Essa não é uma crônica normal. Não que em qualquer outro momento eu tenha me desgastado de qualquer forma que seja buscando atingir alguma suposta normalidade, até porque se existe algo em que eu acredito é que normalidade é um dos conceitos mais abstratos, maleáveis e corruptíveis que a mente humana ousou arquitetar. Essa crônica é uma mistura de diário – ou melhor, mensário - com desabafo, duas coisas que de certa forma se cruzam.
Os últimos seis
meses foram um maremoto. Não se preocupem, não vou fazer alguma analogia furada
de livro de autoajuda que vende no Graal, dizendo que às vezes é preciso um
tsunami destruir o que está posto pra que a gente possa se reconstruir. Deixo
esse tipo de palhaçada pra quem leva o LinkedIn a sério. Não. Eu vim aqui pra
normalizar a tristeza, falar dela, jogar um balde de água fria na positividade
deletéria de quem usa isso pra mascarar o lamaçal onde as pernas estão
enfiadas. Aí sim, depois disso, eu falo um pouquinho de coisas mais amenas.
Aqui vão breves
relatos sobre o que se sucedeu nos últimos meses, e tal qual na minha vida,
esse texto é um maremoto varrendo boa parte do que está contido na minha última
crônica, e que, curiosamente, postei poucos dias antes de tudo ir pras cucuias,
como dizem os jovens. Enfim, prossigamos. Como sempre, faço questão de deixar
bem claro que não há aqui nenhuma tentativa de chegar a conclusões, muito menos
explicar alguma coisa, por vezes me dando ao luxo de ser misterioso e
enigmático. Uma pessoa adulta deveria ser capaz de lidar com a aleatoriedade da
existência.
Uma parte do texto
foi escrito um bom tempo atrás, enquanto a outra é tão recente quanto essa -
mais uma vez - desnecessariamente longa introdução, mas se você chegou até aqui
acompanhando minha escrita, já deve ter se acostumado. Vamos ao que interessa.
Novembro de 2025.
Há semanas eu não
sei o que escrever. Sinceramente, sequer sei o que pensar. Como refletir sobre
qualquer coisa quando todas as coisas perdem o brilho? Pensando nisso, resolvi
pensar sobre o que pensar quando não se consegue pensar em nada. Não porque não
se quer pensar em nada, mas porque um vazio toma conta de você. De mim, no
caso.
A sensação de falha
foi inevitável. Sei que fiz o meu melhor, mas é impossível não sentir que fui
declarado inapto, incapaz, substituível, irrelevante. Nem sei direito o que
pensar sobre tudo que aconteceu, tenho dificuldade em enxergar qualquer coisa
boa dessa experiência e por diversas vezes me peguei pensando que talvez
devesse ter escutado o André de dezenove anos, que não queria pisar nunca mais
naquele lugar e esquecer desse delírio gastronômico. Não sabe do que eu tô
falando? Tudo bem, pensa que é só uma reflexão abstrata sobre falha, quebra de
expectativas e se sentir perdido.
Voltar pra casa não
foi um fardo. Sou grato por ter uma família que me acolhe incondicionalmente,
especialmente porque sei que é complexo. Como já vi padre Júlio Lancelotti
dizer mais de uma vez, amar o próximo no seu pior não é fácil, mas é quando ele
mais precisa. Cada peça de roupa colocada na mala, cada utensílio de cozinha
acomodado em uma caixa, cada mínimo objeto retirado dos armários foi como um
pedacinho arrancado de mil planos feitos pro futuro.
O que sobrou disso
tudo foi ansiedade, insônia e desinteresse. De mim, não muita coisa. Mas sigo.
Não é a primeira vez e acho pouco provável que seja a última. Me apego ao
conselho que sempre dou a quem me pede: um dia de cada vez. As coisas, por mais
estranhas, confusas e insuportáveis que pareçam, acabam se ajeitando. Volto
quando tiver forças.
Fevereiro de 2026.
O ser humano, há
milênios, padece do mal irremediável de tentar encontrar explicação lógica pra
tudo, quando a realidade repetidamente joga na nossa cara a verdade universal
de que quase nada faz sentido. Não me eximo de culpa nesse cartório, é normal
querer que as coisas estejam bem claras e convenientemente organizadas pra que
possamos olhar pra elas e dizer logo “ah, então é isso”. Esse foi meu último
mês e meio, desde que comecei a cuidar da cachola pra lidar com a fossa
generalizada em que me encontrava, buscar sentido pro que me trouxe até o
presente momento.
Voltar foi
conturbado porque tudo que aconteceu carregava anos de expectativas, tentativas
frustradas e idas e vindas com esses planos, lidando ainda com os reflexos do
que havia deixado pra trás quando voltei pra montanha. É a vida, afinal, vez ou
outra as coisas ficam quase exatamente onde foram deixadas. Fato é que, agora
que consigo novamente concatenar meia dúzia de ideias, sair de casa e lidar com
a vida, entre mortos e feridos, salvaram-se todos.
Óbvio que nada é
100%. Os efeitos de 2025 ainda estão aqui, e é provável que ainda perdurem mais
um pouco. Reencontrar alguma ordem depois do caos não acontece de um dia pro
outro, e talvez a tarefa mais difícil não seja reordenar as coisas, mas
entender o que fazer depois disso. Sei das possibilidades e sei que estou no
lugar certo pra me cuidar e descobrir o quem vem a seguir, ainda que vez ou
outra a frustração e as inseguranças ressoem.
Dito isso, nos
últimos dias fiz em termos as pazes com a coisa de quase nada fazer muito
sentido. Já falei sobre isso anteriormente e não pretendo digredir em alguma
reflexão supostamente complexa sobre a questão. O ponto é bem mais simples: as
coisas aconteceram. Fim. Foi chato, doeu - e ainda dói - mas aos trancos e
barrancos a vida seguiu e seguirá.
No dia em que
escrevo isso vi um texto reflexivo sobre um documentário do Werner Herzog que
usava o termo “indiferença do Universo”. Discordo plenamente de qualquer que
seja o sentido pretendido dessa análise mequetrefe, porque o Universo não é
indiferente, isso é uma qualidade - no sentido de característica, não virtude -
dessa coisinha frágil e autocentrada chamada ser humano, que insiste em querer
projetar a si mesma e seus vícios e virtudes em tudo. O Universo não é
indiferente, ele é. Ponto. Infinitamente grande, infinitamente existente, e no
fim do dia, ainda que por vezes nos pareça intragavelmente longa a existência,
ela sequer chega perto de fazer cócegas na fofa, macia e arredondada barriga da
EXISTÊNCIA, essa coisa massiva que simplesmente é para todo o sempre e para
todo o sempre será, independente do que a gente possa balbuciar aos céus numa
noite estrelada de verão, inconformados com algum estranho desígnio da vida.
O mais curioso é que
não acho que cheguei nessa conclusão. Óbvio que, sob a perspectiva concreta de
ser capaz de ordenar essas palavras todas e comunicar essa ideia, sim. Eu digo
no interior. Uma coisinha chata e perniciosa continua lutando dentro de mim
contra a aceitação desse fato, de que a vida vai seguir e em algum momento as
coisas vão ficar minimamente como eu gostaria que elas ficassem. Nosso âmago
reluta em aceitar a falta de controle e que isso não é necessariamente ruim,
independente da nossa capacidade de concretamente entender isso. Sempre fica
algo ressonando na nossa cabeça, quase como um quadro permanentemente torto na
parede, que você ajusta e, assim que vira as costas, entorta de novo. O quadro,
porém, torto ou alinhado, continua exatamente o mesmo.
Sigo apegado no meu
próprio conselho de “um dia de cada”. Acabou o Carnaval e consta que agora
começa oficialmente o ano no Brasil. Não sou e acho pouco provável que algum
dia eu seja um folião de qualquer espécie, mas muito me agrada esse zeitgeist
que toma conta da nossa terra todo começo de ano. A vida já está em movimento,
tudo segue acontecendo normalmente, mas a sensação de que agora sim, depois da
festa, é que as coisas começam de verdade, também acontece aqui dentro. Não sei
o que vem por aí, mas pela primeira vez em muito tempo não me sinto
completamente massacrado pela correnteza, e começo 2026 com pelo menos a
sensação de que ficou mais fácil juntar os caquinhos do que quebrou no ano
passado.
P.S.: prometo também
não demorar mais tanto tempo pra publicar o próximo texto (eu acho).
Até a próxima.
Orgulho de vc e de como consegue projetar nas palavras tanto e todo sentimento...
ResponderExcluirSiga...sigamos...estamos sempre para o que der e vier🥰