessamos à pé e fomos até a recepção da pousada. Por fora o prédio de 3 andares parecia o cenário de um filme que misturava Mad Max, Fuga de Nova York e Legalmente Loira. Pintura rosa num tom pastel, claramente sem retoque há pelo menos 10 anos, alguns descascados, grades de ferro escuro em todas as janelas e muitas touceiras parcialmente mortas de flores dos mais diversos tipos e cores. O interior, ao contrário, era sóbrio, meio art déco, quase excessivamente limpo e bem cuidado. Vai entender.

“Fala, Gonça! Cê tá bom?”.

“Sérgio, pelo amor de Deus, ninguém mais me chama de Gonça desde que a gente tinha 20 e poucos anos”.

“Uai, é a prova de que a gente tem uma amizade sólida e duradoura”.

“Tem uns 10 anos que a gente mal troca meia dúzia de palavras”.

“Detalhes, Gonça, detalhes”.

“Tá bom, Sérgio. Bem-vindos à pousada Ferrovia, o que desejam?”.

“Então, Gonça, botei reparo que saíram uns rapazes que podem ou não ter a ver com uma investigação que eu e meu amigo aqui estamos fazendo”.

“Investigação? Largou a queijaria?”.

“Não, não, só tô ajudando o jovem. Digamos que talvez seja possível que estes distintos senhores podem estar relacionados ao sequestro de queijos valiosíssimos que a gente produziu pro Festival do Queijo Artesanal. Será que, em nome da nossa amizade, você não compartilharia informações com esses dois árduos trabalhadores que aqui se encontram?”.

“Olha, Sérgio, antes de mais nada, acredito que você seja inteligente o bastante pra saber que eu não posso compartilhar informações sobre os hóspedes. Além disso, sendo bem sincero, não sei se esses caras são o tipo com quem você quer mexer. Não posso afirmar nada, mas eu não mexeria”.

Já não aguentava mais ficar ali. Além da clara falta de objetividade ou eficiência do Sérgio, o tal do Gonça também não me parecia muito propenso a ajudar, então resolvi entrar na jogada.

“Amigo, cê me desculpa, mas é o seguinte. Eu tô há meses trabalhando nesses queijos com a ajuda do Sérgio, o concurso vai acontecer em algumas semanas e eu PRECISO achar essas merdas. Tô cansado, estressado e sem cabeça pra esse joguinho esquisito de mais-ou-menos-amigos de vocês dois, então é o seguinte: você viu qualquer coisa que possa indicar que aqueles caras possam ter alguma relação com o roubo dos meus queijos?”.

O Gonça claramente não tinha qualquer expectativa de que eu dissesse alguma coisa, ficou alguns segundos olhando pra mim como quem presencia um motoqueiro caindo com a moto parada. Esfregou os olhos, saiu de trás do balcão da recepção e trancou a porta da pousada.

“Seguinte, NÃO FUI EU que te dei a chave do quarto e disse que que ele fica de frente com a escada do segundo andar, muito menos que eles costumam ficar umas 3 horas fora quando saem, o que te ainda te dá um bom tempo pra entrar e olhar lá. Mas, novamente, ainda acho isso um erro”.

“Muito obrigado, Gonça, vou lembrar do seu conselho”.

“Garoto, vai lá. Vou ficar aqui com o Gonça e te mando uma mensagem no celular caso os caras cheguem antes do esperado”.

Subi as escadas, enfiei a chave no trinco e abri a porta. Nada. O quarto era absolutamente impecável, como se ninguém entrasse ali há dias. Senti um baque na nuca e caí no chão apagado.

Acordei uma semana depois no hospital da cidade. O médico que acompanhava minha internação disse que os frentistas me encontraram desacordado no posto, na manhã seguinte à minha ida com o Sérgio na pousada. Minhas lembranças à princípio só chegavam até o momento que subi as escadas em direção ao quarto, levei alguns dias pra atinar que talvez os caras nunca nem tivessem ficado hospedados nele, possivelmente nem no hotel. Por mensagem, o Sérgio me contou que também foi atacado, mas que acordou no dia seguinte, também no hospital, sem maiores complicações e logo recebeu alta. Me visitou por três dias, mas como não havia previsão pra que eu acordasse, resolveu passar uns dias com a mãe na cidade vizinha.

Dois dias depois de receber alta voltei até a pousada pra tentar descobrir o que aconteceu comigo.

“Sinto muito, amigo, mas faz alguns dias que o Armando não aparece no trabalho nem me dá satisfação. Sinceramente eu nem quero saber no que ele se meteu, caso você tenha vindo até aqui pra falar disso”.

“Na verdade, eu QUERO saber no que ele se meteu, porque foi a mesma merda em que me envolveram e que me deixou desacordado uma semana no hospital. Enfim, obrigado por nada”.

“Disponha”.

O sentimento de estranheza havia desaparecido. Certamente não tinha mais ninguém me vigiando, e mesmo que houvesse, não fazia mais diferença. Meu trabalho foi todo pelo ralo e faltavam menos de 3 semanas pro festival, nem perto de ser tempo suficiente pra tentar reproduzir a receita e curar uma peça de queijo que fosse. Resolvi que tava na hora de retomar minha vida normal, produzir meus queijos de sempre, cuidar das vacas como sempre, esquecer desse negócio de festival, de Gonça, esquisitões em caminhonetes roubando queijos alheios, enfim, qualquer coisa que remetesse aos últimos meses.

Num domingo de manhã, mais ou menos um mês depois, acordei cansado depois de uma noite conturbada. Sonhei novamente com alguém me chamando, provavelmente um rebote emocional daquela merda toda, e pareceu sensato levantar logo ao invés de ficar tentando fingir pra mim mesmo que seria possível virar pro lado e voltar a dormir. Passei um café, liguei a TV e sentei no sofá pra assistir Globo Rural. Na matéria especial, ele mesmo, o famigerado Festival do Queijo Artesanal do Sul de Minas. E qual não foi minha surpresa ao ver a entrevista com os vencedores do festival: Gonça e SÉRGIO. Sorridentes, falando pra repórter como foi complexo o desenvolvimento da receita, segurando uma das peças de queijo roubado e o troféu.

Nas semanas anteriores tentei várias vezes entrar em contato com o Sérgio. Liguei, mandei mensagem, e nada. Fui até a casa dele, ver se já tinha voltado, mas a casa parecia vazia, a horta já estava quase toda morta e um outro vizinho disse que havia comprado as vacas dele. Imaginei que depois de tantas décadas ele estivesse cansado, que precisasse de um tempo longe de tudo aquilo, ficar próximo da família, qualquer coisa do gênero. Mas ISSO? Nunca.

Essa imagem veio como uma voadora na minha cara. Meu estômago embrulhou, minha cabeça começou a formigar, o suor não parava de escorrer em meio ao clima ameno do outono. Tentei encontrar algum sentido naquilo, mas nada vinha. Desnorteado, tomei o último gole de café e fiz a única coisa sensata naquele momento: deitei no chão e passei algumas horas olhando pro teto.


sábado, 18 de outubro de 2025

O (Velho e o Novo) Som das Araucárias

 


Voltei pra Mantiqueira, concretizando as quase proféticas reflexões produzidas na crônica “O Som das Araucárias”. E que estranho voltar. Não que eu acreditasse em transformações profundas, mas é engraçado como quase nada mudou. Ou melhor, uma coisa mudou. Eu.

É a quarta vez que moro em Campos. Como também dito no mesmo texto, houve um tempo em que afirmava veementemente que nunca mais pisaria aqui, como se tivesse qualquer controle real sobre como as coisas na vida se desdobram. Um ano após o outro, sinto como se um fio me ligasse à montanha, se fortalecendo cada vez mais, me puxando de volta sempre que se estabelece um desalinho.

A volta também foi às panelas. Assim como disse aos 19 que nunca voltaria pra cá, disse aos 27 que abandonaria a gastronomia. Minha última experiência na cozinha - sobre a qual não me sinto exatamente confortável em falar sobre, ao menos por agora - marcou meu âmago tanto quanto os respingos de óleo quente e os cortes de faca marcaram minhas mãos.

Me desfiz de uniformes, deixei de me apresentar como cozinheiro e decidi seguir outros caminhos. Voltei pra faculdade, numa área sem relação nenhuma com qualquer coisa que tivesse estudado antes, consegui um emprego igualmente distante da restauração e entrei de cabeça na escrita, uma paixão que, ainda que acredite que estivesse guardada em algum canto escuro aqui dentro, até então não havia sido seriamente explorado. Mas alguma coisa parecia fora do lugar.

Não sinto que fiz a escolha errada naquele momento. De fato, precisava me afastar de tudo, como meu próprio corpo avisou quando, após receber um convite pra trabalhar em um dos meus restaurantes preferidos de Santos, tive uma crise de ansiedade descomunal só de pensar em pisar novamente em uma cozinha. Tempos complexos, mas nos quais felizmente pude passar próximo da minha família, cuidar da minha saúde mental e, como no passado, colocar as coisas em perspectiva e retomar as rédeas dos meus sentimentos. E cá estamos novamente.

Ao longo desse tempo, mesmo olhando pra todas essas marcas e tentando entender o que elas queriam me dizer, o eco do som da cozinha, tal qual o das araucárias, continuava reverberando em mim, um chamado quase instintivo ao ofício. Foi inevitável atendê-lo, e cá estou novamente. Entre trancos, barrancos e acertos, em algum lugar acredito que esse movimento seja, além de trabalhar num ambiente educacional, minha grande busca em todos esses anos, uma forma de dizer pra mim e pra todas as inseguranças e dúvidas que por muito tempo me consumiram que eu ainda posso fazer isso. Sempre pude. Não é simples, mas nunca foi dito que seria.

Depois de pouco mais de um mês e meio, o sentimento é genuíno de que fiz a escolha certa. A sensação de inadequação e incapacidade sempre volta pra dar aquele alô, mas com cada vez menos frequência e intensidade. Tento levar um dia de cada vez, sem pensar demais nos pormenores que uma mente ansiosa é capaz de produzir. Aos poucos sinto que retomo a sintonia com os pisos antiderrapantes, fornos e panelas que por tantos anos foram quase uma obsessão. O que vem por aí, só o tempo vai dizer, e enquanto o ar da Mantiqueira não sussurra nos meus ouvidos a resposta, sigo fazendo o que eu sei.

Até a próxima.


segunda-feira, 11 de agosto de 2025

Rápida Reflexão Sobre Autocobrança por Produtividade

 

Nas últimas semanas estive à beira de vitimar a mim mesmo da estapafúrdia condição de autocobrança por produtividade de escrita. Quando iniciei o blog e, previamente a ele, a atividade do escrever, mesmo havendo a vontade de que tudo isso se convertesse em algo sério e recorrente, estabeleci comigo o acordo que rege todas as minhas atividades que não sejam obrigatórias e, de forma mais abrangente, a forma como eu me relaciono com o mundo: eu não “tenho que” nada.

“Como assim, André? Nossa, essa afirmação ficou muito confusa”. Explico. Tempos atrás relatei minha relação com o hobby mais significativo que tenho hoje, a fotografia analógica, que segue firme e forte. Venho me aprofundando cada vez mais no entendimento sobre equipamentos, técnicas e possibilidades sem absolutamente nenhuma intenção de que isso se torne algo além do que é, um hobby.

A mesma coisa acontece com a academia. Toda vez que ponho os pés naquele antro de autoflagelação é ridículo como é fácil identificar quem tá indo, como eu, só pra fazer a tão necessária manutenção da saúde física e quem vai pra performar. Quando digo performar me refiro a todo tipo de situação imaginável em que alguém se coloca nesse lugar de parecer - ou talvez tentar provar - alguma coisa, seja pra si ou pros outros.

A pessoinha X de calça, moletom e pochete em TODOS os treinos, a pessoinha Y que usa todo o aparato caricato de bodybuilder de revista (com a irreverente regatinha esfola-mamilo inclusa, claro) e a pessoinha Z que passa andando de braço aberto parecendo aqueles abridores de vinho meia-boca pra mostrar pra todo mundo o quanto a musculatura tá tonificada (enquanto as pernas parecem as de um boneco de palitinho desenhado por uma criança de 5 anos).

Vou revelar um grande segredo pra essas pessoas, agora: NINGUÉM se importa. Na humilde posição de comentador da vida cotidiana - e obviamente falando o que eu quiser, já que esse blog é meu - deixo meus centavos de contribuição sobre qual deveria ser a etiqueta comportamental da academia: a mesma de um boteco decadente. Nesses espaços, pessoas taciturnas entram discretas e ligeiras pra adquirir sua dose momentânea de endorfina, dopamina e o que mais lhes convenha, saindo por fim no mesmo estado de consternação solene em que chegaram.

E isso é válido pra todos os outros âmbitos da vida. A não ser que de fato se esteja disputando uma competição, NADA na vida tá valendo um prêmio. Tira suas fotos, vai fazer seus exercícios, aprender a cozinhar sem precisar virar CEO de MEI, só curte. O pódio que a sociedade vende simplesmente não existe. Aproveita sua vida e seu tempo pra curtir sem neuras. A vida já é dura demais sem achar que tudo é uma disputa.

Esse texto, por exemplo. Completamente mediano. O primeiro que eu escrevo em mais de um mês e atingi a mais absoluta mediocridade, mas tudo bem. Me reservo o direito de não prometer e também não entregar nada além do que eu estiver afim.

Até a próxima.



quinta-feira, 12 de junho de 2025

Sobre a morte, o luto e, obviamente, a vida

 


Escrevo esse texto para falar sobre um tema muito difícil, não porque tenho um problema em tratar dele, mas por tudo que uma sociedade fundada em preceitos cristãos e que tem parte majoritária das pessoas professando algum tipo de fé e exercendo sua espiritualidade acredita sobre isso. Em nível pessoal, é difícil por um motivo relativamente simples, mas exatamente por todas essas crenças serem fundantes do pensamento “ocidental”, camadas de complexidade se sobrepõem ao tema.

Você já deve imaginar, mas me refiro à morte. Qual é essa dificuldade, afinal? Bom, sendo ateu, acho que não há dúvida sobre eu não acreditar que exista algo depois da morte. Se não me falha a memória já tratei da questão em alguma crônica no passado, possivelmente para falar que acredito que é exatamente aí que se encontra a preciosidade da vida, na sua singularidade. O que sempre me deixa reticente diante da questão é que, apesar de ser, no meu entendimento, uma visão positiva, ela raramente condiz com o que pessoas pensam sobre isso, e na busca de tentar ser sensível ao lidar com momentos de perda e luto, uma pergunta me acompanha desde a minha primeira recordação sobre vivenciar a morte de alguém: como ser de fato acolhedor quando sua percepção sobre o fim pode não soar reconfortante?

Ao longo dos meus 30 anos vivenciei um número considerável de lutos. O mais recente deles é pelo meu avô, que nos deixou no dia 31 de março desse estranho ano de 2025, coincidentemente o dia que nomeia um dos bairros dessa Cubatão que ele tanto amou.

Tenho, desde então, tentado elaborar os sentimentos e o tema em si, o luto. Há uma frase no livro mais recente do Jefferson Tenório, “De Onde Eles Vêm”, que diz que o luto é como uma amputação: um pedaço de você é arrancado e não tem essa de substituir. Pode até ser que uma prótese seja posta no lugar e cumpra, de alguma forma, a mesma função, mas o vazio daquela ausência é eterno. A questão é que a gente se adapta. Vai ser difícil, a princípio, e vai doer por muito tempo, mas cada dia um pouco menos.

Somos levados a acreditar que só o que conta são grandes feitos, a vida majestosa, e passamos nossa existência aflitos por não sermos os protagonistas de um épico. Mas a vida não é isso. Nunca foi, nem daqueles que, entre muitas aspas, nos olham de um suposto topo. Acho que talvez venha daí uma das grandes aflições sobre pensar e lidar com a morte: confrontar a ideia de que sua vida ou a de quem você ama não tenha o significado ou impacto que acreditamos que deveria ter. Mas será mesmo?

Para falar sobre isso, penso na vida do meu avô. Cresci ouvindo dezenas de histórias sobre ele. A mais emblemática talvez tenha sido sua recusa ao convite de jogar no Santos, já que sempre foi corinthiano, o que abriu espaço pra que o time convidasse um dos maiores jogadores de sua história, o Pepe, pra ocupar a posição que seria dele.

Seu Nico não se tornou um jogador mundialmente renomado, mas viveu e vive como um dos maiores na memória daqueles que o viram jogar, assim como na de dezenas de pessoas que aprenderam com ele o ofício da marcenaria durante o período que ensinou na extinta Fábrica da Comunidade e na de tantas outras que cruzaram seus caminhos com os dele. Pra mim bastaria dizer que foi um avô gentil e afetuoso. Isso já não é grandeza?

Fiquei - e continuo - triste por sua morte, bem como pela de todos os familiares e pessoas amadas das quais tive que me despedir irrevogavelmente ao longo da vida, mas a felicidade de tê-los conhecido e a singularidade de suas existências é tão maior que não consigo me apegar à dor. Retornando à questão do início, sobre como ser acolhedor, acredito não ter uma resposta muito concreta.

Tentar sempre que possível estar presente é um ótimo começo. Subestimamos - e muito - a importância da presença. Quanto ao que dizer, bom, eis uma resposta muito mais difícil. Essas são palavras que provavelmente vou continuar perseguindo pelo resto da vida. Se algum dia as encontrar ficarei feliz em compartilhar. No meio tempo sigo me fazendo presente.

Nesse malfadado dia 31, durante o velório, vendo a serra e a cidade encobertas do prenúncio de temporal, só conseguia pensar que chorava a Rainha das Serras por um de seus filhos ilustres. Entre o choro e o riso das pessoas, todos os afetos ali presentes celebravam a vida de Seu Nico. Torço pra que todos os lutos encontrem esse afago.

quinta-feira, 22 de maio de 2025

Por Favor, Me Poupe do Supino

 


Começo essa crônica com um anúncio que nunca imaginei fazer: estou na academia. Proferir essas palavras me causa até um arrepio na coluna, um calafrio daqueles que dizem que rola quando um espírito atravessa seu corpo pelas costas, o que nesse caso pode ser verdade, já que os fantasmas da diversão e da felicidade habitam aquele lugar. Meu Deus, que situação insalubre.

Sentimentos à parte, beirando os 31 anos a consciência de que preciso manter um certo grau de sanidade física em prol de sustentar por muito mais décadas minha sanidade mental finalmente se instalou. O empecilho pra manter o foco fica em um questionamento: por que todos os exercícios parecem meio imbecis? Mais que isso, por que tudo te faz se sentir tão ridículo?

Utilizando a infame cadeira adutora, por exemplo, fiquei toda a primeira série de repetições que fiz pensando “o que diabos eu fiz pra ser vilipendiado por esse aparelho”? Absolutamente nada. Era apenas um transeunte incauto pego de surpresa pelos horríveis desígnios de mim mesmo buscando dias mais saudáveis. O que falar então dos terríveis leg press, aquelas coisas pra treinar bíceps e tríceps e todos os outros odiosos aparelhinhos feitos pra fortalecer sua musculatura e enfraquecer seu espírito?

Vou me valer do conceito de Immanuel Kant sobre liberdade, que é a de que ser livre é fazer o que não se quer. Assim como o professor Mário Sérgio Cortella, que me lembrou dessa frase na sua participação em uma das últimas edições do programa Altas Horas, também exerço minha liberdade submetendo meu corpo a esses pequenos desprazeres físicos e minha mente aos ainda piores desprazeres ambientais que a academia gera.

Agora, respondendo as questões do início, estar na academia - ao menos pra mim - soa e me faz sentir meio imbecil porque sua existência é um totem da lembrança de que houve um tempo em que simplesmente viver era o bastante pra manter a saúde física em dia. Não que se vivesse muito - e afinal, pra quê diabos queremos viver tanto? - mas séculos de evolução pra nos tornarmos caçadores que unissem força física e cérebros altamente desenvolvidos entram diariamente em colapso quando os séculos seguintes transcorrem engenhosamente pra desfazer isso. Cá estamos, então, essas ridículas massas ambulantes capazes de alterar os rumos da existência e do espaço que habitam, mas presos à tosca necessidade de balançar barrinhas de metal e plástico e andar sem sair do lugar só pra conseguirmos andar até os 90 anos. Patético. Nós somos patéticos.

Fui alguma vezes numa balada mequetrefe em Campos do Jordão, em tempos menos católicos, como dizem os jovens. Qual a relevância dessa informação? Ambos os ambientes sofrem das mesmas características: entre meia-luz e escuro, música eletrônica que poderia ter sido a gravação do colapso de uma estrutura predial e gente em busca de algum tipo de salvação. Em ambas, infelizmente, a conclusão é a mesma, nenhuma salvação é possível, independente de quanto álcool você ingira ou quantas séries do maldito supino reto você faça. Estamos todos condenados.

Achou que esse texto ia ter alguma lição ou que de repente eu resolvesse falar alguma coisa positiva sobre os impactos da academia na vida? Você nunca se enganou tanto, esse aqui sou eu voltando a deliberadamente reclamar de alguma coisa, como há um bom tempo eu não fazia. Se você gosta da academia, me poupe dessa informação. Enquanto isso prossigo exercendo minha liberdade e resmungando em cada intervalo das séries de exercício.

Até a próxima.