Os dias começavam a ser indistinguíveis. O tempo passa diferente na cabeça de quem sente que não deveria mais estar no meio de outras pessoas. Ou seria só uma inquietação normal depois de tanto tempo isolado? Ele já não sabia, mas achava que, sinceramente, o que realmente importava era que a água já havia fervido e finalmente poderia passar um café enquanto pensava nas possibilidades de mais um dia no planeta casa. Encheu a caneca quase até a boca, o vapor luxuriosamente sufocante do café arrepiando cada neurônio seu igual beijo na nuca.
Engraçado, a vida de um escritor poucas vezes exige
alguma interação social. Óbvio, qualquer literato comprometido em retratar o
mundo de forma fiel precisaria se lançar, ainda que minimamente, nesse jogo
estranho das atividades coletivas, típicas do ser humano, mas ele não era nem
um pouco comprometido. Daria até pra dizer que, nos últimos dois ou três meses,
tinha desenvolvido certa ojeriza pelo simples pensamento de ter que lidar
diretamente com um desconhecido, assim como é altamente improvável que qualquer
desconhecido tivesse algum prazer em ter que interagir com ele.
O telefone tocou. Revirou os olhos, pronto pra
desligar mais uma das intermináveis chamadas diárias de estranhos números 011.
Sua repulsa por São Paulo havia crescido por conta dessas ligações, mas havia
um estranho prazer em ignorá-las, quase como um ritual de manutenção da rotina.
Seu perfeito círculo dialético. Olhou pra tela, pronto pra dose diária de
ignoramento telefônico, e suspirou. Pra sua surpresa (e certo
descontentamento), era um nome conhecido que atrapalhava seu dia.
- Alô?
- Um momento, por favor. Seu Hélio já vai entrar na
linha pra conversar com o senhor.
- Eh... Ok.
Hélio, o editor-chefe, seu juiz, júri e algoz. A
pessoa que o separava de todo o dinheiro que precisasse pra escrever livros,
beber café e jogar jogos velhos no seu computador velho sem se preocupar com
prazos e Hélios. Um cara legal, até.
Seu Hélio demorou uma eternidade pra entrar na
linha. A espera proporcionou uma memória agridoce e sem sentido, dessas que vêm
de repente porque um milhão de conexões entre informações aparentemente
desconexas ocorreram, de uma antiga recente paixão. Era uma moça legal, que ele
nem lembrava direito o porquê de ter se afeiçoado. Conversavam sobre esportes,
as dores da vida, o último filme do Harry Potter - ainda que odiasse Harry
Potter - mas os espaços entre cada conversa foram aumentando aos poucos. Entre a
última e o momento presente, por exemplo, se estendiam mais ou menos uns 8
meses. E há 4 já não pensava nela.
Deu de ombros, balançou a cabeça como quem sente um
calafrio e ouviu, finalmente, uma voz do outro lado.
- FALA, SEU SALAFRÁRIO! Tudo na paz? - gritou Seu
Hélio, desproporcionalmente animado com aquela ligação telefônica.
- Opa, seu Hélio, tudo na mesma.
- MUITO BOM, MUITO BOM!
Ele odiava o ânimo constante do velho, e tinha a
sensação de que ele usava esse estilo alto-astral pra mascarar algum problema
bizarro, mas de baixa periculosidade, tipo gases insistentes ou um cachorro que
urinava no tapete da sala todos os dias.
- Escuta, precisamos falar sobre esse manuscrito
novo.
- Ok, pode falar.
- Simplesmente INCRÍVEL. De uma sensibilidade ímpar!
Já li 3 vezes e fico sempre atônito com o tanto de novos detalhes que cada
leitura revela. Talvez seja sua maior obra até agora.
- Muito obrigado, seu Hélio. Escrevi com o intuito
de falar de mim pra mim mesmo, sem grandes pretensões. Talvez esse seja o
segredo, não pretender nada.
- Olha, se é o segredo, não sei. Mas já estamos em
contato com todo mundo pra preparar o lançamento. Preciso que você me mande o
que quer fazer pra capa, fonte e esse blá blá blá todo até mês que vêm.
- Ok. Já tenho algumas coisas em mente, acredito que
não demore muito.
- PERFEITO! Esse livro com certeza vai ser um
sucesso! Um abraço!
- Abraço, seu Hélio.
Desligou o telefone, aliviado e contente com a
notícia de que o livro seria lançado. Claro, em todos os seus 5 lançamentos
havia sentido a mesma coisa, mas era a primeira vez em um bom tempo que sentia
que aquilo tinha algum significado, ou que não havia escrito só pra se livrar
de palavras. Não tinha mais sufoco, e isso parecia muito mais do que ele
merecia. Mas tudo bem, uma vitória de cada vez. Decidiu que merecia, no
entanto, não fazer absolutamente nada o dia todo. Sentou no sofá, ligou a TV e
continuou bebendo o café, sem pressa nenhuma pra terminar. De repente, no meio
do jornal, um rosto conhecido.
A viu pela primeira vez quando ainda estava sujeito
à execrável rotina imposta pelos horrores metropolitanos de São Paulo, que tal
qual uma entidade cósmica bizarra de um conto lovecraftiano o enlouquecia mais
e mais a cada vez que era obrigado a botar os pés pra fora do apartamento e
olhar pro que quer que fosse.
Fingia que pedalava uma bicicleta ergométrica em uma
dessas SmartBiancoBergBlue. Ela sentou na bicicleta ao seu lado, olhou de canto
como quem não consegue evitar olhar pra um acidente ou uma idosa escorregando
em uma folha de chapéu-de-sol em dia de chuva e falou:
- Olha, sem querer cortar seu barato, mas ficar
sentado na bicicleta não conta como exercício.
- Eu sei, faço isso mais pelo efeito psicológico nos
dias em que ficar em casa fica excessivamente entediante. Fora que o simples
fato de pisar nesse lugar já fez umas 10 pessoas acharem que eu emagreci, mas
eu nunca dei mais do que umas 15 ou 20 pedaladas nesse treco. Também seria
incapaz de ferir a memória de todos os cigarros que eu já fumei nessa vida.
Imagina o que eles diriam se soubessem que eu virei saudável de verdade? Não,
não, seria humilhação demais.
Ela riu, ele riu, e seis meses depois realmente
tinha perdido peso, já que ia de bom grado pedalar com ela todos os dias. Laura
coincidentemente era professora de Literatura do ensino médio, o que ele por
algum tempo desejou ser enquanto estudava Letras. Conseguia encostar o
indicador e o mindinho da mão direita, colecionava DVDs de filmes trash de
tubarão e dava risada com a mesma intensidade toda vez que assistia a briga
entre o fantoche Galerito e Gil da Esfiha.
Tudo ia bem, até que não foi mais. O relacionamento
foi pras cucuias quando começou a falar pra ela do quanto não se sentia mais
confortável em estar em São Paulo. Têm 5 anos e uns quebrados que se mudou pro
sul de Minas. A decisão da sua vida, ainda que por muito tempo acreditasse que
precisava estar perto de grandes centros urbanos, agito cultural e
desvairamento paulistano pra ser um bom escritor, que isso era o gás que
impulsionava as palavras, tal qual se lançar em sociabilidades. Ledo engano.
Quanto mais tempo passava perto da derrota urbana, menos conseguia concatenar
meia dúzia de frases.
Admitir pra si mesmo, depois de anos de resoluta
negação, que seu corpo implorava o ar rural, não partiu de um processo simples,
e o fato de que a ideia não era nem um pouco atrativa pra Laura tornou tudo
ainda mais difícil. Sua saúde mental não se sustentaria por muito mais tempo
naquele pesadelo, nem sua saúde financeira, já que não conseguia mais escrever
nem com a mesma frequência, nem com a mesma qualidade. Mas a ideia de uma vida
longe dela era tão sufocante quanto continuar ali. Toda vez que o assunto vinha
à tona, se seguiam dois ou três dias de distância e desconforto.
A última conversa que tiveram partiu de um diálogo
ensaiado por ele diante do espelho do banheiro pelo menos uma dezena de vezes.
Mudava palavras e a ordem com que os argumentos seriam expostos repetidamente,
num esforço que, ainda não sabia, continuaria inútil mesmo que apresentasse 100
versões do discurso que preparava. O último recurso obviamente não funcionou, e
em respeito à memória dos sentimentos sepultados naquele momento, ao que de
fato ocorreu na despedida foi permitido deixar a correnteza de lágrimas e
garrafas de vinho afogarem o que fosse necessário no oceano do esquecimento.
Alguns dias depois terminava de colocar os últimos pertences no carro pra
seguir em direção a cidade de Gonçalves, certo de que deixava pra trás a
tristeza e o que mais precisasse ficar.
Seu novo livro era sobre um homem que se muda pro
interior e começa a presenciar eventos cada vez mais surreais, com as coisas
mudando tão lentamente que quase não se percebia a realidade derretendo a sua
volta, e numa reviravolta maluca, depois de dezenas de reflexões sobre o que é
o real e o quanto a existência se constrói a partir do nosso entendimento do
que cada coisa deveria ser, descobre que na verdade toda a loucura era fruto de
cogumelos alucinógenos que cresceram na sua caixa d’água. Esse pano de fundo
lisérgico foi a forma que ele encontrou de dar certa leveza pro processo de
luto do fim do relacionamento, considerando por um bom tempo que talvez não
tivesse refletido ou se esforçado o suficiente pra superar as diferenças que
sempre pareciam insignificantes em comparação ao quanto amava cada segundo ao
lado de Laura. Foi quando terminou o livro e mandou pra editora - e mais uma
dezena de sessões de terapia - que fez as pazes com o fim. Ou quase.
Ao vê-la sendo entrevistada enquanto curadora de uma
feira de literatura independente que ocorreria em alguns meses em São Paulo,
sua boca secou, suas mãos tremeram e suas pernas latejaram. Tudo não durou mais
que 3 ou 4 segundos, mas sentiu como se aquela descarga de stress tivesse se
estendido por uma semana inteira. Atônito, desligou a TV, pegou mais um pouco
de café e ficou ali, ligeiramente escorado na bancada da cozinha, olhando pela
janela as árvores que circundavam sua casa, sem conseguir formar uma unidade de
pensamento.
Voltou apropriadamente a si horas depois, ainda
inconformado com a informação de que Laura continuava existindo, um pressuposto
óbvio, mas em que escolhera não acreditar, achando que a excluir de seu mundo
mental facilitaria todo o processo. O rápido vislumbre de sua imagem na TV foi
o suficiente pra fazê-lo passar o resto do dia com a sensação de que seus
órgãos se contorciam na tentativa de virarem um grande aglomerado de funções
fisiológicas, talvez em busca de fazer o cérebro desviar a atenção do que havia
acontecido horas mais cedo. Teve dificuldade pra dormir, revisitou
descontroladamente cada vacilo cometido contra o relacionamento deles durante a
madrugada e acordou sentindo que não dormia há dias.
Uma semana depois estava de fato recuperado.
Conversou com sua terapeuta sobre o ocorrido, consciente de que, apesar do
baque, havia sido um episódio isolado, e constatou que olhava praquilo como uma
oportunidade de reavaliar a forma como lidava com o fim de ciclos na sua vida.
Ela ouviu tudo atentamente, ainda que, enquanto ele falava, desenhasse gatinhos
no seu caderno e pensasse “puta merda, 4 anos de trabalho indo pro buraco”.
Ficou contente com a conclusão em que ele chegara, sentiu um pouco de culpa por
desacreditar do próprio paciente e ao fim da sessão pediu mais uma vez que se
esforçasse pra socializar com mais frequência.
No caminho de casa parou na padaria próxima à Igreja
Matriz, comprou salgadoces e gulocrimes suficientes pra 6 adultos e voltou ao
seu habitual isolamento idílico, pronto pra ignorar ligações, assistir filmes e
ler sem incômodos e distrações por pelo menos mais uma semana. Só não contava
com a eficiência de seu Hélio e seus asseclas literoeditorias. Acordou no dia
seguinte assustado com o toque tosco que saía do autofalante do celular no
último volume. Não bastasse um golpe sonoro, logo recebeu outro.
- BOM DIA, GAROTO!
- Bom dia, seu Hélio.
- NÃO TE ACORDEI, NÉ?
- Mais ou menos, mas eu já estava me preparando
mentalmente pra levantar.
- PERFEITO! ME SENTIRIA MAL DE INTERROMPER SEU
DESCANSO.
Simplesmente não conseguia entender o porquê de o
velho estar falando ainda mais alto e entusiasmadamente que o normal.
- Aconteceu alguma coisa? O senhor ligou pra falar
sobre o livro?
- Exatamente! Já fizemos todo o trabalho gráfico e
de edição do livro. Minha assistente vai te enviar pra aprovação e assim que
nos der o OK começamos a impressão.
- Ótima notícia, seu Hélio! E quando a gente começa
a falar sobre o lançamento?
- Assim que eu receber as provas da impressão.
Quando estiverem aqui peço pra te ligarem pra marcarmos um dia pra você vir até
aqui. Aí discutimos todos os detalhes pra botar essa belezinha pra ganhar o
mundo!
- Minha presença aí é realmente necessária, seu
Hélio? Gosto TANTO de alinhar as coisas com o senhor pelo telefone.
- MAS É CLARO, JOVEM! Não vamos só falar do livro,
preciso te levar pra almoçar com uma moçada que não vê a hora de te conhecer e
trabalhar na promoção dele.
Pensou consigo mesmo, antes de responder, de onde o
velho tinha tirado “moçada”, e sentiu que estava prestes a participar de um
almoço com o grupo de pessoas mais desinteressantes que já pisou na face da
terra.
- Bom, então tá certo - apesar de não estar nada
certo - assim que tivermos tudo encaminhado marcamos a data pra eu aparecer na
saudosa terra da garoa.
- ÓTIMO! NÃO VEJO A HORA DE NOS VERMOS NOVAMENTE,
GAROTO!
- Eu também não, seu Hélio. Eu também não.
O que se seguiu foram 15 dias de saídas regulares
pra andar pela rua por pelo menos meia hora. Sentia que se subisse no ônibus e
só saísse no Tietê praticando o estado mental em que vivia quando estava
escondido no seu paraíso mesotérmico brando seria engolido pela maldita capital
do maldito estado de São Paulo. Precisava se readaptar ao fluxo de pessoas, e
não que Gonçalves fosse capaz de proporcionar uma experiência sequer
remotamente parecida com o que enfrentaria, mas já era melhor do que nada.
No fatídico dia, em posse de sua malinha vermelha
com rodas emperradas pelo acúmulo de pelos, grama e mais um monte de outras
sujeiras presas há tanto tempo que seu carbono-14 poderia ser usado pra medir a
idade de uma dúzia de cidades, subiu no ônibus e seguiu pro metropolinferno
paulistano, ouvindo acid jazz no último volume em seus fones de ouvido alemães
pra tentar deixar o cérebro em sintonia com a cidade. Desceu no Tietê e entrou
num táxi rumo ao hotel, observando a cidade como quem presencia um cenário de
guerra.
Fez o check-in, subiu pro quarto, jogou as roupas no
vão de concreto e madeira que presumiu ser um armário e tomou um banho. Sentia
a sujeira de São Paulo escorrendo rumo ao ralo, um ritual momentâneo de
purificação antes de se expor novamente às intempéries da cidade. Desceu,
jantou num restaurante vietnamita meia-boca na esquina do hotel, voltou pro
quarto e dormiu como se tivesse acabado de completar uma prova do Iron Man.
No dia seguinte, logo após o café-da-manhã, sentindo
ainda um pouco de azia por conta do café mequetrefe que acreditava ter sido
apurado e reduzido por pelo menos 2 dias antes de ser despejado na garrafa
térmica, sentiu o telefone vibrar. Exatamente como previu, seu Hélio.
- BOM DIA, MEU JOVEM! PREPARADO PRA HOJE?
- Bom dia, seu Hélio. O senhor nem imagina. Eu diria
que estou EXULTANTE com a programação de hoje.
- MARAVILHA! - disse o velho, claramente sem captar
o mix de sarcasmo e queimação estomacal que aquelas palavras arrastavam em sua
direção - Por volta das 13h o carro da editora passa por aí pra te pegar.
Estamos todos muito empolgados pra te ver!
O telefone do quarto tocou. O recepcionista do
hotel, quase se recusando a emitir sons, avisou que o carro lhe aguardava na
entrada. Pegou o elevador acompanhado de uma senhora na casa dos 206 anos que
estava hospedada no mesmo andar que ele. Ficou imaginando mil motivos praquela
criatura tão frágil, exalando uma mistura de perfume cítrico e sabonete de
verbena, estar sozinha num hotel em São Paulo. Descobriu mais tarde que ela era
a única filha do fundador, nascida e crescida dentro daquelas paredes, sem nunca
ter tido contato com qualquer assunto que fosse relacionado à administração, e
que fora sua rotina vivendo sozinha num quarto médio, ainda que tivesse uma
suíte presidencial à sua disposição, ninguém tinha muita certeza do que fazia
nos passeios diários ou com sua fortuna, além de retornar, pelo menos uma vez
na semana, com uma sacola da livraria que ficava à alguns quarteirões de
distância.
- Já vi seu rosto - disse ela, a voz
consideravelmente mais vigorosa e firme do que sua aparência ousaria sugerir.
- Ah, é? Imagino que na orelha de algum livro.
Consta que eu sou escritor.
- Também. Mas na verdade foi antes. No lançamento do
seu primeiro romance. O Hélio me convidou, disse que eu não podia perder de ver
o surgimento de um dos novos grandes nomes da literatura contemporânea.
- De fato seu Hélio tem a mania de ser hiperbólico.
O que a senhora achou?
- Do quê?
- Do livro. Do lançamento. Da situação toda, no
geral.
- Você parecia triste, apesar de estar sorrindo,
conversando com as pessoas e agradecendo os elogios. Do livro em si, achei
decente. Não me leve a mal, rapaz, mas como pode ver eu já vivi muito tempo, é
um pouco difícil me surpreender.
Sobre o livro, concordava. Não achava sua estreia
grande coisa, apesar do orgulho natural de saber que alguém apostava no seu
talento. Sobre a tristeza, nunca tinha parado pra pensar nela naquele momento
de sua vida.
- Concordo com a senhora, também não acho ele grande
coisa. Nem os outros, pra dizer a verdade, mas talvez seja coisa de escritores,
né? Nunca achar que estão bons o bastante.
- É coisa de gente sensata, rapaz. Que continua
buscando o melhor possível, mesmo quando o possível não é o melhor.
- Isso faz sentido de um jeito muito estranho.
Enfim, como a senhora conheceu seu Hélio?
- Eu amo livros, ele é editor-chefe. Conheço gente o
bastante pra me fazer chegar nas pessoas que eu quero chegar, e um dia cheguei
nele.
- Te admiro. Confesso que ultimamente tenho
preferido conhecer as pessoas que IMPEDEM que outros cheguem em mim, e tem
funcionado - disse ele, enquanto andavam, já no saguão, rumo à porta do hotel -
Preciso ir, aquele carro tá me esperando. Espero nos encontrarmos de novo.
- Nos encontraremos, rapaz, sem dúvida nenhuma.
Entrou no carro, ainda intrigado com a conversa que
o fez esquecer por um tempo o nervosismo com o evento. O motorista foi
respeitosamente silencioso por todo o percurso, fora o “boa tarde” e o “bom
almoço” ditos no encontro e na despedida entre ambos. Amava pessoas que ficavam
confortáveis em não trocar mais do que as palavras estritamente necessárias.
Entrou no hotel em que ficava o restaurante. Nomes não serão utilizados, então
digamos apenas que é um hotel famoso de uma família famosa no meio da hospitalidade,
com tendências a explorarem exaustivamente a ascendência italiana enquanto seus
restaurantes servem comida parada no tempo por preços que permitiriam uma
pessoa comprar e restaurar um Kadett 98 GLS 2.0.
Não precisou nem adentrar o salão do restaurante,
ainda do corredor que conduzia até ele foi capaz de avistar a figura robusta,
careca, bigoduda e ligeiramente avermelhada do editor-chefe. Ao se aproximar um
pouco mais reconheceu alguns rostos de funcionários da editora, pessoas muito
agradáveis que sempre concordavam com ele que aqueles encontros tinham pouca ou
nenhuma necessidade de acontecer, e uma outra que estava de costas, imaginando
que seria a tal “moçada” a que seu Hélio se referiu quando ligou para pedir que
viesse até São Paulo.
Ele se levantou e veio em sua direção, gritando um
“GAROTO!” repreensivelmente alto, tanto pela proximidade entre os dois quanto
pelo fato de o restaurante estar lotado de pessoas que claramente eram do tipo
que tinham ojeriza por gente barulhenta, mas não como ele, e sim num sentido de
gente rica que automaticamente presume que se alguém é um pouco espalhafatoso,
provavelmente é pobre e, portanto, não deveria estar no mesmo ambiente que
eles.
Sentindo os olhares e tomado por solidariedade ao
velho, o abraçou e falou igualmente alto “SEU HÉLIO!”. Se arrependeu
imediatamente, tomado por um lapso de autoconsciência que o fez lembrar que
odiava se expor. Recomposto do baque, se virou pra cumprimentar as outras
pessoas, só não esperava que o dia ainda lhe reservava um golpe ainda mais
brutal: Laura.
Quando ela se virou na cadeira, seus olhos se
encontraram imediatamente. Sentiram o tempo ser suspenso e sentimentos e
palavras acumulados por anos ameaçaram romper seus corpos trêmulos. Quase
simultaneamente engoliram em seco, desviaram o olhar e disseram o nome um do
outro, tentando com todas as forças fingir normalidade no meio da mais anormal
confluência de eventos que o mundo presenciou em muito tempo.
O que se seguiu foi a própria imagem do desconforto.
Não conseguia prestar atenção em nada do que aqueles jovens marketeiros
empolgados discutiam e sugeriam pros eventos da turnê de lançamento do livro,
não conseguia olhar na direção de Laura e nem parar de pensar no fato de que
estava ali, à uma mesa de distância da mulher que mais amou na vida. Sentindo
que todas as fibras musculares de seu corpo poderiam explodir se não se
mexesse, levantou repentinamente, abaixou em direção ao ouvido de seu Hélio, sentado
ao seu lado, disse que ia tomar um ar e fumar um cigarro e saiu do restaurante
sem nem olhar pra trás.
Sentou em um banco da calçada em frente ao hotel,
longe o suficiente daquela situação. Ficou ali, fitando o nada, sem conseguir
formular uma frase, pensamento ou focar em qualquer coisa que fosse. Talvez
ficasse nesse estado de suspensão por horas, não fosse pela mão tocando seu
ombro como um sabre pronto pra trespassar o corpo de um soldado caído no campo
de batalha, ainda que a única batalha ali fosse com a sua incapacidade de lidar
com seus sentimentos. Claro que a mão era de Laura.
- Tinha certeza que você não voltou a fumar.
- Não seria capaz de fazer isso com a memória de
todos os cigarros não fumados desde que eu parei.
- Ah, então é só em memória deles?
- E do que mais poderia ser?
- Não sei, talvez respeito próprio, autocuidado,
atenção à sua saúde.
- Você sabe que eu não acredito nessas coisas. Elas
são o Deus do meu ateísmo. Os outros também são, mas continuo especialmente
ateu com essas coisas, ainda que continue me obrigando a praticá-las como um
moribundo que vai à igreja fazer orações em busca de uma salvação que ele sabe
que nunca vem. Com a diferença, claro, de que eu só quero conseguir limpar
minha própria bunda até cumprir minha sentença e me encontrar com o único mal
irremediável.
- É, você continua você.
- E o que mais eu continuaria sendo?
- Talvez não continuar. Sempre pensei que morar no
interior poderia te mudar, de alguma forma. Mas acho que no fim das contas você
sempre morou lá, só não fisicamente.
- É, acho que faz sentido. Ter vindo pra cá foi uma
tortura desde o momento que eu pisei na rodoviária.
- Seu desconforto é visível.
- Desconforto nem começa a descrever o que eu tô
sentindo.
- É só com ter vindo pra São Paulo?
- Não, mas sinceramente prefiro não falar sobre
isso. Afinal de contas, por que você tá participando desse almoço?
- Ah, a velha tática de falar sobre isso sem falar
sobre isso. Vou entrar nesse seu joguinho. Seu Hélio não te contou? Eu sou a
curadora de uma feira literária que vai acontecer mês que vêm e a editora
pretendia lançar seu livro no primeiro dia. Quando eu soube que você vinha pedi
pra ele me incluir no encontro de hoje.
- É, te vi dando entrevista na TV. Foi um dia
curioso. Curioso também foi o velho não ter me falado quem ia participar disso
aqui. Por acaso também tem dedo seu nisso?
- Se te disser que sim vai fazer diferença?
- Não sei. Prefiro pensar sobre isso depois de
saber.
- Não achei que fosse ser um problema.
- Não é um problema, é só… Sei lá. Não esperava te
ver. Não sei se queria te ver. Nunca mais, pra falar a verdade. Sua cara na TV
já foi emoção suficiente. Talvez eu venda esse aparelho satânico.
- Olha, eu não queria ser um sentimento negativo, se
soubesse que você ia ficar desse jeito não teria vindo. Só pensei que depois de
todos esses anos as coisas teriam mudado.
- Laura, elas mudaram, e esse é problema. O plano
sempre tinha sido ir embora daqui, aí ele passou a te incluir, e quando você
não quis ir, eu precisei lidar com esses anos chafurdando na sensação de que
aquilo era um plano falho e remendado. Eu nunca mais tinha voltado pra cá ou
tido qualquer contato com qualquer coisa que me fizesse cogitar a mais remota
possibilidade de estar frente a frente com você de novo. Achei que a terapia
estava me ajudando de verdade, nem ansiolítico eu tomo mais. Mas cá estamos.
- Olha, nem vem, você sempre soube que eu não queria
ir, então nada de agir como se tivesse sido uma grande surpresa. Sua partida
também me jogou num estado deplorável, também foi assunto de muita sessão de
terapia e por um bom tempo fiquei me sentindo culpada. Mas eu resolvi dar um
basta nisso, cansei de me colocar no lugar de vilã da sua frustração, quando a
expectativa sobre a minha ida com você era inteiramente sua. Quis vir aqui hoje
porque pensei que poderíamos ficar em paz com as coisas que aconteceram entre a
gente, mas parece que eu estava errada.
- Só faltou me consultar pra saber o que eu pensaria
sobre essa situação. Mas enfim, você tá completamente certa, essa expectativa
era só minha, e eu não te culpo, nunca te culpei. Olhando pra trás, talvez a
única ação coerente pra evitar que a gente estivesse discutindo o passado em
frente a esse hotel cafona de gente rica no meio dessa merda de cidade fosse
ter terminado nossa relação do dia que você me disse a primeira vez que não se
via morando no interior. Teria doído muito mais acabar as coisas no auge de
tudo, mas pelo menos agora acho que não estaríamos passando por isso.
- Talvez, mas a gente não tem como saber. Ninguém
têm. Mas acho que isso não importa mais. As coisas são como são. Quero saber se
essa nossa conversa vai afetar sua participação na feira. Se for o caso, acho
melhor irmos logo lá pra dentro contar a notícia pro seu Hélio e pra equipe.
- Não, fica tranquila. Nós somos adultos,
supostamente, acho que conseguimos lidar com isso de forma profissional.
- Então OK. Acho melhor a gente entrar, de qualquer
forma.
Quando se levantou do banco, numa ligeira queda de
pressão que impulsionou um surto repentino de coragem, esticou a mão até o
ombro dela, que já se virava em direção à entrada do hotel, e disse:
- Antes de voltarmos, preciso falar uma coisa. Eu
sei que o que vou te dizer agora provavelmente é pouco, e com certeza tarde
demais, e além disso a única metáfora que eu consigo pensar é completamente
absurda, mas nada mais seria capaz de sequer arranhar a superfície do que eu
sentia. Estar com você era como cruzar o horizonte de eventos de um buraco
negro. Minha vontade de estar perto de você, ouvir cada palavra que saía da sua
boca com a articulação mais perfeita que um ser humano poderia produzir e ficar
absorto em cada mudança de expressão no seu rosto por todas as horas possíveis
e impossíveis era tão grande que parecia dilatar as estruturas que mantém
conectados o tempo, o espaço e qualquer outro conceito abstrato que tenha sido
inventado pra dar algum sentido pra essa coisa louca e esquisitíssima chamada
Universo. Mas como tudo em física quântica opera sob forte influência da
entropia, quando as coisas começaram a mudar de verdade senti que a gravidade
que mantinha isso tudo acontecendo já não era mais tão forte, até que não foi
mais capaz de me segurar ali. Tentei com todas as forças lutar contra o impulso
de ir embora, mas a verdade é que a força que me restava já não era tão grande
assim.
Com algumas lágrimas escorrendo dos olhos castanhos
e o sorriso discreto de quem tenta convencer o próprio corpo de que está tudo
bem, Laura disse “de fato, é tarde demais”, se virou e seguiu hotel adentro.
Voltou pra Gonçalves no mesmo dia. O resto do almoço
transcorreu relativamente bem, considerando o maremoto emocional que atingiu os
dois. Os dias de lançamento, livrarias e cidades por onde passaria, os horários
e mesas em que participaria na feira e tudo mais que precisasse ser definido se
definiu. Se despediram, enfim, ainda incertos sobre como digerir aquele
reencontro. Depois de desfazer suas malas, pediu uma pizza e, enquanto
mastigava abobalhado um punhado de amendoim pra tapar o buraco do estômago até
a janta chegar, decidiu que não pensaria mais naquilo. Ainda que sua decisão se
provasse não valer de nada nos dias que se seguiram, como quando a viu pela TV,
preferiu naquele momento acreditar em si mesmo. Seu cérebro, por outro lado, já
tinha feito outros planos, e na mesma noite produziu meia dúzia de sonhos
angustiantes, com Laura aparecendo em todos.
Tentou se ocupar o quanto pôde fazendo caminhadas,
visitando os restaurantes que ainda não conhecia na cidade e jogando seus
joguinhos velhos no computador. Às vezes as distrações funcionavam, às vezes
não, mas aos poucos pensava cada vez menos naquilo tudo. Quando finalmente
estava retornando ao estado mental em que se encontrava antes da ida pra São
Paulo, se lembrou de que faltava apenas uma semana pra feira. Uma semana,
consequentemente, pra reencontrar Laura.
Coincidência ou não, a editora reservou exatamente o
mesmo quarto do mesmo andar em que ficou hospedado em sua última viagem. A
familiaridade com o espaço o tranquilizou, especialmente pela expectativa em
reencontrar sua amiga leitora/dona de hotel/muito velha, apesar de um pouco
envergonhado por não ter perguntado o nome dela nem durante a conversa que
tiveram, nem quando inquiriu o recepcionista inimigo da comunicação clara sobre
quem ela era. Decidido a remediar essa falha e sem nada melhor pra fazer até o
dia seguinte, data do lançamento na feira, desceu até a recepção em busca da
informação que faltava.
- O nome dela é Héstia.
- Héstia? Tipo a deusa grega?
- Não sei, senhor, eu sou católico.
- E por que isso te impediria de saber o nome de uma
deusa grega?
- Não sei, senhor, só imaginei que se te desse um
motivo você me deixaria trabalhar.
- Você podia só ter me dito que tá ocupado.
- Achei que soaria rude.
- Bom, soou rude desse jeito, também.
- Olha, senhor, têm pessoas esperando para serem
atendidas.
- OK, OK, tô saindo.
Seguiu para o bar do hotel, ainda um pouco confuso e
contrariado com a atitude surpreendentemente pouco amigável do recepcionista,
sentou no balcão e pediu um Sazerac, sentindo que merecia beber um drink
barra-pesada da velha guarda pra lidar com a situação, como um tapinha etílico
nas costas garantindo a ele que ficaria tudo bem. No meio da primeira bicada no
copo, emitiu um misto de engasgo e tossida ao perceber a presença repentina de
dona Héstia sentada no banco ao seu lado.
- Eu sou tão feia assim, rapaz?
- Não, dona Héstia, perdão, só não percebi a chegada
da senhora.
- Ah, olha só, então você descobriu o meu nome! Quem
abriu o bico, a Lúcia do restaurante?
- Não, foi o rapaz da recepção, o muito loiro.
- Ora, vejam só, por essa eu não esperava. 3 anos
que ele trabalha aqui e eu mal ouvi a voz dele.
- Preferia não ter ouvido.
- Bom, e o que te traz novamente à nossa amada
cidade? Espero que nada grave, seu semblante não é dos mais relaxados.
- Se é grave, ainda não sei dizer, mas certamente
poderia ser mais tranquilo. Amanhã lanço meu novo livro.
- Que maravilha! Pode contar com a minha presença.
Me surpreende que o Hélio não tenha me avisado de um lançamento.
- Talvez ele tenha pensado que a senhora não se
interessasse em comparecer, considerando que vai acontecer em uma feira
literária num desses pavilhões de exposição que parecem grandes shoppings de
nada. Bom, como qualquer shopping, só que com menos divisórias e mais gente.
- Sou eu quem deveria decidir que tipo de ambientes
eu me interessaria em comparecer ou não, não acha?
- Sem dúvida, mas acredito que isso seja só o seu
Hélio sendo ele mesmo. Sempre excessivamente festivo ou preocupado em resolver
os problemas de todo mundo, sem nem se dar conta de que tá passando por cima do
livre-arbítrio alheio.
- É, talvez você tenha razão. Mas ainda assim,
melhor excesso de zelo do que absoluta indiferença, não é?
- Sem dúvida, dona Héstia.
- Enfim, estou saindo pro meu passeio diário. Deixe
o horário e o local do lançamento na recepção que assim que eu voltar pego com
o pessoal. E não se preocupe, acho que seu novo inimigo já terminou o turno
dele.
Riu do comentário de sua nova amiga velha, se
despediu e retornou ao Sazerac, remexendo o gelo com um palito e se divertindo
com a ideia de ter um inimigo. Pegou um guardanapo, a fiel caneta Uniball que
habitava o bolso frontal direito do que quer que estivesse vestindo na parte
baixo - a não ser, claro, que não estivesse vestindo nada - e anotou a ideia
para uma nova história em que, claro, o vilão era um recepcionista de hotel
muito loiro que tinha como único ato de maldade, na verdade, só ser insuportavelmente
passivo-agressivo o tempo todo, mas que por algum motivo misterioso não podia
ser demitido apesar das inúmeras reclamações.
Terminado o drink, passou na recepção, deixou as
informações da feira pra dona Héstia e saiu em busca de um lugar pra se entupir
de alguma comida que não encontraria em Gonçalves ou adjacências. Encontrou uma
lanchonete que vendia mais tipos de shawarma do que acreditava existirem, comeu
3 e voltou pro hotel. Dormiu boa parte do resto do dia, inconscientemente grato
por não estar pensando no evento do dia seguinte. Acordou por volta das 20h,
desceu até o bar e comeu - sabe-se lá como, considerando o volume de shawarma
que ocupava seu estômago - uma pizza margherita estilo napolitano e uma taça de
vinho Marselan.
Acordou no dia seguinte de um sono que nunca tivera
em todo o período que morou em São Paulo. Revigorado, leve, estranhamente
animado. Tomou um banho, desceu pro café da manhã e se sentou em uma mesa
próxima à uma janela. Bebeu o café sem pressa, já acostumado com o gosto de
carvão mineral, enquanto observava o pequeno jardim que havia do lado de fora
do restaurante. Aquela calmaria era suspeita. Não conseguia entender como se
sentia tão calmo, considerando o que o esperava nas horas seguintes. Nem a
inquietação com aquela tranquilidade de fato o inquietava. Achou por bem
aceitar que talvez sua mente estivesse vagarosamente colapsando pra que, ao
final da feira, pudesse ter um piripaque em paz, sem atrapalhar o lançamento do
livro, a feira, a vida de Laura, seu Hélio e o que mais pudesse ser impactado
pela repentina combustão espontânea metafórica de um - já não tão - jovem
escritor nada metafórico.
O mesmo cordialmente silencioso motorista o buscou
no hotel. Seu Hélio ligou pra saber se estava a caminho, se precisava de algo
pra hora que chegasse e mais uma quantidade avassaladora de coisas num espaço
de 5 minutos. Chegando à feira, foi recebido por uma das moças da editora que
participaram do almoço, e seguiram para o estande, onde o editor o aguardava
conversando com um grupo de pessoas muito mais elegantes do que exigia uma
feira de livros. Quando reparou sua chegada, se despediu deles e foi ao seu
encontro, sorridente e avermelhado como sempre.
- MEU JOVEM! Não via a hora da sua chegada. Estamos
muito animados com o lançamento. Um monte de gente já passou por aqui pra pegar
senha pra fila do livro. Espero que seu pulso esteja com a mobilidade em dia,
você vai dar MUITOS autógrafos hoje.
- Nunca está, seu Hélio. É impossível se acostumar
com autografar dezenas de livros em sequência tentando decifrar como escrever
os nomes das pessoas que não falam alto o suficiente ou não se dão ao trabalho
de soletrarem seus nomes pouco usuais. Mas tudo bem, hoje acordei me sentindo
estranhamente disposto e descansado.
- QUE ÓTIMO OUVIR ISSO! Esse é o espírito. Ah, antes
que eu esqueça, a Laura passou aqui um pouco mais cedo, pediu pra que você a
procurasse, queria conversar antes do lançamento.
- É isso.
- O que, rapaz?
- Tava tudo calmo demais. EU tava calmo demais. Bom,
vou acabar logo com isso. Ou comigo. Até daqui há pouco, seu Hélio.
- Não entendi, mas até!
Uma pessoa da organização lhe disse que Laura estava
na entrada do pavilhão, acompanhando o trabalho dos fotógrafos que registravam
a chegada dos visitantes. Atravessou os corredores que começavam a encher de
pessoas rumo ao portão principal. Não foi difícil enxergá-la de longe, sempre
vestida com roupas coloridas, de tons alegres e vibrantes, exatamente como ela
mesma. Sua garganta secou e sentiu um embrulho leve no estômago, tenso com o
que viria.
- Oi. Achei que você tava cuidando só da curadoria,
não do marketing da feira.
- Ah, e aí. Não, isso aqui é só passatempo, mesmo.
Só vou ter coisas pra fazer depois das 13h, até lá resolvi dar uma checada em
como as coisas estão aqui na frente. Acho que a ansiedade de que não viesse
ninguém falou mais alto.
- É, faz sentido. Bom, pelo menos ao que parece isso
não é uma coisa com a qual você vai ter que se preocupar. Lá dentro já tem
bastante gente, também.
- Pois é. Espero que nos próximos dias continue
desse jeito”.
- Eu também. Enfim, seu Hélio me disse que você
queria falar comigo.
- É. Vamos lá na minha sala, preciso te entregar uma
coisa.
Seguiram juntos até o setor de pequenos escritórios
temporários montados pra acolher as pessoas que trabalhavam na organização.
Entraram na sala que havia sido reservada pra Laura, um cubículo mal iluminado
com uma escrivaninha, uma cadeira e um pequeno armário, de onde ela tirou um
envelope inchado de papel pardo.
- Trouxe isso pra você.
- E isso é…?
- Um livro. E uma carta, também. Mas por favor, só
abre quando voltar pra sua casa.
- Como assim? Que livro é esse?
- Um livro sobre o qual eu te falei, uma vez. Meu
livro preferido. Nunca disse qual era, e não queria que você fosse embora de
novo antes que eu pudesse te entregar ele.
- E por que isso, agora?
- Fiquei pensando nas coisas que você me falou, da
última vez que veio pra cá. Do lado de fora do hotel. Sempre quis que você
lesse esse livro, acho que pode te ajudar a encontrar uma perspectiva diferente
sobre tudo que ocorreu, sei lá.
- Olha, não me leva à mal, mas não sei se eu quero
levar.
- Cara, tô te dando um presente, você não pode só
aceitar? Impressionante, é sempre a mesma coisa.
- Laura, eu e você passamos os últimos anos sem
sequer saber o que tava acontecendo na vida um do outro. Não quero entrar de
novo na mesma discussão que rolou no dia do almoço, achei que a gente tinha
colocado um ponto final nessa história toda.
- Eu também não quero voltar nisso de novo, por isso
tô te pedindo, só leva o livro. E fica tranquilo, depois que você for embora
nunca mais vai ouvir de mim.
- Então pra quê o livro e a carta?
- Você vai entender.
- Tá, tudo bem, eu levo. Obrigado, eu acho… E agora?
- Agora a gente lança seu livro.
Existe um certo consenso do que é um evento positivo
e de como isso impacta a vida de uma pessoa. Sob certa perspectiva, o
lançamento foi ótimo. Deu muitos autógrafos, vendeu todos os livros que a
editora disponibilizou pro primeiro dia, conheceu outros escritores, inclusive
alguns que eram referências pra ele. Mas, claro, não conseguia parar de pensar
na conversa que teve mais cedo. Dona Héstia apareceu num momento mais
tranquilo, comprou 3 livros e levou pra que ele autografasse.
- Impressionante, a mesma cara.
- Como assim, dona Héstia?
- Essa sua cara. Exatamente a mesma de quando eu te
vi pela primeira vez. Um misto curioso de felicidade e tristeza.
- É, foi um dia estranho. Mas acho que tudo bem, a
maioria dos meus dias têm sido estranhos, desde que o seu Hélio me ligou a
primeira vez pra dizer que tinha gostado do manuscrito.
- Talvez a alegria dele seja um curioso disfarce pra
um poder secreto, em que sempre que dá uma notícia boa, a vida da pessoa começa
a correr meio fora do trilho.
- Olha só a senhora, me dando mais uma ideia de
história. Acho que vou começar a te pagar uma porcentagem dos meus ganhos.
- Mais uma? E qual foi a primeira?
- Aquela brincadeira de o seu recepcionista ser meu
inimigo. Resolvi escrever uma história sobre isso.
- Se ela ficar boa e render um livro, eu abro mão
dos meus royalties. Já tenho dinheiro o suficiente pra viver sabe-se lá quanto
tempo mais. Bom, vou parar de tomar seu tempo. Não esquece de passar pra se
despedir de mim, antes de ir embora.
- Não se preocupe, não seria capaz de ir embora sem
dar um abraço na minha melhor amiga nessa cidade horrorosa.
Chegou exausto no hotel. Não viu mais Laura ou seu
Hélio, antes de ir embora, e preferiu pensar que era melhor assim. Deixou
alguns presentes e bugigangas que ganhou na feira no quarto, repetiu a dose de
pizza e Marselan da noite anterior e dormiu quase instantaneamente quando
finalmente deitou.
Um mês depois ainda recebia mensagens, cartas e
e-mails o parabenizando pelo livro, pessoas conhecidas e desconhecidas
exaltando a qualidade de sua nova história. Fora isso, sua rotina voltara a ser
basicamente a mesma de antes. Cafés longos e despretensiosos pela manhã,
livros, joguinhos e seu novo gosto adquirido, caminhadas pelo centro, sempre
entrando nas lojas, cafés e afins pra conversar com as pessoas que praticamente
ignorara por anos.
Os encontros com seu Hélio e dona Héstia, que
inclusive saiu de sua fortaleza hoteleira pela primeira vez em muitos anos para
visitá-lo, mudaram algo dentro dele. Se sentia menos reativo, mais tolerante às
pessoas, com vontade de conversar e ouvir histórias. Uma coisa, contudo, ainda
o incomodava, o envelope entregue por Laura. Não tinha feito as pazes com a
ideia de revelar seu conteúdo, com medo de que o que estivesse escrito naquela
carta ou o que lesse no livro poderia ser muito pior que a sensação de mantê-lo
como estava.
Num dia de inverno intenso, com a casa cercada de
neblina, a lareira acesa e um litro de café recém-coado, decidiu que era hora
de encarar seus demônios. Demônios estes, no caso, que ele mesmo criara,
considerando que poderia ter resolvido facilmente a questão meses antes. Pegou
o envelope de cima da escrivaninha onde ficava o computador, no exato mesmo
local onde o pusera quando retornou de São Paulo, e o fitou por alguns minutos.
O abriu lentamente, num misto de tentativa de não o rasgar e adiar ao máximo o
desfecho daquele movimento e removeu seu conteúdo como quem desarma uma bomba.
Pra sua surpresa, de fato eram só um livro e um pedaço de papel.
Desdobrou a carta escrita à mão numa folha de
caderno Moleskine, e achou curiosa a primeira frase, “Oi. Antes de mais nada,
peço que por favor não compartilhe o que escrevi aqui com mais ninguém. O
conteúdo, os sentimentos e a história pertencem unicamente a nós dois”. Assim o
fez, permitindo à carta irrestrita confidencialidade. Ao fim da leitura, com
algumas lágrimas penduradas nos fios de sua barba e a sensação de que algo
tentava irromper de sua garganta, se deu conta de que livro acompanhava aquele
papel rabiscado com caligrafia impecável. Uma cópia surrada e com as páginas
ligeiramente amareladas nas bordas da primeira edição de seu primeiro livro,
lançado mais de 10 anos antes. Laura o comprara dias depois do lançamento, na
mesma livraria onde ocorreu o evento. Se deu conta, então, do que ela queria
dizer ao insistir que entenderia quando abrisse o envelope.
Sua primeira aproximação, ainda que o fato de terem
se encontrado na academia tenha acontecido totalmente por acaso, não foi
coincidência. De certa forma já o conhecia, mesmo que não planejasse se
apaixonar por ele. Pensou por muitas vezes em dizer que talvez não tivesse
iniciado aquela conversa se não soubesse que ele era o autor de seu livro
preferido e o quanto a tinha ajudado a seguir seus estudos e retomar seu gosto
pela leitura, especialmente quando a vida na cidade começou a afetar seu ânimo,
sua rotina e suas histórias. Quando lhe disse que não queria mudar pra
Gonçalves, convivia com a mistura cruel de sentimentos entre continuarem
juntos, seguir a própria vida e a culpa - ainda que não tivesse culpa nenhuma -
de não ter feito mais pra que ele sentisse que ali, junto dela, mesmo numa
cidade em que se sentia um estrangeiro, poderia ser seu lar.
Ele se levantou, guardou livro, carta e envelope
numa gaveta da escrivaninha e voltou pro sofá com mais um pouco de café na
caneca. Se sentiu um idiota completo, um canalha egoísta e autocentrado. Nem a
psicóloga, dias depois, soube exatamente o que dizer pra ele. Passou tanto
tempo afundado na própria frustração que ignorou o fato de que a melhor coisa
da sua vida estava ali, ao lado dele, o tempo todo. Precisou de mais algumas
semanas pra digerir, ainda que porcamente, aquela sensação. Manteve suas caminhadas
quase diárias e não deixou de se encontrar com seus conhecidos da cidade, mas o
cigarro voltou a lhe fazer companhia nos momentos em que estava sozinho, que
eram a maioria.
Dona Héstia voltou a lhe visitar, dessa vez por uma
semana inteira. A levou pra caminhar pelo centro, cozinharam juntos e
assistiram filmes clássicos. No penúltimo dia, resolveram jantar fora. Ela
insistiu que fossem em um restaurante específico, que uma amiga de São Paulo
que costumava passar férias na região recomendou. Era um restaurante
relativamente novo, do qual já ouvira falar, mas especialmente por conta de
toda a loucura dos últimos tempos ainda não tinha ido conhecer. Era uma noite
de inverno rigoroso como a em que leu a carta de Laura. Pensou sobre isso no
caminho, fazendo um esforço honesto pra não deixar que dona Héstia percebesse
sua inquietação. Feliz ou infelizmente pra ele, sua amiga tinha vivido por
tempo o bastante pra aprender a ler a linguagem mais natural de todas, a do
corpo.
- Tem alguma coisa te incomodando, né? Prometo que
eu realmente vou embora amanhã.
- Não, dona Héstia, muito pelo contrário, sua
presença aqui me fez um bem danado. Não costumo receber visitas, e esses dias
que a senhora esteve aqui fizeram minha casa parecer um lar pela primeira em
muito tempo.
- É, eu sei que a minha presença ilumina qualquer
ambiente, não precisa ficar me recordando disso. Mas já que não é a velha
dormindo no seu quarto de hóspedes, o que te aflige?
- A Laura. Bom, a carta que ela me deu. Tenho
pensado muito nisso, em como as coisas poderiam ter sido, no que eu deixei pra
trás, no que eu enterrei dentro de mim pra lidar com essa situação toda. Não
pensar em algumas questões desse assunto por anos talvez tenha sido a pior
escolha. Apesar dos pesares, não me arrependo de ter vindo pra cá, só acho que
talvez pudesse ter feito as coisas de outra forma, não deixado minha casa virar
um símbolo da minha solidão ao invés de um lugar pra acolher as pessoas que eu
amo. No fim das contas acho que eu e a casa viramos uma coisa só, distantes de
tudo.
- O que passou, passou, rapaz, você não devia se
martirizar tanto sobre isso. O mais importante é decidir o que você vai fazer
com esses sentimentos. Não perca tempo ruminando essas coisas dentro de você, a
melhor forma de lidar com isso é convertendo as emoções em ação. Acredite em
mim, já passei por momentos semelhantes. Inclusive, acho muito pertinente que
você tenha se aberto sobre isso comigo, porque tenho uma notícia pra te dar.
- Ah, é? Que notícia?
- Não seremos só nós dois nesse jantar.
- Como assim?
- Sem mais perguntas, já estamos chegando, eu
acredito.
E estavam. Não dirigiu por mais de 150 metros e
pararam em frente ao restaurante. 150 longos metros em que seu cérebro ansioso
criou milhares de cenários incompreensíveis sobre o que dona Héstia poderia ter
planejado sem que ele soubesse. Ao descerem do carro, pediu que ela entrasse na
frente, suas entranhas se contorciam e ele precisava de um cigarro pra cortar o
maldito processo químico que tentava mais uma vez fundir suas tripas em um
único conglomerado fisiológico. Cinco minutos de fumaça e vento frio o
acalmaram, ignorou os cenários apocalípticos que o haviam acometido e abriu a
porta. Qual não foi sua surpresa, dona Héstia estava sentada à mesa com seu
Hélio.
- Isso é algum tipo de pegadinha? Ou hoje é meu
aniversário e eu esqueci completamente dele.
- NADA DISSO, MEU GAROTO! Eu e minha amiga aqui
estivemos conversando muito sobre você, recentemente. Dá pra ver que alguma
coisa está fora do lugar, apesar de parecer melhor do que nunca.
- Exatamente, então decidimos fazer alguma coisa pra
te ajudar, já que não poderíamos abandonar nosso jovem amigo à própria sorte na
Serra da Mantiqueira.
- Bom, isso sem dúvida tá me fazendo muito bem. E
não querendo fazer pouco da iniciativa dos dois, mas vocês têm me feito visitas
e conversado comigo com alguma frequência, o que exatamente tem de diferente,
hoje?
- Isso é você quem vai decidir. A gente sabe que
você ama viver no interior, mas eu quero te dar uma presente pra quando quiser
mudar um pouco de ares.
Dona Héstia tirou um envelope da bolsa e entregou a
ele. Rompeu o lacre de cera, uma coisa que nunca achou que faria, tirou o papel
que havia dentro e leu.
- Posse definitiva da suíte presidencial? Isso é uma
brincadeira?
- Não rapaz, muito pelo contrário. Minha saúde já
anda frágil há algum tempo, sabe Deus quanto tempo mais vou ficar viva. Não
tenho filhos ou quaisquer descendentes pra quem deixar minhas posses, então resolvi
escolher eu mesma quem ficaria com tudo. Deixei uma suíte pra você e uma pro
Hélio, naturalmente sem nenhum custo tanto pra usá-las quanto pra quaisquer
coisas consumidas nas dependências do hotel pro resto de suas vidas, e meus
outros bens serão todos liquidados e o dinheiro distribuído igualmente pros
funcionários do hotel, que também vão escolher quem vai gerenciar tudo. Ah, a
sua suíte é a que contém a minha biblioteca.
- Eu… nem sei o que dizer. Dona Héstia, não posso
aceitar, isso é loucura.
- Claro que pode! Inclusive, não é como se você
tivesse escolha, isso já foi acertado com o setor jurídico do hotel, a suíte já
é sua.
Naquela noite, depois de duas garrafas de vinho pros
seus amigos, três tônicas pra ele e duas travessas enormes de cortes variados
de porco assados à perfeição, se despediram de seu Hélio, que estava hospedado
à alguns metros de distância do restaurante e retornaram pra sua casa. Na manhã
seguinte, levou a amiga até o centro, onde o editor os aguardava já com as
malas no carro.
- Garoto, espero que agora que tem um lugar fixo pra
ficar não demore tanto tempo pra nos visitar.
- Fica tranquilo, seu Hélio, prometo que apareço por
lá, especialmente agora que eu tenho motivos pra ir. E claro, não esqueçam que
minha casa está sempre aberta pra vocês.
Abraçou os dois demoradamente, ajudou dona Héstia a
entrar no carro e se despediu, sentindo uma felicidade profunda e genuína, como
há muito não sentia. Voltou pra casa pleno, certo de que as coisas dali pra
frente seriam mais amenas. E assim foram.
Três anos depois, entre idas e vindas de São Paulo,
uma turnê nacional de lançamento do livro, mais algumas viagens internacionais
com o mesmo propósito e um novo livro quase pronto, recebeu uma notícia pra
qual não estava preparado, o falecimento de dona Héstia. O velório ocorreu no
auditório do hotel, que foi tomado por uma atmosfera de consternação e
melancolia enquanto precisava continuar acolhendo e servindo gente que não
fazia ideia que ali ocorria a despedida à alma daquele lugar.
Passou o tempo todo junto a seu Hélio e sua esposa,
sem saber como digerir aquele momento. Seus últimos anos tinham sido melhores
em grande medida por causa da presença da curiosa senhora em sua rotina, fosse
em sua fisicamente ou não. Pensou por um momento que talvez não conseguisse
mais ficar no hotel, mas logo se recriminou, ouvindo a voz da amiga lhe dizendo
que era uma besteira se privar do que fosse por causa de alguém que nem estaria
lá pra encher o saco dele. O pensamento lhe causou um riso ligeiro, mas
revigorante, um oásis no meio daquele deserto. Pediu licença aos dois e subiu
pro seu quarto.
Precisava se distanciar um pouco antes do cortejo
até o cemitério em que dona Héstia seria enterrada. Tomou um banho, um
analgésico pra leve dor de cabeça que o acompanhava desde que chegou em São
Paulo e uma Coca-Cola só porque não tinha como aquele dia ficar pior. Retornou
ao átrio do hotel no exato momento em que conduziam o caixão até o carro
funerário. Na chegada fez questão de ajudar a carregar a caixa fúnebre feita de
madeira nobre e adornos dourados pelas galerias arborizadas e estranhamente
pacíficas do Cemitério Morumby. O enterro foi acompanhado por um silêncio
solene de todos os presentes, talvez porque nenhum deles soubesse ao certo as
palavras certas pra se despedir de alguém tão cheia de vida.
- Rapaz, já estamos indo embora, quer uma carona de
volta ao hotel?
- Não, seu Hélio, fica tranquilo, acho que preciso
ficar com ela mais um pouco, depois eu pego um táxi.
- Tudo bem. Se precisar de qualquer coisa não hesite
em me ligar, certo?
- Pode deixar. E muito obrigado. Por tudo.
- É sempre um prazer, meu jovem.
Observou por alguns segundos seu Hélio se afastar de
braços dados com a esposa. Se sentou na grama em frente ao jazigo, agora
completamente sozinho. Tirou do bolso interno do blazer o maço de cigarros, o
isqueiro e um calhamaço de folhas dobradas, os primeiros capítulos do livro que
estava escrevendo. Ainda não havia mostrado o material pra ninguém, nem pro
próprio editor-amigo. Queria ter mostrado pra dona Héstia pessoalmente, mas
infelizmente o tempo nem sempre acomoda nossas vontades.
Quando terminava de desdobrar os papéis, com um
cigarro já aceso pendurado no canto da boca, sentiu um toque gentil no ombro
direito, acreditando que talvez um segurança fosse lhe pedir que não fumasse
nas dependências do cemitério, ainda que não houvesse mais ninguém ali pra ser
intoxicado pelo método ultra lento de suicídio que escolhera pra si, ou talvez
a alma de dona Héstia tivesse retornado pra lhe poupar da cena clichê do
escritor atormentado que lê pros mortos, mas não poderia estar mais errado.
Laura sentou do seu lado com uma garrafa de vinho,
tirou um saca-rolha e dois copos plásticos da bolsa e os serviu, completamente
em silêncio.
- Não sabia que você conhecia a dona Héstia.
- Não conhecia. Mas eu te conheço, e conheço seu
Hélio. Ele que me ligou, na verdade. Não sabia que vocês tinham ficado tão
próximos.
- Nem eu, pra falar a verdade. Só me dei conta
quando os dois começaram a aparecer juntos vez ou outra, na minha casa. Quando
vi ele tava indo pra passar alguns fins de semana com a esposa, lá. Foi bom. Ou
melhor, é bom. Tenho alguns amigos em Gonçalves, mas esses três viraram minha
família.
- Que bom. Fico feliz que tenha encontrado seu
lugar.
- Valeu. E eu fico feliz que você esteja aqui.
Aliás, trouxe o começo do livro novo pra ler pra dona Héstia. Quer ouvir?
- E como eu poderia recusar? Apesar dos pesares, você
ainda é meu escritor preferido.
