terça-feira, 19 de maio de 2026

No Isolamento

 


Os dias começavam a ser indistinguíveis. O tempo passa diferente na cabeça de quem sente que não deveria mais estar no meio de outras pessoas. Ou seria só uma inquietação normal depois de tanto tempo isolado? Ele já não sabia, mas achava que, sinceramente, o que realmente importava era que a água já havia fervido e finalmente poderia passar um café enquanto pensava nas possibilidades de mais um dia no planeta casa. Encheu a caneca quase até a boca, o vapor luxuriosamente sufocante do café arrepiando cada neurônio seu igual beijo na nuca.

Engraçado, a vida de um escritor poucas vezes exige alguma interação social. Óbvio, qualquer literato comprometido em retratar o mundo de forma fiel precisaria se lançar, ainda que minimamente, nesse jogo estranho das atividades coletivas, típicas do ser humano, mas ele não era nem um pouco comprometido. Daria até pra dizer que, nos últimos dois ou três meses, tinha desenvolvido certa ojeriza pelo simples pensamento de ter que lidar diretamente com um desconhecido, assim como é altamente improvável que qualquer desconhecido tivesse algum prazer em ter que interagir com ele.

O telefone tocou. Revirou os olhos, pronto pra desligar mais uma das intermináveis chamadas diárias de estranhos números 011. Sua repulsa por São Paulo havia crescido por conta dessas ligações, mas havia um estranho prazer em ignorá-las, quase como um ritual de manutenção da rotina. Seu perfeito círculo dialético. Olhou pra tela, pronto pra dose diária de ignoramento telefônico, e suspirou. Pra sua surpresa (e certo descontentamento), era um nome conhecido que atrapalhava seu dia.

- Alô?

- Um momento, por favor. Seu Hélio já vai entrar na linha pra conversar com o senhor.

- Eh... Ok.

Hélio, o editor-chefe, seu juiz, júri e algoz. A pessoa que o separava de todo o dinheiro que precisasse pra escrever livros, beber café e jogar jogos velhos no seu computador velho sem se preocupar com prazos e Hélios. Um cara legal, até.

Seu Hélio demorou uma eternidade pra entrar na linha. A espera proporcionou uma memória agridoce e sem sentido, dessas que vêm de repente porque um milhão de conexões entre informações aparentemente desconexas ocorreram, de uma antiga recente paixão. Era uma moça legal, que ele nem lembrava direito o porquê de ter se afeiçoado. Conversavam sobre esportes, as dores da vida, o último filme do Harry Potter - ainda que odiasse Harry Potter - mas os espaços entre cada conversa foram aumentando aos poucos. Entre a última e o momento presente, por exemplo, se estendiam mais ou menos uns 8 meses. E há 4 já não pensava nela.

Deu de ombros, balançou a cabeça como quem sente um calafrio e ouviu, finalmente, uma voz do outro lado.

- FALA, SEU SALAFRÁRIO! Tudo na paz? - gritou Seu Hélio, desproporcionalmente animado com aquela ligação telefônica.

- Opa, seu Hélio, tudo na mesma.

- MUITO BOM, MUITO BOM!

Ele odiava o ânimo constante do velho, e tinha a sensação de que ele usava esse estilo alto-astral pra mascarar algum problema bizarro, mas de baixa periculosidade, tipo gases insistentes ou um cachorro que urinava no tapete da sala todos os dias.

- Escuta, precisamos falar sobre esse manuscrito novo.

- Ok, pode falar.

- Simplesmente INCRÍVEL. De uma sensibilidade ímpar! Já li 3 vezes e fico sempre atônito com o tanto de novos detalhes que cada leitura revela. Talvez seja sua maior obra até agora.

- Muito obrigado, seu Hélio. Escrevi com o intuito de falar de mim pra mim mesmo, sem grandes pretensões. Talvez esse seja o segredo, não pretender nada.

- Olha, se é o segredo, não sei. Mas já estamos em contato com todo mundo pra preparar o lançamento. Preciso que você me mande o que quer fazer pra capa, fonte e esse blá blá blá todo até mês que vêm.

- Ok. Já tenho algumas coisas em mente, acredito que não demore muito.

- PERFEITO! Esse livro com certeza vai ser um sucesso! Um abraço!

- Abraço, seu Hélio.

Desligou o telefone, aliviado e contente com a notícia de que o livro seria lançado. Claro, em todos os seus 5 lançamentos havia sentido a mesma coisa, mas era a primeira vez em um bom tempo que sentia que aquilo tinha algum significado, ou que não havia escrito só pra se livrar de palavras. Não tinha mais sufoco, e isso parecia muito mais do que ele merecia. Mas tudo bem, uma vitória de cada vez. Decidiu que merecia, no entanto, não fazer absolutamente nada o dia todo. Sentou no sofá, ligou a TV e continuou bebendo o café, sem pressa nenhuma pra terminar. De repente, no meio do jornal, um rosto conhecido.

A viu pela primeira vez quando ainda estava sujeito à execrável rotina imposta pelos horrores metropolitanos de São Paulo, que tal qual uma entidade cósmica bizarra de um conto lovecraftiano o enlouquecia mais e mais a cada vez que era obrigado a botar os pés pra fora do apartamento e olhar pro que quer que fosse.

Fingia que pedalava uma bicicleta ergométrica em uma dessas SmartBiancoBergBlue. Ela sentou na bicicleta ao seu lado, olhou de canto como quem não consegue evitar olhar pra um acidente ou uma idosa escorregando em uma folha de chapéu-de-sol em dia de chuva e falou:

- Olha, sem querer cortar seu barato, mas ficar sentado na bicicleta não conta como exercício.

- Eu sei, faço isso mais pelo efeito psicológico nos dias em que ficar em casa fica excessivamente entediante. Fora que o simples fato de pisar nesse lugar já fez umas 10 pessoas acharem que eu emagreci, mas eu nunca dei mais do que umas 15 ou 20 pedaladas nesse treco. Também seria incapaz de ferir a memória de todos os cigarros que eu já fumei nessa vida. Imagina o que eles diriam se soubessem que eu virei saudável de verdade? Não, não, seria humilhação demais.

Ela riu, ele riu, e seis meses depois realmente tinha perdido peso, já que ia de bom grado pedalar com ela todos os dias. Laura coincidentemente era professora de Literatura do ensino médio, o que ele por algum tempo desejou ser enquanto estudava Letras. Conseguia encostar o indicador e o mindinho da mão direita, colecionava DVDs de filmes trash de tubarão e dava risada com a mesma intensidade toda vez que assistia a briga entre o fantoche Galerito e Gil da Esfiha.

Tudo ia bem, até que não foi mais. O relacionamento foi pras cucuias quando começou a falar pra ela do quanto não se sentia mais confortável em estar em São Paulo. Têm 5 anos e uns quebrados que se mudou pro sul de Minas. A decisão da sua vida, ainda que por muito tempo acreditasse que precisava estar perto de grandes centros urbanos, agito cultural e desvairamento paulistano pra ser um bom escritor, que isso era o gás que impulsionava as palavras, tal qual se lançar em sociabilidades. Ledo engano. Quanto mais tempo passava perto da derrota urbana, menos conseguia concatenar meia dúzia de frases.

Admitir pra si mesmo, depois de anos de resoluta negação, que seu corpo implorava o ar rural, não partiu de um processo simples, e o fato de que a ideia não era nem um pouco atrativa pra Laura tornou tudo ainda mais difícil. Sua saúde mental não se sustentaria por muito mais tempo naquele pesadelo, nem sua saúde financeira, já que não conseguia mais escrever nem com a mesma frequência, nem com a mesma qualidade. Mas a ideia de uma vida longe dela era tão sufocante quanto continuar ali. Toda vez que o assunto vinha à tona, se seguiam dois ou três dias de distância e desconforto.

A última conversa que tiveram partiu de um diálogo ensaiado por ele diante do espelho do banheiro pelo menos uma dezena de vezes. Mudava palavras e a ordem com que os argumentos seriam expostos repetidamente, num esforço que, ainda não sabia, continuaria inútil mesmo que apresentasse 100 versões do discurso que preparava. O último recurso obviamente não funcionou, e em respeito à memória dos sentimentos sepultados naquele momento, ao que de fato ocorreu na despedida foi permitido deixar a correnteza de lágrimas e garrafas de vinho afogarem o que fosse necessário no oceano do esquecimento. Alguns dias depois terminava de colocar os últimos pertences no carro pra seguir em direção a cidade de Gonçalves, certo de que deixava pra trás a tristeza e o que mais precisasse ficar.

Seu novo livro era sobre um homem que se muda pro interior e começa a presenciar eventos cada vez mais surreais, com as coisas mudando tão lentamente que quase não se percebia a realidade derretendo a sua volta, e numa reviravolta maluca, depois de dezenas de reflexões sobre o que é o real e o quanto a existência se constrói a partir do nosso entendimento do que cada coisa deveria ser, descobre que na verdade toda a loucura era fruto de cogumelos alucinógenos que cresceram na sua caixa d’água. Esse pano de fundo lisérgico foi a forma que ele encontrou de dar certa leveza pro processo de luto do fim do relacionamento, considerando por um bom tempo que talvez não tivesse refletido ou se esforçado o suficiente pra superar as diferenças que sempre pareciam insignificantes em comparação ao quanto amava cada segundo ao lado de Laura. Foi quando terminou o livro e mandou pra editora - e mais uma dezena de sessões de terapia - que fez as pazes com o fim. Ou quase.

Ao vê-la sendo entrevistada enquanto curadora de uma feira de literatura independente que ocorreria em alguns meses em São Paulo, sua boca secou, suas mãos tremeram e suas pernas latejaram. Tudo não durou mais que 3 ou 4 segundos, mas sentiu como se aquela descarga de stress tivesse se estendido por uma semana inteira. Atônito, desligou a TV, pegou mais um pouco de café e ficou ali, ligeiramente escorado na bancada da cozinha, olhando pela janela as árvores que circundavam sua casa, sem conseguir formar uma unidade de pensamento.

Voltou apropriadamente a si horas depois, ainda inconformado com a informação de que Laura continuava existindo, um pressuposto óbvio, mas em que escolhera não acreditar, achando que a excluir de seu mundo mental facilitaria todo o processo. O rápido vislumbre de sua imagem na TV foi o suficiente pra fazê-lo passar o resto do dia com a sensação de que seus órgãos se contorciam na tentativa de virarem um grande aglomerado de funções fisiológicas, talvez em busca de fazer o cérebro desviar a atenção do que havia acontecido horas mais cedo. Teve dificuldade pra dormir, revisitou descontroladamente cada vacilo cometido contra o relacionamento deles durante a madrugada e acordou sentindo que não dormia há dias.

Uma semana depois estava de fato recuperado. Conversou com sua terapeuta sobre o ocorrido, consciente de que, apesar do baque, havia sido um episódio isolado, e constatou que olhava praquilo como uma oportunidade de reavaliar a forma como lidava com o fim de ciclos na sua vida. Ela ouviu tudo atentamente, ainda que, enquanto ele falava, desenhasse gatinhos no seu caderno e pensasse “puta merda, 4 anos de trabalho indo pro buraco”. Ficou contente com a conclusão em que ele chegara, sentiu um pouco de culpa por desacreditar do próprio paciente e ao fim da sessão pediu mais uma vez que se esforçasse pra socializar com mais frequência.

No caminho de casa parou na padaria próxima à Igreja Matriz, comprou salgadoces e gulocrimes suficientes pra 6 adultos e voltou ao seu habitual isolamento idílico, pronto pra ignorar ligações, assistir filmes e ler sem incômodos e distrações por pelo menos mais uma semana. Só não contava com a eficiência de seu Hélio e seus asseclas literoeditorias. Acordou no dia seguinte assustado com o toque tosco que saía do autofalante do celular no último volume. Não bastasse um golpe sonoro, logo recebeu outro.

- BOM DIA, GAROTO!

- Bom dia, seu Hélio.

- NÃO TE ACORDEI, NÉ?

- Mais ou menos, mas eu já estava me preparando mentalmente pra levantar.

- PERFEITO! ME SENTIRIA MAL DE INTERROMPER SEU DESCANSO.

Simplesmente não conseguia entender o porquê de o velho estar falando ainda mais alto e entusiasmadamente que o normal.

- Aconteceu alguma coisa? O senhor ligou pra falar sobre o livro?

- Exatamente! Já fizemos todo o trabalho gráfico e de edição do livro. Minha assistente vai te enviar pra aprovação e assim que nos der o OK começamos a impressão.

- Ótima notícia, seu Hélio! E quando a gente começa a falar sobre o lançamento?

- Assim que eu receber as provas da impressão. Quando estiverem aqui peço pra te ligarem pra marcarmos um dia pra você vir até aqui. Aí discutimos todos os detalhes pra botar essa belezinha pra ganhar o mundo!

- Minha presença aí é realmente necessária, seu Hélio? Gosto TANTO de alinhar as coisas com o senhor pelo telefone.

- MAS É CLARO, JOVEM! Não vamos só falar do livro, preciso te levar pra almoçar com uma moçada que não vê a hora de te conhecer e trabalhar na promoção dele.

Pensou consigo mesmo, antes de responder, de onde o velho tinha tirado “moçada”, e sentiu que estava prestes a participar de um almoço com o grupo de pessoas mais desinteressantes que já pisou na face da terra.

- Bom, então tá certo - apesar de não estar nada certo - assim que tivermos tudo encaminhado marcamos a data pra eu aparecer na saudosa terra da garoa.

- ÓTIMO! NÃO VEJO A HORA DE NOS VERMOS NOVAMENTE, GAROTO!

- Eu também não, seu Hélio. Eu também não.

O que se seguiu foram 15 dias de saídas regulares pra andar pela rua por pelo menos meia hora. Sentia que se subisse no ônibus e só saísse no Tietê praticando o estado mental em que vivia quando estava escondido no seu paraíso mesotérmico brando seria engolido pela maldita capital do maldito estado de São Paulo. Precisava se readaptar ao fluxo de pessoas, e não que Gonçalves fosse capaz de proporcionar uma experiência sequer remotamente parecida com o que enfrentaria, mas já era melhor do que nada.

No fatídico dia, em posse de sua malinha vermelha com rodas emperradas pelo acúmulo de pelos, grama e mais um monte de outras sujeiras presas há tanto tempo que seu carbono-14 poderia ser usado pra medir a idade de uma dúzia de cidades, subiu no ônibus e seguiu pro metropolinferno paulistano, ouvindo acid jazz no último volume em seus fones de ouvido alemães pra tentar deixar o cérebro em sintonia com a cidade. Desceu no Tietê e entrou num táxi rumo ao hotel, observando a cidade como quem presencia um cenário de guerra.

Fez o check-in, subiu pro quarto, jogou as roupas no vão de concreto e madeira que presumiu ser um armário e tomou um banho. Sentia a sujeira de São Paulo escorrendo rumo ao ralo, um ritual momentâneo de purificação antes de se expor novamente às intempéries da cidade. Desceu, jantou num restaurante vietnamita meia-boca na esquina do hotel, voltou pro quarto e dormiu como se tivesse acabado de completar uma prova do Iron Man.

No dia seguinte, logo após o café-da-manhã, sentindo ainda um pouco de azia por conta do café mequetrefe que acreditava ter sido apurado e reduzido por pelo menos 2 dias antes de ser despejado na garrafa térmica, sentiu o telefone vibrar. Exatamente como previu, seu Hélio.

- BOM DIA, MEU JOVEM! PREPARADO PRA HOJE?

- Bom dia, seu Hélio. O senhor nem imagina. Eu diria que estou EXULTANTE com a programação de hoje.

- MARAVILHA! - disse o velho, claramente sem captar o mix de sarcasmo e queimação estomacal que aquelas palavras arrastavam em sua direção - Por volta das 13h o carro da editora passa por aí pra te pegar. Estamos todos muito empolgados pra te ver!

O telefone do quarto tocou. O recepcionista do hotel, quase se recusando a emitir sons, avisou que o carro lhe aguardava na entrada. Pegou o elevador acompanhado de uma senhora na casa dos 206 anos que estava hospedada no mesmo andar que ele. Ficou imaginando mil motivos praquela criatura tão frágil, exalando uma mistura de perfume cítrico e sabonete de verbena, estar sozinha num hotel em São Paulo. Descobriu mais tarde que ela era a única filha do fundador, nascida e crescida dentro daquelas paredes, sem nunca ter tido contato com qualquer assunto que fosse relacionado à administração, e que fora sua rotina vivendo sozinha num quarto médio, ainda que tivesse uma suíte presidencial à sua disposição, ninguém tinha muita certeza do que fazia nos passeios diários ou com sua fortuna, além de retornar, pelo menos uma vez na semana, com uma sacola da livraria que ficava à alguns quarteirões de distância.

- Já vi seu rosto - disse ela, a voz consideravelmente mais vigorosa e firme do que sua aparência ousaria sugerir.

- Ah, é? Imagino que na orelha de algum livro. Consta que eu sou escritor.

- Também. Mas na verdade foi antes. No lançamento do seu primeiro romance. O Hélio me convidou, disse que eu não podia perder de ver o surgimento de um dos novos grandes nomes da literatura contemporânea.

- De fato seu Hélio tem a mania de ser hiperbólico. O que a senhora achou?

- Do quê?

- Do livro. Do lançamento. Da situação toda, no geral.

- Você parecia triste, apesar de estar sorrindo, conversando com as pessoas e agradecendo os elogios. Do livro em si, achei decente. Não me leve a mal, rapaz, mas como pode ver eu já vivi muito tempo, é um pouco difícil me surpreender.

Sobre o livro, concordava. Não achava sua estreia grande coisa, apesar do orgulho natural de saber que alguém apostava no seu talento. Sobre a tristeza, nunca tinha parado pra pensar nela naquele momento de sua vida.

- Concordo com a senhora, também não acho ele grande coisa. Nem os outros, pra dizer a verdade, mas talvez seja coisa de escritores, né? Nunca achar que estão bons o bastante.

- É coisa de gente sensata, rapaz. Que continua buscando o melhor possível, mesmo quando o possível não é o melhor.

- Isso faz sentido de um jeito muito estranho. Enfim, como a senhora conheceu seu Hélio?

- Eu amo livros, ele é editor-chefe. Conheço gente o bastante pra me fazer chegar nas pessoas que eu quero chegar, e um dia cheguei nele.

- Te admiro. Confesso que ultimamente tenho preferido conhecer as pessoas que IMPEDEM que outros cheguem em mim, e tem funcionado - disse ele, enquanto andavam, já no saguão, rumo à porta do hotel - Preciso ir, aquele carro tá me esperando. Espero nos encontrarmos de novo.

- Nos encontraremos, rapaz, sem dúvida nenhuma.

Entrou no carro, ainda intrigado com a conversa que o fez esquecer por um tempo o nervosismo com o evento. O motorista foi respeitosamente silencioso por todo o percurso, fora o “boa tarde” e o “bom almoço” ditos no encontro e na despedida entre ambos. Amava pessoas que ficavam confortáveis em não trocar mais do que as palavras estritamente necessárias. Entrou no hotel em que ficava o restaurante. Nomes não serão utilizados, então digamos apenas que é um hotel famoso de uma família famosa no meio da hospitalidade, com tendências a explorarem exaustivamente a ascendência italiana enquanto seus restaurantes servem comida parada no tempo por preços que permitiriam uma pessoa comprar e restaurar um Kadett 98 GLS 2.0.

Não precisou nem adentrar o salão do restaurante, ainda do corredor que conduzia até ele foi capaz de avistar a figura robusta, careca, bigoduda e ligeiramente avermelhada do editor-chefe. Ao se aproximar um pouco mais reconheceu alguns rostos de funcionários da editora, pessoas muito agradáveis que sempre concordavam com ele que aqueles encontros tinham pouca ou nenhuma necessidade de acontecer, e uma outra que estava de costas, imaginando que seria a tal “moçada” a que seu Hélio se referiu quando ligou para pedir que viesse até São Paulo.

Ele se levantou e veio em sua direção, gritando um “GAROTO!” repreensivelmente alto, tanto pela proximidade entre os dois quanto pelo fato de o restaurante estar lotado de pessoas que claramente eram do tipo que tinham ojeriza por gente barulhenta, mas não como ele, e sim num sentido de gente rica que automaticamente presume que se alguém é um pouco espalhafatoso, provavelmente é pobre e, portanto, não deveria estar no mesmo ambiente que eles.

Sentindo os olhares e tomado por solidariedade ao velho, o abraçou e falou igualmente alto “SEU HÉLIO!”. Se arrependeu imediatamente, tomado por um lapso de autoconsciência que o fez lembrar que odiava se expor. Recomposto do baque, se virou pra cumprimentar as outras pessoas, só não esperava que o dia ainda lhe reservava um golpe ainda mais brutal: Laura.

Quando ela se virou na cadeira, seus olhos se encontraram imediatamente. Sentiram o tempo ser suspenso e sentimentos e palavras acumulados por anos ameaçaram romper seus corpos trêmulos. Quase simultaneamente engoliram em seco, desviaram o olhar e disseram o nome um do outro, tentando com todas as forças fingir normalidade no meio da mais anormal confluência de eventos que o mundo presenciou em muito tempo.

O que se seguiu foi a própria imagem do desconforto. Não conseguia prestar atenção em nada do que aqueles jovens marketeiros empolgados discutiam e sugeriam pros eventos da turnê de lançamento do livro, não conseguia olhar na direção de Laura e nem parar de pensar no fato de que estava ali, à uma mesa de distância da mulher que mais amou na vida. Sentindo que todas as fibras musculares de seu corpo poderiam explodir se não se mexesse, levantou repentinamente, abaixou em direção ao ouvido de seu Hélio, sentado ao seu lado, disse que ia tomar um ar e fumar um cigarro e saiu do restaurante sem nem olhar pra trás.

Sentou em um banco da calçada em frente ao hotel, longe o suficiente daquela situação. Ficou ali, fitando o nada, sem conseguir formular uma frase, pensamento ou focar em qualquer coisa que fosse. Talvez ficasse nesse estado de suspensão por horas, não fosse pela mão tocando seu ombro como um sabre pronto pra trespassar o corpo de um soldado caído no campo de batalha, ainda que a única batalha ali fosse com a sua incapacidade de lidar com seus sentimentos. Claro que a mão era de Laura.

- Tinha certeza que você não voltou a fumar.

- Não seria capaz de fazer isso com a memória de todos os cigarros não fumados desde que eu parei.

- Ah, então é só em memória deles?

- E do que mais poderia ser?

- Não sei, talvez respeito próprio, autocuidado, atenção à sua saúde.

- Você sabe que eu não acredito nessas coisas. Elas são o Deus do meu ateísmo. Os outros também são, mas continuo especialmente ateu com essas coisas, ainda que continue me obrigando a praticá-las como um moribundo que vai à igreja fazer orações em busca de uma salvação que ele sabe que nunca vem. Com a diferença, claro, de que eu só quero conseguir limpar minha própria bunda até cumprir minha sentença e me encontrar com o único mal irremediável.

- É, você continua você.

- E o que mais eu continuaria sendo?

- Talvez não continuar. Sempre pensei que morar no interior poderia te mudar, de alguma forma. Mas acho que no fim das contas você sempre morou lá, só não fisicamente.

- É, acho que faz sentido. Ter vindo pra cá foi uma tortura desde o momento que eu pisei na rodoviária.

- Seu desconforto é visível.

- Desconforto nem começa a descrever o que eu tô sentindo.

- É só com ter vindo pra São Paulo?

- Não, mas sinceramente prefiro não falar sobre isso. Afinal de contas, por que você tá participando desse almoço?

- Ah, a velha tática de falar sobre isso sem falar sobre isso. Vou entrar nesse seu joguinho. Seu Hélio não te contou? Eu sou a curadora de uma feira literária que vai acontecer mês que vêm e a editora pretendia lançar seu livro no primeiro dia. Quando eu soube que você vinha pedi pra ele me incluir no encontro de hoje.

- É, te vi dando entrevista na TV. Foi um dia curioso. Curioso também foi o velho não ter me falado quem ia participar disso aqui. Por acaso também tem dedo seu nisso?

- Se te disser que sim vai fazer diferença?

- Não sei. Prefiro pensar sobre isso depois de saber.

- Não achei que fosse ser um problema.

- Não é um problema, é só… Sei lá. Não esperava te ver. Não sei se queria te ver. Nunca mais, pra falar a verdade. Sua cara na TV já foi emoção suficiente. Talvez eu venda esse aparelho satânico.

- Olha, eu não queria ser um sentimento negativo, se soubesse que você ia ficar desse jeito não teria vindo. Só pensei que depois de todos esses anos as coisas teriam mudado.

- Laura, elas mudaram, e esse é problema. O plano sempre tinha sido ir embora daqui, aí ele passou a te incluir, e quando você não quis ir, eu precisei lidar com esses anos chafurdando na sensação de que aquilo era um plano falho e remendado. Eu nunca mais tinha voltado pra cá ou tido qualquer contato com qualquer coisa que me fizesse cogitar a mais remota possibilidade de estar frente a frente com você de novo. Achei que a terapia estava me ajudando de verdade, nem ansiolítico eu tomo mais. Mas cá estamos.

- Olha, nem vem, você sempre soube que eu não queria ir, então nada de agir como se tivesse sido uma grande surpresa. Sua partida também me jogou num estado deplorável, também foi assunto de muita sessão de terapia e por um bom tempo fiquei me sentindo culpada. Mas eu resolvi dar um basta nisso, cansei de me colocar no lugar de vilã da sua frustração, quando a expectativa sobre a minha ida com você era inteiramente sua. Quis vir aqui hoje porque pensei que poderíamos ficar em paz com as coisas que aconteceram entre a gente, mas parece que eu estava errada.

- Só faltou me consultar pra saber o que eu pensaria sobre essa situação. Mas enfim, você tá completamente certa, essa expectativa era só minha, e eu não te culpo, nunca te culpei. Olhando pra trás, talvez a única ação coerente pra evitar que a gente estivesse discutindo o passado em frente a esse hotel cafona de gente rica no meio dessa merda de cidade fosse ter terminado nossa relação do dia que você me disse a primeira vez que não se via morando no interior. Teria doído muito mais acabar as coisas no auge de tudo, mas pelo menos agora acho que não estaríamos passando por isso.

- Talvez, mas a gente não tem como saber. Ninguém têm. Mas acho que isso não importa mais. As coisas são como são. Quero saber se essa nossa conversa vai afetar sua participação na feira. Se for o caso, acho melhor irmos logo lá pra dentro contar a notícia pro seu Hélio e pra equipe.

- Não, fica tranquila. Nós somos adultos, supostamente, acho que conseguimos lidar com isso de forma profissional.

- Então OK. Acho melhor a gente entrar, de qualquer forma.

Quando se levantou do banco, numa ligeira queda de pressão que impulsionou um surto repentino de coragem, esticou a mão até o ombro dela, que já se virava em direção à entrada do hotel, e disse:

- Antes de voltarmos, preciso falar uma coisa. Eu sei que o que vou te dizer agora provavelmente é pouco, e com certeza tarde demais, e além disso a única metáfora que eu consigo pensar é completamente absurda, mas nada mais seria capaz de sequer arranhar a superfície do que eu sentia. Estar com você era como cruzar o horizonte de eventos de um buraco negro. Minha vontade de estar perto de você, ouvir cada palavra que saía da sua boca com a articulação mais perfeita que um ser humano poderia produzir e ficar absorto em cada mudança de expressão no seu rosto por todas as horas possíveis e impossíveis era tão grande que parecia dilatar as estruturas que mantém conectados o tempo, o espaço e qualquer outro conceito abstrato que tenha sido inventado pra dar algum sentido pra essa coisa louca e esquisitíssima chamada Universo. Mas como tudo em física quântica opera sob forte influência da entropia, quando as coisas começaram a mudar de verdade senti que a gravidade que mantinha isso tudo acontecendo já não era mais tão forte, até que não foi mais capaz de me segurar ali. Tentei com todas as forças lutar contra o impulso de ir embora, mas a verdade é que a força que me restava já não era tão grande assim.

Com algumas lágrimas escorrendo dos olhos castanhos e o sorriso discreto de quem tenta convencer o próprio corpo de que está tudo bem, Laura disse “de fato, é tarde demais”, se virou e seguiu hotel adentro.

Voltou pra Gonçalves no mesmo dia. O resto do almoço transcorreu relativamente bem, considerando o maremoto emocional que atingiu os dois. Os dias de lançamento, livrarias e cidades por onde passaria, os horários e mesas em que participaria na feira e tudo mais que precisasse ser definido se definiu. Se despediram, enfim, ainda incertos sobre como digerir aquele reencontro. Depois de desfazer suas malas, pediu uma pizza e, enquanto mastigava abobalhado um punhado de amendoim pra tapar o buraco do estômago até a janta chegar, decidiu que não pensaria mais naquilo. Ainda que sua decisão se provasse não valer de nada nos dias que se seguiram, como quando a viu pela TV, preferiu naquele momento acreditar em si mesmo. Seu cérebro, por outro lado, já tinha feito outros planos, e na mesma noite produziu meia dúzia de sonhos angustiantes, com Laura aparecendo em todos.

Tentou se ocupar o quanto pôde fazendo caminhadas, visitando os restaurantes que ainda não conhecia na cidade e jogando seus joguinhos velhos no computador. Às vezes as distrações funcionavam, às vezes não, mas aos poucos pensava cada vez menos naquilo tudo. Quando finalmente estava retornando ao estado mental em que se encontrava antes da ida pra São Paulo, se lembrou de que faltava apenas uma semana pra feira. Uma semana, consequentemente, pra reencontrar Laura.

Coincidência ou não, a editora reservou exatamente o mesmo quarto do mesmo andar em que ficou hospedado em sua última viagem. A familiaridade com o espaço o tranquilizou, especialmente pela expectativa em reencontrar sua amiga leitora/dona de hotel/muito velha, apesar de um pouco envergonhado por não ter perguntado o nome dela nem durante a conversa que tiveram, nem quando inquiriu o recepcionista inimigo da comunicação clara sobre quem ela era. Decidido a remediar essa falha e sem nada melhor pra fazer até o dia seguinte, data do lançamento na feira, desceu até a recepção em busca da informação que faltava.

- O nome dela é Héstia.

- Héstia? Tipo a deusa grega?

- Não sei, senhor, eu sou católico.

- E por que isso te impediria de saber o nome de uma deusa grega?

- Não sei, senhor, só imaginei que se te desse um motivo você me deixaria trabalhar.

- Você podia só ter me dito que tá ocupado.

- Achei que soaria rude.

- Bom, soou rude desse jeito, também.

- Olha, senhor, têm pessoas esperando para serem atendidas.

- OK, OK, tô saindo.

Seguiu para o bar do hotel, ainda um pouco confuso e contrariado com a atitude surpreendentemente pouco amigável do recepcionista, sentou no balcão e pediu um Sazerac, sentindo que merecia beber um drink barra-pesada da velha guarda pra lidar com a situação, como um tapinha etílico nas costas garantindo a ele que ficaria tudo bem. No meio da primeira bicada no copo, emitiu um misto de engasgo e tossida ao perceber a presença repentina de dona Héstia sentada no banco ao seu lado.

- Eu sou tão feia assim, rapaz?

- Não, dona Héstia, perdão, só não percebi a chegada da senhora.

- Ah, olha só, então você descobriu o meu nome! Quem abriu o bico, a Lúcia do restaurante?

- Não, foi o rapaz da recepção, o muito loiro.

- Ora, vejam só, por essa eu não esperava. 3 anos que ele trabalha aqui e eu mal ouvi a voz dele.

- Preferia não ter ouvido.

- Bom, e o que te traz novamente à nossa amada cidade? Espero que nada grave, seu semblante não é dos mais relaxados.

- Se é grave, ainda não sei dizer, mas certamente poderia ser mais tranquilo. Amanhã lanço meu novo livro.

- Que maravilha! Pode contar com a minha presença. Me surpreende que o Hélio não tenha me avisado de um lançamento.

- Talvez ele tenha pensado que a senhora não se interessasse em comparecer, considerando que vai acontecer em uma feira literária num desses pavilhões de exposição que parecem grandes shoppings de nada. Bom, como qualquer shopping, só que com menos divisórias e mais gente.

- Sou eu quem deveria decidir que tipo de ambientes eu me interessaria em comparecer ou não, não acha?

- Sem dúvida, mas acredito que isso seja só o seu Hélio sendo ele mesmo. Sempre excessivamente festivo ou preocupado em resolver os problemas de todo mundo, sem nem se dar conta de que tá passando por cima do livre-arbítrio alheio.

- É, talvez você tenha razão. Mas ainda assim, melhor excesso de zelo do que absoluta indiferença, não é?

- Sem dúvida, dona Héstia.

- Enfim, estou saindo pro meu passeio diário. Deixe o horário e o local do lançamento na recepção que assim que eu voltar pego com o pessoal. E não se preocupe, acho que seu novo inimigo já terminou o turno dele.

Riu do comentário de sua nova amiga velha, se despediu e retornou ao Sazerac, remexendo o gelo com um palito e se divertindo com a ideia de ter um inimigo. Pegou um guardanapo, a fiel caneta Uniball que habitava o bolso frontal direito do que quer que estivesse vestindo na parte baixo - a não ser, claro, que não estivesse vestindo nada - e anotou a ideia para uma nova história em que, claro, o vilão era um recepcionista de hotel muito loiro que tinha como único ato de maldade, na verdade, só ser insuportavelmente passivo-agressivo o tempo todo, mas que por algum motivo misterioso não podia ser demitido apesar das inúmeras reclamações.

Terminado o drink, passou na recepção, deixou as informações da feira pra dona Héstia e saiu em busca de um lugar pra se entupir de alguma comida que não encontraria em Gonçalves ou adjacências. Encontrou uma lanchonete que vendia mais tipos de shawarma do que acreditava existirem, comeu 3 e voltou pro hotel. Dormiu boa parte do resto do dia, inconscientemente grato por não estar pensando no evento do dia seguinte. Acordou por volta das 20h, desceu até o bar e comeu - sabe-se lá como, considerando o volume de shawarma que ocupava seu estômago - uma pizza margherita estilo napolitano e uma taça de vinho Marselan.

Acordou no dia seguinte de um sono que nunca tivera em todo o período que morou em São Paulo. Revigorado, leve, estranhamente animado. Tomou um banho, desceu pro café da manhã e se sentou em uma mesa próxima à uma janela. Bebeu o café sem pressa, já acostumado com o gosto de carvão mineral, enquanto observava o pequeno jardim que havia do lado de fora do restaurante. Aquela calmaria era suspeita. Não conseguia entender como se sentia tão calmo, considerando o que o esperava nas horas seguintes. Nem a inquietação com aquela tranquilidade de fato o inquietava. Achou por bem aceitar que talvez sua mente estivesse vagarosamente colapsando pra que, ao final da feira, pudesse ter um piripaque em paz, sem atrapalhar o lançamento do livro, a feira, a vida de Laura, seu Hélio e o que mais pudesse ser impactado pela repentina combustão espontânea metafórica de um - já não tão - jovem escritor nada metafórico.

O mesmo cordialmente silencioso motorista o buscou no hotel. Seu Hélio ligou pra saber se estava a caminho, se precisava de algo pra hora que chegasse e mais uma quantidade avassaladora de coisas num espaço de 5 minutos. Chegando à feira, foi recebido por uma das moças da editora que participaram do almoço, e seguiram para o estande, onde o editor o aguardava conversando com um grupo de pessoas muito mais elegantes do que exigia uma feira de livros. Quando reparou sua chegada, se despediu deles e foi ao seu encontro, sorridente e avermelhado como sempre.

- MEU JOVEM! Não via a hora da sua chegada. Estamos muito animados com o lançamento. Um monte de gente já passou por aqui pra pegar senha pra fila do livro. Espero que seu pulso esteja com a mobilidade em dia, você vai dar MUITOS autógrafos hoje.

- Nunca está, seu Hélio. É impossível se acostumar com autografar dezenas de livros em sequência tentando decifrar como escrever os nomes das pessoas que não falam alto o suficiente ou não se dão ao trabalho de soletrarem seus nomes pouco usuais. Mas tudo bem, hoje acordei me sentindo estranhamente disposto e descansado.

- QUE ÓTIMO OUVIR ISSO! Esse é o espírito. Ah, antes que eu esqueça, a Laura passou aqui um pouco mais cedo, pediu pra que você a procurasse, queria conversar antes do lançamento.

- É isso.

- O que, rapaz?

- Tava tudo calmo demais. EU tava calmo demais. Bom, vou acabar logo com isso. Ou comigo. Até daqui há pouco, seu Hélio.

- Não entendi, mas até!

Uma pessoa da organização lhe disse que Laura estava na entrada do pavilhão, acompanhando o trabalho dos fotógrafos que registravam a chegada dos visitantes. Atravessou os corredores que começavam a encher de pessoas rumo ao portão principal. Não foi difícil enxergá-la de longe, sempre vestida com roupas coloridas, de tons alegres e vibrantes, exatamente como ela mesma. Sua garganta secou e sentiu um embrulho leve no estômago, tenso com o que viria.

- Oi. Achei que você tava cuidando só da curadoria, não do marketing da feira.

- Ah, e aí. Não, isso aqui é só passatempo, mesmo. Só vou ter coisas pra fazer depois das 13h, até lá resolvi dar uma checada em como as coisas estão aqui na frente. Acho que a ansiedade de que não viesse ninguém falou mais alto.

- É, faz sentido. Bom, pelo menos ao que parece isso não é uma coisa com a qual você vai ter que se preocupar. Lá dentro já tem bastante gente, também.

- Pois é. Espero que nos próximos dias continue desse jeito”.

- Eu também. Enfim, seu Hélio me disse que você queria falar comigo.

- É. Vamos lá na minha sala, preciso te entregar uma coisa.

Seguiram juntos até o setor de pequenos escritórios temporários montados pra acolher as pessoas que trabalhavam na organização. Entraram na sala que havia sido reservada pra Laura, um cubículo mal iluminado com uma escrivaninha, uma cadeira e um pequeno armário, de onde ela tirou um envelope inchado de papel pardo.

- Trouxe isso pra você.

- E isso é…?

- Um livro. E uma carta, também. Mas por favor, só abre quando voltar pra sua casa.

- Como assim? Que livro é esse?

- Um livro sobre o qual eu te falei, uma vez. Meu livro preferido. Nunca disse qual era, e não queria que você fosse embora de novo antes que eu pudesse te entregar ele.

- E por que isso, agora?

- Fiquei pensando nas coisas que você me falou, da última vez que veio pra cá. Do lado de fora do hotel. Sempre quis que você lesse esse livro, acho que pode te ajudar a encontrar uma perspectiva diferente sobre tudo que ocorreu, sei lá.

- Olha, não me leva à mal, mas não sei se eu quero levar.

- Cara, tô te dando um presente, você não pode só aceitar? Impressionante, é sempre a mesma coisa.

- Laura, eu e você passamos os últimos anos sem sequer saber o que tava acontecendo na vida um do outro. Não quero entrar de novo na mesma discussão que rolou no dia do almoço, achei que a gente tinha colocado um ponto final nessa história toda.

- Eu também não quero voltar nisso de novo, por isso tô te pedindo, só leva o livro. E fica tranquilo, depois que você for embora nunca mais vai ouvir de mim.

- Então pra quê o livro e a carta?

- Você vai entender.

- Tá, tudo bem, eu levo. Obrigado, eu acho… E agora?

- Agora a gente lança seu livro.

Existe um certo consenso do que é um evento positivo e de como isso impacta a vida de uma pessoa. Sob certa perspectiva, o lançamento foi ótimo. Deu muitos autógrafos, vendeu todos os livros que a editora disponibilizou pro primeiro dia, conheceu outros escritores, inclusive alguns que eram referências pra ele. Mas, claro, não conseguia parar de pensar na conversa que teve mais cedo. Dona Héstia apareceu num momento mais tranquilo, comprou 3 livros e levou pra que ele autografasse.

- Impressionante, a mesma cara.

- Como assim, dona Héstia?

- Essa sua cara. Exatamente a mesma de quando eu te vi pela primeira vez. Um misto curioso de felicidade e tristeza.

- É, foi um dia estranho. Mas acho que tudo bem, a maioria dos meus dias têm sido estranhos, desde que o seu Hélio me ligou a primeira vez pra dizer que tinha gostado do manuscrito.

- Talvez a alegria dele seja um curioso disfarce pra um poder secreto, em que sempre que dá uma notícia boa, a vida da pessoa começa a correr meio fora do trilho.

- Olha só a senhora, me dando mais uma ideia de história. Acho que vou começar a te pagar uma porcentagem dos meus ganhos.

- Mais uma? E qual foi a primeira?

- Aquela brincadeira de o seu recepcionista ser meu inimigo. Resolvi escrever uma história sobre isso.

- Se ela ficar boa e render um livro, eu abro mão dos meus royalties. Já tenho dinheiro o suficiente pra viver sabe-se lá quanto tempo mais. Bom, vou parar de tomar seu tempo. Não esquece de passar pra se despedir de mim, antes de ir embora.

- Não se preocupe, não seria capaz de ir embora sem dar um abraço na minha melhor amiga nessa cidade horrorosa.

Chegou exausto no hotel. Não viu mais Laura ou seu Hélio, antes de ir embora, e preferiu pensar que era melhor assim. Deixou alguns presentes e bugigangas que ganhou na feira no quarto, repetiu a dose de pizza e Marselan da noite anterior e dormiu quase instantaneamente quando finalmente deitou.

Um mês depois ainda recebia mensagens, cartas e e-mails o parabenizando pelo livro, pessoas conhecidas e desconhecidas exaltando a qualidade de sua nova história. Fora isso, sua rotina voltara a ser basicamente a mesma de antes. Cafés longos e despretensiosos pela manhã, livros, joguinhos e seu novo gosto adquirido, caminhadas pelo centro, sempre entrando nas lojas, cafés e afins pra conversar com as pessoas que praticamente ignorara por anos.

Os encontros com seu Hélio e dona Héstia, que inclusive saiu de sua fortaleza hoteleira pela primeira vez em muitos anos para visitá-lo, mudaram algo dentro dele. Se sentia menos reativo, mais tolerante às pessoas, com vontade de conversar e ouvir histórias. Uma coisa, contudo, ainda o incomodava, o envelope entregue por Laura. Não tinha feito as pazes com a ideia de revelar seu conteúdo, com medo de que o que estivesse escrito naquela carta ou o que lesse no livro poderia ser muito pior que a sensação de mantê-lo como estava.

Num dia de inverno intenso, com a casa cercada de neblina, a lareira acesa e um litro de café recém-coado, decidiu que era hora de encarar seus demônios. Demônios estes, no caso, que ele mesmo criara, considerando que poderia ter resolvido facilmente a questão meses antes. Pegou o envelope de cima da escrivaninha onde ficava o computador, no exato mesmo local onde o pusera quando retornou de São Paulo, e o fitou por alguns minutos. O abriu lentamente, num misto de tentativa de não o rasgar e adiar ao máximo o desfecho daquele movimento e removeu seu conteúdo como quem desarma uma bomba. Pra sua surpresa, de fato eram só um livro e um pedaço de papel.

Desdobrou a carta escrita à mão numa folha de caderno Moleskine, e achou curiosa a primeira frase, “Oi. Antes de mais nada, peço que por favor não compartilhe o que escrevi aqui com mais ninguém. O conteúdo, os sentimentos e a história pertencem unicamente a nós dois”. Assim o fez, permitindo à carta irrestrita confidencialidade. Ao fim da leitura, com algumas lágrimas penduradas nos fios de sua barba e a sensação de que algo tentava irromper de sua garganta, se deu conta de que livro acompanhava aquele papel rabiscado com caligrafia impecável. Uma cópia surrada e com as páginas ligeiramente amareladas nas bordas da primeira edição de seu primeiro livro, lançado mais de 10 anos antes. Laura o comprara dias depois do lançamento, na mesma livraria onde ocorreu o evento. Se deu conta, então, do que ela queria dizer ao insistir que entenderia quando abrisse o envelope.

Sua primeira aproximação, ainda que o fato de terem se encontrado na academia tenha acontecido totalmente por acaso, não foi coincidência. De certa forma já o conhecia, mesmo que não planejasse se apaixonar por ele. Pensou por muitas vezes em dizer que talvez não tivesse iniciado aquela conversa se não soubesse que ele era o autor de seu livro preferido e o quanto a tinha ajudado a seguir seus estudos e retomar seu gosto pela leitura, especialmente quando a vida na cidade começou a afetar seu ânimo, sua rotina e suas histórias. Quando lhe disse que não queria mudar pra Gonçalves, convivia com a mistura cruel de sentimentos entre continuarem juntos, seguir a própria vida e a culpa - ainda que não tivesse culpa nenhuma - de não ter feito mais pra que ele sentisse que ali, junto dela, mesmo numa cidade em que se sentia um estrangeiro, poderia ser seu lar.

Ele se levantou, guardou livro, carta e envelope numa gaveta da escrivaninha e voltou pro sofá com mais um pouco de café na caneca. Se sentiu um idiota completo, um canalha egoísta e autocentrado. Nem a psicóloga, dias depois, soube exatamente o que dizer pra ele. Passou tanto tempo afundado na própria frustração que ignorou o fato de que a melhor coisa da sua vida estava ali, ao lado dele, o tempo todo. Precisou de mais algumas semanas pra digerir, ainda que porcamente, aquela sensação. Manteve suas caminhadas quase diárias e não deixou de se encontrar com seus conhecidos da cidade, mas o cigarro voltou a lhe fazer companhia nos momentos em que estava sozinho, que eram a maioria.

Dona Héstia voltou a lhe visitar, dessa vez por uma semana inteira. A levou pra caminhar pelo centro, cozinharam juntos e assistiram filmes clássicos. No penúltimo dia, resolveram jantar fora. Ela insistiu que fossem em um restaurante específico, que uma amiga de São Paulo que costumava passar férias na região recomendou. Era um restaurante relativamente novo, do qual já ouvira falar, mas especialmente por conta de toda a loucura dos últimos tempos ainda não tinha ido conhecer. Era uma noite de inverno rigoroso como a em que leu a carta de Laura. Pensou sobre isso no caminho, fazendo um esforço honesto pra não deixar que dona Héstia percebesse sua inquietação. Feliz ou infelizmente pra ele, sua amiga tinha vivido por tempo o bastante pra aprender a ler a linguagem mais natural de todas, a do corpo.

- Tem alguma coisa te incomodando, né? Prometo que eu realmente vou embora amanhã.

- Não, dona Héstia, muito pelo contrário, sua presença aqui me fez um bem danado. Não costumo receber visitas, e esses dias que a senhora esteve aqui fizeram minha casa parecer um lar pela primeira em muito tempo.

- É, eu sei que a minha presença ilumina qualquer ambiente, não precisa ficar me recordando disso. Mas já que não é a velha dormindo no seu quarto de hóspedes, o que te aflige?

- A Laura. Bom, a carta que ela me deu. Tenho pensado muito nisso, em como as coisas poderiam ter sido, no que eu deixei pra trás, no que eu enterrei dentro de mim pra lidar com essa situação toda. Não pensar em algumas questões desse assunto por anos talvez tenha sido a pior escolha. Apesar dos pesares, não me arrependo de ter vindo pra cá, só acho que talvez pudesse ter feito as coisas de outra forma, não deixado minha casa virar um símbolo da minha solidão ao invés de um lugar pra acolher as pessoas que eu amo. No fim das contas acho que eu e a casa viramos uma coisa só, distantes de tudo.

- O que passou, passou, rapaz, você não devia se martirizar tanto sobre isso. O mais importante é decidir o que você vai fazer com esses sentimentos. Não perca tempo ruminando essas coisas dentro de você, a melhor forma de lidar com isso é convertendo as emoções em ação. Acredite em mim, já passei por momentos semelhantes. Inclusive, acho muito pertinente que você tenha se aberto sobre isso comigo, porque tenho uma notícia pra te dar.

- Ah, é? Que notícia?

- Não seremos só nós dois nesse jantar.

- Como assim?

- Sem mais perguntas, já estamos chegando, eu acredito.

E estavam. Não dirigiu por mais de 150 metros e pararam em frente ao restaurante. 150 longos metros em que seu cérebro ansioso criou milhares de cenários incompreensíveis sobre o que dona Héstia poderia ter planejado sem que ele soubesse. Ao descerem do carro, pediu que ela entrasse na frente, suas entranhas se contorciam e ele precisava de um cigarro pra cortar o maldito processo químico que tentava mais uma vez fundir suas tripas em um único conglomerado fisiológico. Cinco minutos de fumaça e vento frio o acalmaram, ignorou os cenários apocalípticos que o haviam acometido e abriu a porta. Qual não foi sua surpresa, dona Héstia estava sentada à mesa com seu Hélio.

- Isso é algum tipo de pegadinha? Ou hoje é meu aniversário e eu esqueci completamente dele.

- NADA DISSO, MEU GAROTO! Eu e minha amiga aqui estivemos conversando muito sobre você, recentemente. Dá pra ver que alguma coisa está fora do lugar, apesar de parecer melhor do que nunca.

- Exatamente, então decidimos fazer alguma coisa pra te ajudar, já que não poderíamos abandonar nosso jovem amigo à própria sorte na Serra da Mantiqueira.

- Bom, isso sem dúvida tá me fazendo muito bem. E não querendo fazer pouco da iniciativa dos dois, mas vocês têm me feito visitas e conversado comigo com alguma frequência, o que exatamente tem de diferente, hoje?

- Isso é você quem vai decidir. A gente sabe que você ama viver no interior, mas eu quero te dar uma presente pra quando quiser mudar um pouco de ares.

Dona Héstia tirou um envelope da bolsa e entregou a ele. Rompeu o lacre de cera, uma coisa que nunca achou que faria, tirou o papel que havia dentro e leu.

- Posse definitiva da suíte presidencial? Isso é uma brincadeira?

- Não rapaz, muito pelo contrário. Minha saúde já anda frágil há algum tempo, sabe Deus quanto tempo mais vou ficar viva. Não tenho filhos ou quaisquer descendentes pra quem deixar minhas posses, então resolvi escolher eu mesma quem ficaria com tudo. Deixei uma suíte pra você e uma pro Hélio, naturalmente sem nenhum custo tanto pra usá-las quanto pra quaisquer coisas consumidas nas dependências do hotel pro resto de suas vidas, e meus outros bens serão todos liquidados e o dinheiro distribuído igualmente pros funcionários do hotel, que também vão escolher quem vai gerenciar tudo. Ah, a sua suíte é a que contém a minha biblioteca.

- Eu… nem sei o que dizer. Dona Héstia, não posso aceitar, isso é loucura.

- Claro que pode! Inclusive, não é como se você tivesse escolha, isso já foi acertado com o setor jurídico do hotel, a suíte já é sua.

Naquela noite, depois de duas garrafas de vinho pros seus amigos, três tônicas pra ele e duas travessas enormes de cortes variados de porco assados à perfeição, se despediram de seu Hélio, que estava hospedado à alguns metros de distância do restaurante e retornaram pra sua casa. Na manhã seguinte, levou a amiga até o centro, onde o editor os aguardava já com as malas no carro.

- Garoto, espero que agora que tem um lugar fixo pra ficar não demore tanto tempo pra nos visitar.

- Fica tranquilo, seu Hélio, prometo que apareço por lá, especialmente agora que eu tenho motivos pra ir. E claro, não esqueçam que minha casa está sempre aberta pra vocês.

Abraçou os dois demoradamente, ajudou dona Héstia a entrar no carro e se despediu, sentindo uma felicidade profunda e genuína, como há muito não sentia. Voltou pra casa pleno, certo de que as coisas dali pra frente seriam mais amenas. E assim foram.

Três anos depois, entre idas e vindas de São Paulo, uma turnê nacional de lançamento do livro, mais algumas viagens internacionais com o mesmo propósito e um novo livro quase pronto, recebeu uma notícia pra qual não estava preparado, o falecimento de dona Héstia. O velório ocorreu no auditório do hotel, que foi tomado por uma atmosfera de consternação e melancolia enquanto precisava continuar acolhendo e servindo gente que não fazia ideia que ali ocorria a despedida à alma daquele lugar.

Passou o tempo todo junto a seu Hélio e sua esposa, sem saber como digerir aquele momento. Seus últimos anos tinham sido melhores em grande medida por causa da presença da curiosa senhora em sua rotina, fosse em sua fisicamente ou não. Pensou por um momento que talvez não conseguisse mais ficar no hotel, mas logo se recriminou, ouvindo a voz da amiga lhe dizendo que era uma besteira se privar do que fosse por causa de alguém que nem estaria lá pra encher o saco dele. O pensamento lhe causou um riso ligeiro, mas revigorante, um oásis no meio daquele deserto. Pediu licença aos dois e subiu pro seu quarto.

Precisava se distanciar um pouco antes do cortejo até o cemitério em que dona Héstia seria enterrada. Tomou um banho, um analgésico pra leve dor de cabeça que o acompanhava desde que chegou em São Paulo e uma Coca-Cola só porque não tinha como aquele dia ficar pior. Retornou ao átrio do hotel no exato momento em que conduziam o caixão até o carro funerário. Na chegada fez questão de ajudar a carregar a caixa fúnebre feita de madeira nobre e adornos dourados pelas galerias arborizadas e estranhamente pacíficas do Cemitério Morumby. O enterro foi acompanhado por um silêncio solene de todos os presentes, talvez porque nenhum deles soubesse ao certo as palavras certas pra se despedir de alguém tão cheia de vida.

- Rapaz, já estamos indo embora, quer uma carona de volta ao hotel?

- Não, seu Hélio, fica tranquilo, acho que preciso ficar com ela mais um pouco, depois eu pego um táxi.

- Tudo bem. Se precisar de qualquer coisa não hesite em me ligar, certo?

- Pode deixar. E muito obrigado. Por tudo.

- É sempre um prazer, meu jovem.

Observou por alguns segundos seu Hélio se afastar de braços dados com a esposa. Se sentou na grama em frente ao jazigo, agora completamente sozinho. Tirou do bolso interno do blazer o maço de cigarros, o isqueiro e um calhamaço de folhas dobradas, os primeiros capítulos do livro que estava escrevendo. Ainda não havia mostrado o material pra ninguém, nem pro próprio editor-amigo. Queria ter mostrado pra dona Héstia pessoalmente, mas infelizmente o tempo nem sempre acomoda nossas vontades.

Quando terminava de desdobrar os papéis, com um cigarro já aceso pendurado no canto da boca, sentiu um toque gentil no ombro direito, acreditando que talvez um segurança fosse lhe pedir que não fumasse nas dependências do cemitério, ainda que não houvesse mais ninguém ali pra ser intoxicado pelo método ultra lento de suicídio que escolhera pra si, ou talvez a alma de dona Héstia tivesse retornado pra lhe poupar da cena clichê do escritor atormentado que lê pros mortos, mas não poderia estar mais errado.

Laura sentou do seu lado com uma garrafa de vinho, tirou um saca-rolha e dois copos plásticos da bolsa e os serviu, completamente em silêncio.

- Não sabia que você conhecia a dona Héstia.

- Não conhecia. Mas eu te conheço, e conheço seu Hélio. Ele que me ligou, na verdade. Não sabia que vocês tinham ficado tão próximos.

- Nem eu, pra falar a verdade. Só me dei conta quando os dois começaram a aparecer juntos vez ou outra, na minha casa. Quando vi ele tava indo pra passar alguns fins de semana com a esposa, lá. Foi bom. Ou melhor, é bom. Tenho alguns amigos em Gonçalves, mas esses três viraram minha família.

- Que bom. Fico feliz que tenha encontrado seu lugar.

- Valeu. E eu fico feliz que você esteja aqui. Aliás, trouxe o começo do livro novo pra ler pra dona Héstia. Quer ouvir?

- E como eu poderia recusar? Apesar dos pesares, você ainda é meu escritor preferido.

 


domingo, 22 de fevereiro de 2026

Mensário da Incerteza

 


Essa não é uma crônica normal. Não que em qualquer outro momento eu tenha me desgastado de qualquer forma que seja buscando atingir alguma suposta normalidade, até porque se existe algo em que eu acredito é que normalidade é um dos conceitos mais abstratos, maleáveis e corruptíveis que a mente humana ousou arquitetar. Essa crônica é uma mistura de diário – ou melhor, mensário - com desabafo, duas coisas que de certa forma se cruzam.

Os últimos seis meses foram um maremoto. Não se preocupem, não vou fazer alguma analogia furada de livro de autoajuda que vende no Graal, dizendo que às vezes é preciso um tsunami destruir o que está posto pra que a gente possa se reconstruir. Deixo esse tipo de palhaçada pra quem leva o LinkedIn a sério. Não. Eu vim aqui pra normalizar a tristeza, falar dela, jogar um balde de água fria na positividade deletéria de quem usa isso pra mascarar o lamaçal onde as pernas estão enfiadas. Aí sim, depois disso, eu falo um pouquinho de coisas mais amenas.

Aqui vão breves relatos sobre o que se sucedeu nos últimos meses, e tal qual na minha vida, esse texto é um maremoto varrendo boa parte do que está contido na minha última crônica, e que, curiosamente, postei poucos dias antes de tudo ir pras cucuias, como dizem os jovens. Enfim, prossigamos. Como sempre, faço questão de deixar bem claro que não há aqui nenhuma tentativa de chegar a conclusões, muito menos explicar alguma coisa, por vezes me dando ao luxo de ser misterioso e enigmático. Uma pessoa adulta deveria ser capaz de lidar com a aleatoriedade da existência.

Uma parte do texto foi escrito um bom tempo atrás, enquanto a outra é tão recente quanto essa - mais uma vez - desnecessariamente longa introdução, mas se você chegou até aqui acompanhando minha escrita, já deve ter se acostumado. Vamos ao que interessa.

Novembro de 2025.

Há semanas eu não sei o que escrever. Sinceramente, sequer sei o que pensar. Como refletir sobre qualquer coisa quando todas as coisas perdem o brilho? Pensando nisso, resolvi pensar sobre o que pensar quando não se consegue pensar em nada. Não porque não se quer pensar em nada, mas porque um vazio toma conta de você. De mim, no caso.

A sensação de falha foi inevitável. Sei que fiz o meu melhor, mas é impossível não sentir que fui declarado inapto, incapaz, substituível, irrelevante. Nem sei direito o que pensar sobre tudo que aconteceu, tenho dificuldade em enxergar qualquer coisa boa dessa experiência e por diversas vezes me peguei pensando que talvez devesse ter escutado o André de dezenove anos, que não queria pisar nunca mais naquele lugar e esquecer desse delírio gastronômico. Não sabe do que eu tô falando? Tudo bem, pensa que é só uma reflexão abstrata sobre falha, quebra de expectativas e se sentir perdido.

Voltar pra casa não foi um fardo. Sou grato por ter uma família que me acolhe incondicionalmente, especialmente porque sei que é complexo. Como já vi padre Júlio Lancelotti dizer mais de uma vez, amar o próximo no seu pior não é fácil, mas é quando ele mais precisa. Cada peça de roupa colocada na mala, cada utensílio de cozinha acomodado em uma caixa, cada mínimo objeto retirado dos armários foi como um pedacinho arrancado de mil planos feitos pro futuro.

O que sobrou disso tudo foi ansiedade, insônia e desinteresse. De mim, não muita coisa. Mas sigo. Não é a primeira vez e acho pouco provável que seja a última. Me apego ao conselho que sempre dou a quem me pede: um dia de cada vez. As coisas, por mais estranhas, confusas e insuportáveis que pareçam, acabam se ajeitando. Volto quando tiver forças.

Fevereiro de 2026.

O ser humano, há milênios, padece do mal irremediável de tentar encontrar explicação lógica pra tudo, quando a realidade repetidamente joga na nossa cara a verdade universal de que quase nada faz sentido. Não me eximo de culpa nesse cartório, é normal querer que as coisas estejam bem claras e convenientemente organizadas pra que possamos olhar pra elas e dizer logo “ah, então é isso”. Esse foi meu último mês e meio, desde que comecei a cuidar da cachola pra lidar com a fossa generalizada em que me encontrava, buscar sentido pro que me trouxe até o presente momento.

Voltar foi conturbado porque tudo que aconteceu carregava anos de expectativas, tentativas frustradas e idas e vindas com esses planos, lidando ainda com os reflexos do que havia deixado pra trás quando voltei pra montanha. É a vida, afinal, vez ou outra as coisas ficam quase exatamente onde foram deixadas. Fato é que, agora que consigo novamente concatenar meia dúzia de ideias, sair de casa e lidar com a vida, entre mortos e feridos, salvaram-se todos.

Óbvio que nada é 100%. Os efeitos de 2025 ainda estão aqui, e é provável que ainda perdurem mais um pouco. Reencontrar alguma ordem depois do caos não acontece de um dia pro outro, e talvez a tarefa mais difícil não seja reordenar as coisas, mas entender o que fazer depois disso. Sei das possibilidades e sei que estou no lugar certo pra me cuidar e descobrir o quem vem a seguir, ainda que vez ou outra a frustração e as inseguranças ressoem.

Dito isso, nos últimos dias fiz em termos as pazes com a coisa de quase nada fazer muito sentido. Já falei sobre isso anteriormente e não pretendo digredir em alguma reflexão supostamente complexa sobre a questão. O ponto é bem mais simples: as coisas aconteceram. Fim. Foi chato, doeu - e ainda dói - mas aos trancos e barrancos a vida seguiu e seguirá.

No dia em que escrevo isso vi um texto reflexivo sobre um documentário do Werner Herzog que usava o termo “indiferença do Universo”. Discordo plenamente de qualquer que seja o sentido pretendido dessa análise mequetrefe, porque o Universo não é indiferente, isso é uma qualidade - no sentido de característica, não virtude - dessa coisinha frágil e autocentrada chamada ser humano, que insiste em querer projetar a si mesma e seus vícios e virtudes em tudo. O Universo não é indiferente, ele é. Ponto. Infinitamente grande, infinitamente existente, e no fim do dia, ainda que por vezes nos pareça intragavelmente longa a existência, ela sequer chega perto de fazer cócegas na fofa, macia e arredondada barriga da EXISTÊNCIA, essa coisa massiva que simplesmente é para todo o sempre e para todo o sempre será, independente do que a gente possa balbuciar aos céus numa noite estrelada de verão, inconformados com algum estranho desígnio da vida.

O mais curioso é que não acho que cheguei nessa conclusão. Óbvio que, sob a perspectiva concreta de ser capaz de ordenar essas palavras todas e comunicar essa ideia, sim. Eu digo no interior. Uma coisinha chata e perniciosa continua lutando dentro de mim contra a aceitação desse fato, de que a vida vai seguir e em algum momento as coisas vão ficar minimamente como eu gostaria que elas ficassem. Nosso âmago reluta em aceitar a falta de controle e que isso não é necessariamente ruim, independente da nossa capacidade de concretamente entender isso. Sempre fica algo ressonando na nossa cabeça, quase como um quadro permanentemente torto na parede, que você ajusta e, assim que vira as costas, entorta de novo. O quadro, porém, torto ou alinhado, continua exatamente o mesmo.

Sigo apegado no meu próprio conselho de “um dia de cada”. Acabou o Carnaval e consta que agora começa oficialmente o ano no Brasil. Não sou e acho pouco provável que algum dia eu seja um folião de qualquer espécie, mas muito me agrada esse zeitgeist que toma conta da nossa terra todo começo de ano. A vida já está em movimento, tudo segue acontecendo normalmente, mas a sensação de que agora sim, depois da festa, é que as coisas começam de verdade, também acontece aqui dentro. Não sei o que vem por aí, mas pela primeira vez em muito tempo não me sinto completamente massacrado pela correnteza, e começo 2026 com pelo menos a sensação de que ficou mais fácil juntar os caquinhos do que quebrou no ano passado.

P.S.: prometo também não demorar mais tanto tempo pra publicar o próximo texto (eu acho).

Até a próxima.

 


terça-feira, 18 de novembro de 2025

Dois Queijeiros

 


O concurso seria em seis meses. Eu já sabia disso há pelo menos um ano, mas como a inconstância é a alma do artista, obviamente deixei pra pensar nisso na última hora. O problema é que ser produtor de queijos, ainda que seja um trabalho artístico, também exige muito mais comprometimento, estrutura e planejamento que pintar a porra dum quadro, né? Não desmerecendo os pintores, mas me perdoem, eu tenho muito mais trabalho.

A competição das últimas edições do Festival do Queijo Artesanal do Sul de Minas foi violenta. O Sérgio, meu vizinho, queijeiro há uns 30 anos, saiu na mão com um produtor paulista que disse que o queijo dele não prestava pra comer com azeite de qualidade, porque tinha gosto de "reboco velho". Como o paulista sabia qual era o gosto de reboco velho, nunca saberemos, mas pelo sorriso acidentado dele, era de se imaginar. Loucura.

Ainda que tivesse dado menos importância do que deveria pra velocidade com que o tempo corre, pelo menos eu já tinha tudo meio planejado. Ia fazer um queijo de pouca cura, revestido com uma camada fina de cera de abelha jataí pra curar tranquilo, ficar com a massa macia e o sabor delicado, ligeiramente adocicado, com pouca acidez e um fundo amanteigado, meio de nozes, coisa fina. A receita tinha sido desenvolvida pela minha avó, segredo de Estado, só circulava na nossa família, mas ela nunca conseguiu chegar no resultado exato que pretendia. Eu ia mudar essa história e ganhar o concurso.

Era uma terça-feira. Ordenhei as vacas e fui pra queijaria. A noite não tinha sido exatamente de sono tranquilo. Acordei 3 ou 4 vezes depois de sonhar que ouvia alguém me chamar. Talvez fosse um prelúdio, talvez só minha imaginação. Não importa. Tinha que recuperar o tempo perdido e testar a receita o máximo de vezes possível. Ouvi uma batida na porta. Ótimo, mais distrações, tudo que eu precisava.

"Fala, jovem! Tudo bom?"

"Mais ou menos, Sérgio, mas sabe como é, o Universo não tá nem aí pro meu estado mental, então seguimos. Diz aí, que que manda?".

"Esse ano não vou participar do concurso, então vim ver se de repente cê não precisa de uma ajuda".

"Uai, como não vai participar? Achei que cê queria dar o troco no paulista".

"Pois é, até pensei, mas descobri uma coisa".

"Como assim, uma coisa? Que coisa"?

"O paulista tá envolvido com um grupo aí, não sei bem o que que é, mas é gente da pesada. Eles levam o negócio de queijo a sério".

"Mas a gente também leva, é nossa profissão".

"Não, não, você não tá entendendo. Eles levam isso A SÉRIO".

"E eu devia saber o que cê quer dizer com isso"?

"Olha, tudo certo, isso não importa, agora. Cê vai querer ajuda ou não"?

"Cê falando desse jeito, parece que eu vou TER QUE QUERER ajuda, né"?

"Seria prudente".

"Tá certo, então. Quer uma dosinha"?

"São 8h da manhã".

"Pois é, Sérgio, mas como eu falei, a noite foi mais ou menos".

Três meses correram razoavelmente tranquilos. Tinha alguma coisa meio esquisita no ar, como se alguém muito sorrateiro passasse os dias vigiando nosso trabalho, mas acho que não passava do sentimento de ameaça natural que alguém com concorrência tem. A ajuda do Sérgio foi uma mão na roda, consegui quase quadruplicar o volume de testes do queijo da minha vó sem deixar de produzir os outros. Finalmente tinha chego num resultado agradável, mas achava que ainda faltava alguma coisa.

Seis peças, o resultado final de cinco meses de trabalho, refinariam até o concurso, e aí sim teria chego no queijo perfeito, o ápice dos laticínios. Ouvindo de fora talvez soe uma alegria meio boba, ficar tão feliz assim por causa de queijo, mas eu garanto, não tem nada mais satisfatório que o resultado primoroso de um produto tão suscetível ao ambiente. Ser mineiro é bom demais.

Batemos o martelo e resolvi que era hora de descansar um pouco. Cinco meses de imersão deixam qualquer um meio desconectado da realidade. Nem lembrava a última vez que tinha dormido uma noite inteira ou aparado a barba, essas coisas corriqueiras que fazem a gente se manter em contato consigo mesmos. Sérgio comentou algumas vezes que tinha visto uma caminhonete rondando nossa região, sempre pelos mesmos horários, como se tentasse monitorar a atividade da redondeza. Sinceramente não dei muita importância, achei que ele já tava alucinando por conta do tempo de exposição aos fungos da queijaria, ou que fosse só aquela perturbação natural que eu falei antes. Ledo engano.

Tirei uma folguinha e fui na cidade comprar comida, bebida e essas coisas que gente normal consome. Fazia um tempo que eu tava precisando me sentir normal de novo, fora que precisava me alimentar de coisas que não fossem feitas de leite, também. E bom, não ia matar minhas vacas. Fiz as compras, encontrei amigos, tomei café. Que coisa linda, se sentir liberto novamente.

Voltando pro sítio, botei reparo que a estrada parecia meio mexida, como se alguém tivesse dirigido muito rápido por lá. Ela só levava pra minha casa e a do Sérgio, e ele não tinha carro. Na verdade, depende. Pelo menos eu não considero aquele Chevette velho um carro. Enfim. Acelerei o quanto deu. Chegando em casa, tudo estranhamente normal. A única coisa fora do lugar era uma pedra. Infelizmente era exatamente a pedra que eu deixava em cima da caixa escondida onde ficava a chave reserva da queijaria. Merda. Entrei e vi exatamente o que eu não queria: levaram meus queijos. Não soube como reagir, então achei prudente deitar no chão e olhar pro teto por alguns minutos.

A primeira vez que eu entrei na queijaria tinha 6 anos. Lembro do cheiro pungente invadindo minhas narinas, as senhoras que trabalhavam com a minha avó rindo enquanto transferiam a massa coalhada para os moldes. Depois disso, quis passar cada segundo ali, aprendendo. A velha não era uma pessoa paciente, dá até pra dizer que em algum lugar escondido do seu âmago ela odiava a ideia de ter gente a menos de 10 metros de distância. Menos na queijaria.

Aquele lugar parecia apaziguar minha avó. Diria que o ar lácteo e ligeiramente ácido causava nela o mesmo efeito que incenso causa em millennials (apesar de todo mundo saber que na verdade essa paz é por causa de droga antes do incenso, mesmo. Sem julgamentos). Era ela cruzar a porta e o cenho franzido e os ombros retesados viravam um corpo leve, calmo e concentrado.

Onde quer que fosse, nunca consegui encontrar essa paz. Tem um lado meu constantemente obcecado com um tipo de perfeição não exatamente perfeita, sempre insatisfeito com o resultado das coisas que eu faço. E existe ainda um outro que não consegue parar de pensar em todos os possíveis resultados negativos do que quer me proponha a fazer. Preciso voltar pra terapia. Mas antes, voltemos ao infortúnio do momento presente.

Não havia mais tempo pra produzir peças novas, então fui atrás do Sérgio pra explanar o plano genial que eu tinha bolado.

“Sair por aí perguntando se alguém viu a caminhonete? Esse é o plano?”

“Bom, passei três horas deitado no chão da queijaria lutando contra a ideia de que eu perdi todo o progresso dos últimos cinco meses só porque eu precisava FINGIR por algumas horas que eu ainda sou um ser humano e faço parte da sociedade, Sérgio. Mil perdões se esse plano não parece bom o suficiente pra você.”

“Não foi isso que eu quis dizer. A minha questão é que tá cheio de gente na cidade que com certeza se beneficiaria da gente rodando nessa situação. Se eu e você sairmos por aí perguntando pra qualquer um, provavelmente alguém envolvido nessa palhaçada vai ficar sabendo e aí sim a gente nunca vai encontrar esses queijos.”

“É, vou dar o braço a torcer, isso foi surpreendentemente sensato.”

“Eu sou sensato, jovem, você devia me dar um pouco mais de crédito.”

“Quanto crédito você quiser. Mas diz aí, então, o que fazemos agora?”

“Me dá 10 minutos, vou fazer uma ligação”.

“Seguinte, consegui umas informações”.

“Sou todo ouvidos”.

“Lembra da caminhonete que eu vi circulando aqui na região? Perguntei pra um conhecido que é melhor você não saber quem é se ele tinha reparado em alguma movimentação diferente na cidade e adivinha? Me falou que tem uns caras hospedados naquela pousadinha no fim da estradinha que entra na rodovia estadual”.

“Tá, e isso deveria significar exatamente o quê? Vários caras se hospedam naquela pousada. É uma pousada, é pra isso que ela serve”.

“Bicho, mas cê é lerdo, heim?”.

“Olha, Sérgio, alguns meses respirando mais vapores lácteos do que ar puro PODEM SIM afetar a cabeça de alguém, ao contrário do que dizem por aí. Dá pra ser mais direto?”.

“Eu tava certo, uai! Os caras na pousada são os caras da caminhonete, meu conhecido viu os quatro saindo todos os dias de lá, no mesmo horário, nos últimos dois meses”.

“Quem é esse seu conhecido? E por que ele tem tanto tempo livre pra observar pessoas saindo de pousadinhas na beira de estradas?”.

“Já falei, melhor não saber”.

“Tá, tá, tudo bem, ignoremos o homem misterioso que certamente não deve estar envolvido em falcatruas e retornemos ao tópico. O que exatamente a gente devia fazer com essa informação?”.

“Uai, os queijos são seus, você que decide”.

“A gente pode ir até lá, ficar meio de tocaia, esperar os caras saírem e entrar, perguntar se alguém viu alguma coisa”.

“Outro plano horrível”.

“Ô, cacete, cê que disse pra eu decidir! Dá uma ideia melhor, então”.

“Não tenho”.

“Então vai ser o plano horrível, mesmo. Se quiser ficar aí, fica, mas eu vou lá”.

“Eu vou também. Conheço o dono da pousada, acho que eu desenrolo com ele pra deixar a gente dar uma fuçada no quarto deles”.

“Cê podia ter dito isso no COMEÇO da conversa, né?”.

“Uai, e eu lá ia saber que cê ia querer ir até lá?”.

“Que escolha eu tenho?”.

“Várias. Mas tudo bem, se cê tá decidido, bora”.

“Muito obrigado”.

Esperamos umas duas horas no café do posto que ficava de frente com a pousada. Assim que vimos a caminhonete sair, atravessamos à pé e fomos até a recepção da pousada. Por fora o prédio de 3 andares parecia o cenário de um filme que misturava Mad Max, Fuga de Nova York e Legalmente Loira. Pintura rosa num tom pastel, claramente sem retoque há pelo menos 10 anos, alguns descascados, grades de ferro escuro em todas as janelas e muitas touceiras parcialmente mortas de flores dos mais diversos tipos e cores. O interior, ao contrário, era sóbrio, meio art déco, quase excessivamente limpo e bem cuidado. Vai entender.

“Fala, Gonça! Cê tá bom?”.

“Sérgio, pelo amor de Deus, ninguém mais me chama de Gonça desde que a gente tinha 20 e poucos anos”.

“Uai, é a prova de que a gente tem uma amizade sólida e duradoura”.

“Tem uns 10 anos que a gente mal troca meia dúzia de palavras”.

“Detalhes, Gonça, detalhes”.

“Tá bom, Sérgio. Bem-vindos à pousada Ferrovia, o que desejam?”.

“Então, Gonça, botei reparo que saíram uns rapazes que podem ou não ter a ver com uma investigação que eu e meu amigo aqui estamos fazendo”.

“Investigação? Largou a queijaria?”.

“Não, não, só tô ajudando o jovem. Digamos que talvez seja possível que estes distintos senhores podem estar relacionados ao sequestro de queijos valiosíssimos que a gente produziu pro Festival do Queijo Artesanal. Será que, em nome da nossa amizade, você não compartilharia informações com esses dois árduos trabalhadores que aqui se encontram?”.

“Olha, Sérgio, antes de mais nada, acredito que você seja inteligente o bastante pra saber que eu não posso compartilhar informações sobre os hóspedes. Além disso, sendo bem sincero, não sei se esses caras são o tipo com quem você quer mexer. Não posso afirmar nada, mas eu não mexeria”.

Já não aguentava mais ficar ali. Além da clara falta de objetividade ou eficiência do Sérgio, o tal do Gonça também não me parecia muito propenso a ajudar, então resolvi entrar na jogada.

“Amigo, cê me desculpa, mas é o seguinte. Eu tô há meses trabalhando nesses queijos com a ajuda do Sérgio, o concurso vai acontecer em algumas semanas e eu PRECISO achar essas merdas. Tô cansado, estressado e sem cabeça pra esse joguinho esquisito de mais-ou-menos-amigos de vocês dois, então é o seguinte: você viu qualquer coisa que possa indicar que aqueles caras possam ter alguma relação com o roubo dos meus queijos?”.

O Gonça claramente não tinha qualquer expectativa de que eu dissesse alguma coisa, ficou alguns segundos olhando pra mim como quem presencia um motoqueiro caindo com a moto parada. Esfregou os olhos, saiu de trás do balcão da recepção e trancou a porta da pousada.

“Seguinte, NÃO FUI EU que te dei a chave do quarto e disse que que ele fica de frente com a escada do segundo andar, muito menos que eles costumam ficar umas 3 horas fora quando saem, o que te ainda te dá um bom tempo pra entrar e olhar lá. Mas, novamente, ainda acho isso um erro”.

“Muito obrigado, Gonça, vou lembrar do seu conselho”.

“Garoto, vai lá. Vou ficar aqui com o Gonça e te mando uma mensagem no celular caso os caras cheguem antes do esperado”.

Subi as escadas, enfiei a chave no trinco e abri a porta. Nada. O quarto era absolutamente impecável, como se ninguém entrasse ali há dias. Senti um baque na nuca e caí no chão apagado.

Acordei uma semana depois no hospital da cidade. O médico que acompanhava minha internação disse que os frentistas me encontraram desacordado no posto, na manhã seguinte à minha ida com o Sérgio na pousada. Minhas lembranças à princípio só chegavam até o momento que subi as escadas em direção ao quarto, levei alguns dias pra atinar que talvez os caras nunca nem tivessem ficado hospedados nele, possivelmente nem no hotel. Por mensagem, o Sérgio me contou que também foi atacado, mas que acordou no dia seguinte, também no hospital, sem maiores complicações e logo recebeu alta. Me visitou por três dias, mas como não havia previsão pra que eu acordasse, resolveu passar uns dias com a mãe na cidade vizinha.

Dois dias depois de receber alta voltei até a pousada pra tentar descobrir o que aconteceu comigo.

“Sinto muito, amigo, mas faz alguns dias que o Armando não aparece no trabalho nem me dá satisfação. Sinceramente eu nem quero saber no que ele se meteu, caso você tenha vindo até aqui pra falar disso”.

“Na verdade, eu QUERO saber no que ele se meteu, porque foi a mesma merda em que me envolveram e que me deixou desacordado uma semana no hospital. Enfim, obrigado por nada”.

“Disponha”.

O sentimento de estranheza havia desaparecido. Certamente não tinha mais ninguém me vigiando, e mesmo que houvesse, não fazia mais diferença. Meu trabalho foi todo pelo ralo e faltavam menos de 3 semanas pro festival, nem perto de ser tempo suficiente pra tentar reproduzir a receita e curar uma peça de queijo que fosse. Resolvi que tava na hora de retomar minha vida normal, produzir meus queijos de sempre, cuidar das vacas como sempre, esquecer desse negócio de festival, de Gonça, esquisitões em caminhonetes roubando queijos alheios, enfim, qualquer coisa que remetesse aos últimos meses.

Num domingo de manhã, mais ou menos um mês depois, acordei cansado depois de uma noite conturbada. Sonhei novamente com alguém me chamando, provavelmente um rebote emocional daquela merda toda, e pareceu sensato levantar logo ao invés de ficar tentando fingir pra mim mesmo que seria possível virar pro lado e voltar a dormir. Passei um café, liguei a TV e sentei no sofá pra assistir Globo Rural. Na matéria especial, ele mesmo, o famigerado Festival do Queijo Artesanal do Sul de Minas. E qual não foi minha surpresa ao ver a entrevista com os vencedores do festival: Gonça e SÉRGIO. Sorridentes, falando pra repórter como foi complexo o desenvolvimento da receita, segurando uma das peças de queijo roubado e o troféu.

Nas semanas anteriores tentei várias vezes entrar em contato com o Sérgio. Liguei, mandei mensagem, e nada. Fui até a casa dele, ver se já tinha voltado, mas a casa parecia vazia, a horta já estava quase toda morta e um outro vizinho disse que havia comprado as vacas dele. Imaginei que depois de tantas décadas ele estivesse cansado, que precisasse de um tempo longe de tudo aquilo, ficar próximo da família, qualquer coisa do gênero. Mas ISSO? Nunca.

Essa imagem veio como uma voadora na minha cara. Meu estômago embrulhou, minha cabeça começou a formigar, o suor não parava de escorrer em meio ao clima ameno do outono. Tentei encontrar algum sentido naquilo, mas nada vinha. Desnorteado, tomei o último gole de café e fiz a única coisa sensata naquele momento: deitei no chão e passei algumas horas olhando pro teto.