terça-feira, 18 de novembro de 2025

Dois Queijeiros

 


O concurso seria em seis meses. Eu já sabia disso há pelo menos um ano, mas como a inconstância é a alma do artista, obviamente deixei pra pensar nisso na última hora. O problema é que ser produtor de queijos, ainda que seja um trabalho artístico, também exige muito mais comprometimento, estrutura e planejamento que pintar a porra dum quadro, né? Não desmerecendo os pintores, mas me perdoem, eu tenho muito mais trabalho.

A competição das últimas edições do Festival do Queijo Artesanal do Sul de Minas foi violenta. O Sérgio, meu vizinho, queijeiro há uns 30 anos, saiu na mão com um produtor paulista que disse que o queijo dele não prestava pra comer com azeite de qualidade, porque tinha gosto de "reboco velho". Como o paulista sabia qual era o gosto de reboco velho, nunca saberemos, mas pelo sorriso acidentado dele, era de se imaginar. Loucura.

Ainda que tivesse dado menos importância do que deveria pra velocidade com que o tempo corre, pelo menos eu já tinha tudo meio planejado. Ia fazer um queijo de pouca cura, revestido com uma camada fina de cera de abelha jataí pra curar tranquilo, ficar com a massa macia e o sabor delicado, ligeiramente adocicado, com pouca acidez e um fundo amanteigado, meio de nozes, coisa fina. A receita tinha sido desenvolvida pela minha avó, segredo de Estado, só circulava na nossa família, mas ela nunca conseguiu chegar no resultado exato que pretendia. Eu ia mudar essa história e ganhar o concurso.

Era uma terça-feira. Ordenhei as vacas e fui pra queijaria. A noite não tinha sido exatamente de sono tranquilo. Acordei 3 ou 4 vezes depois de sonhar que ouvia alguém me chamar. Talvez fosse um prelúdio, talvez só minha imaginação. Não importa. Tinha que recuperar o tempo perdido e testar a receita o máximo de vezes possível. Ouvi uma batida na porta. Ótimo, mais distrações, tudo que eu precisava.

"Fala, jovem! Tudo bom?"

"Mais ou menos, Sérgio, mas sabe como é, o Universo não tá nem aí pro meu estado mental, então seguimos. Diz aí, que que manda?".

"Esse ano não vou participar do concurso, então vim ver se de repente cê não precisa de uma ajuda".

"Uai, como não vai participar? Achei que cê queria dar o troco no paulista".

"Pois é, até pensei, mas descobri uma coisa".

"Como assim, uma coisa? Que coisa"?

"O paulista tá envolvido com um grupo aí, não sei bem o que que é, mas é gente da pesada. Eles levam o negócio de queijo a sério".

"Mas a gente também leva, é nossa profissão".

"Não, não, você não tá entendendo. Eles levam isso A SÉRIO".

"E eu devia saber o que cê quer dizer com isso"?

"Olha, tudo certo, isso não importa, agora. Cê vai querer ajuda ou não"?

"Cê falando desse jeito, parece que eu vou TER QUE QUERER ajuda, né"?

"Seria prudente".

"Tá certo, então. Quer uma dosinha"?

"São 8h da manhã".

"Pois é, Sérgio, mas como eu falei, a noite foi mais ou menos".

Três meses correram razoavelmente tranquilos. Tinha alguma coisa meio esquisita no ar, como se alguém muito sorrateiro passasse os dias vigiando nosso trabalho, mas acho que não passava do sentimento de ameaça natural que alguém com concorrência tem. A ajuda do Sérgio foi uma mão na roda, consegui quase quadruplicar o volume de testes do queijo da minha vó sem deixar de produzir os outros. Finalmente tinha chego num resultado agradável, mas achava que ainda faltava alguma coisa.

Seis peças, o resultado final de cinco meses de trabalho, refinariam até o concurso, e aí sim teria chego no queijo perfeito, o ápice dos laticínios. Ouvindo de fora talvez soe uma alegria meio boba, ficar tão feliz assim por causa de queijo, mas eu garanto, não tem nada mais satisfatório que o resultado primoroso de um produto tão suscetível ao ambiente. Ser mineiro é bom demais.

Batemos o martelo e resolvi que era hora de descansar um pouco. Cinco meses de imersão deixam qualquer um meio desconectado da realidade. Nem lembrava a última vez que tinha dormido uma noite inteira ou aparado a barba, essas coisas corriqueiras que fazem a gente se manter em contato consigo mesmos. Sérgio comentou algumas vezes que tinha visto uma caminhonete rondando nossa região, sempre pelos mesmos horários, como se tentasse monitorar a atividade da redondeza. Sinceramente não dei muita importância, achei que ele já tava alucinando por conta do tempo de exposição aos fungos da queijaria, ou que fosse só aquela perturbação natural que eu falei antes. Ledo engano.

Tirei uma folguinha e fui na cidade comprar comida, bebida e essas coisas que gente normal consome. Fazia um tempo que eu tava precisando me sentir normal de novo, fora que precisava me alimentar de coisas que não fossem feitas de leite, também. E bom, não ia matar minhas vacas. Fiz as compras, encontrei amigos, tomei café. Que coisa linda, se sentir liberto novamente.

Voltando pro sítio, botei reparo que a estrada parecia meio mexida, como se alguém tivesse dirigido muito rápido por lá. Ela só levava pra minha casa e a do Sérgio, e ele não tinha carro. Na verdade, depende. Pelo menos eu não considero aquele Chevette velho um carro. Enfim. Acelerei o quanto deu. Chegando em casa, tudo estranhamente normal. A única coisa fora do lugar era uma pedra. Infelizmente era exatamente a pedra que eu deixava em cima da caixa escondida onde ficava a chave reserva da queijaria. Merda. Entrei e vi exatamente o que eu não queria: levaram meus queijos. Não soube como reagir, então achei prudente deitar no chão e olhar pro teto por alguns minutos.

A primeira vez que eu entrei na queijaria tinha 6 anos. Lembro do cheiro pungente invadindo minhas narinas, as senhoras que trabalhavam com a minha avó rindo enquanto transferiam a massa coalhada para os moldes. Depois disso, quis passar cada segundo ali, aprendendo. A velha não era uma pessoa paciente, dá até pra dizer que em algum lugar escondido do seu âmago ela odiava a ideia de ter gente a menos de 10 metros de distância. Menos na queijaria.

Aquele lugar parecia apaziguar minha avó. Diria que o ar lácteo e ligeiramente ácido causava nela o mesmo efeito que incenso causa em millennials (apesar de todo mundo saber que na verdade essa paz é por causa de droga antes do incenso, mesmo. Sem julgamentos). Era ela cruzar a porta e o cenho franzido e os ombros retesados viravam um corpo leve, calmo e concentrado.

Onde quer que fosse, nunca consegui encontrar essa paz. Tem um lado meu constantemente obcecado com um tipo de perfeição não exatamente perfeita, sempre insatisfeito com o resultado das coisas que eu faço. E existe ainda um outro que não consegue parar de pensar em todos os possíveis resultados negativos do que quer me proponha a fazer. Preciso voltar pra terapia. Mas antes, voltemos ao infortúnio do momento presente.

Não havia mais tempo pra produzir peças novas, então fui atrás do Sérgio pra explanar o plano genial que eu tinha bolado.

“Sair por aí perguntando se alguém viu a caminhonete? Esse é o plano?”

“Bom, passei três horas deitado no chão da queijaria lutando contra a ideia de que eu perdi todo o progresso dos últimos cinco meses só porque eu precisava FINGIR por algumas horas que eu ainda sou um ser humano e faço parte da sociedade, Sérgio. Mil perdões se esse plano não parece bom o suficiente pra você.”

“Não foi isso que eu quis dizer. A minha questão é que tá cheio de gente na cidade que com certeza se beneficiaria da gente rodando nessa situação. Se eu e você sairmos por aí perguntando pra qualquer um, provavelmente alguém envolvido nessa palhaçada vai ficar sabendo e aí sim a gente nunca vai encontrar esses queijos.”

“É, vou dar o braço a torcer, isso foi surpreendentemente sensato.”

“Eu sou sensato, jovem, você devia me dar um pouco mais de crédito.”

“Quanto crédito você quiser. Mas diz aí, então, o que fazemos agora?”

“Me dá 10 minutos, vou fazer uma ligação”.

“Seguinte, consegui umas informações”.

“Sou todo ouvidos”.

“Lembra da caminhonete que eu vi circulando aqui na região? Perguntei pra um conhecido que é melhor você não saber quem é se ele tinha reparado em alguma movimentação diferente na cidade e adivinha? Me falou que tem uns caras hospedados naquela pousadinha no fim da estradinha que entra na rodovia estadual”.

“Tá, e isso deveria significar exatamente o quê? Vários caras se hospedam naquela pousada. É uma pousada, é pra isso que ela serve”.

“Bicho, mas cê é lerdo, heim?”.

“Olha, Sérgio, alguns meses respirando mais vapores lácteos do que ar puro PODEM SIM afetar a cabeça de alguém, ao contrário do que dizem por aí. Dá pra ser mais direto?”.

“Eu tava certo, uai! Os caras na pousada são os caras da caminhonete, meu conhecido viu os quatro saindo todos os dias de lá, no mesmo horário, nos últimos dois meses”.

“Quem é esse seu conhecido? E por que ele tem tanto tempo livre pra observar pessoas saindo de pousadinhas na beira de estradas?”.

“Já falei, melhor não saber”.

“Tá, tá, tudo bem, ignoremos o homem misterioso que certamente não deve estar envolvido em falcatruas e retornemos ao tópico. O que exatamente a gente devia fazer com essa informação?”.

“Uai, os queijos são seus, você que decide”.

“A gente pode ir até lá, ficar meio de tocaia, esperar os caras saírem e entrar, perguntar se alguém viu alguma coisa”.

“Outro plano horrível”.

“Ô, cacete, cê que disse pra eu decidir! Dá uma ideia melhor, então”.

“Não tenho”.

“Então vai ser o plano horrível, mesmo. Se quiser ficar aí, fica, mas eu vou lá”.

“Eu vou também. Conheço o dono da pousada, acho que eu desenrolo com ele pra deixar a gente dar uma fuçada no quarto deles”.

“Cê podia ter dito isso no COMEÇO da conversa, né?”.

“Uai, e eu lá ia saber que cê ia querer ir até lá?”.

“Que escolha eu tenho?”.

“Várias. Mas tudo bem, se cê tá decidido, bora”.

“Muito obrigado”.

Esperamos umas duas horas no café do posto que ficava de frente com a pousada. Assim que vimos a caminhonete sair, atravessamos à pé e fomos até a recepção da pousada. Por fora o prédio de 3 andares parecia o cenário de um filme que misturava Mad Max, Fuga de Nova York e Legalmente Loira. Pintura rosa num tom pastel, claramente sem retoque há pelo menos 10 anos, alguns descascados, grades de ferro escuro em todas as janelas e muitas touceiras parcialmente mortas de flores dos mais diversos tipos e cores. O interior, ao contrário, era sóbrio, meio art déco, quase excessivamente limpo e bem cuidado. Vai entender.

“Fala, Gonça! Cê tá bom?”.

“Sérgio, pelo amor de Deus, ninguém mais me chama de Gonça desde que a gente tinha 20 e poucos anos”.

“Uai, é a prova de que a gente tem uma amizade sólida e duradoura”.

“Tem uns 10 anos que a gente mal troca meia dúzia de palavras”.

“Detalhes, Gonça, detalhes”.

“Tá bom, Sérgio. Bem-vindos à pousada Ferrovia, o que desejam?”.

“Então, Gonça, botei reparo que saíram uns rapazes que podem ou não ter a ver com uma investigação que eu e meu amigo aqui estamos fazendo”.

“Investigação? Largou a queijaria?”.

“Não, não, só tô ajudando o jovem. Digamos que talvez seja possível que estes distintos senhores podem estar relacionados ao sequestro de queijos valiosíssimos que a gente produziu pro Festival do Queijo Artesanal. Será que, em nome da nossa amizade, você não compartilharia informações com esses dois árduos trabalhadores que aqui se encontram?”.

“Olha, Sérgio, antes de mais nada, acredito que você seja inteligente o bastante pra saber que eu não posso compartilhar informações sobre os hóspedes. Além disso, sendo bem sincero, não sei se esses caras são o tipo com quem você quer mexer. Não posso afirmar nada, mas eu não mexeria”.

Já não aguentava mais ficar ali. Além da clara falta de objetividade ou eficiência do Sérgio, o tal do Gonça também não me parecia muito propenso a ajudar, então resolvi entrar na jogada.

“Amigo, cê me desculpa, mas é o seguinte. Eu tô há meses trabalhando nesses queijos com a ajuda do Sérgio, o concurso vai acontecer em algumas semanas e eu PRECISO achar essas merdas. Tô cansado, estressado e sem cabeça pra esse joguinho esquisito de mais-ou-menos-amigos de vocês dois, então é o seguinte: você viu qualquer coisa que possa indicar que aqueles caras possam ter alguma relação com o roubo dos meus queijos?”.

O Gonça claramente não tinha qualquer expectativa de que eu dissesse alguma coisa, ficou alguns segundos olhando pra mim como quem presencia um motoqueiro caindo com a moto parada. Esfregou os olhos, saiu de trás do balcão da recepção e trancou a porta da pousada.

“Seguinte, NÃO FUI EU que te dei a chave do quarto e disse que que ele fica de frente com a escada do segundo andar, muito menos que eles costumam ficar umas 3 horas fora quando saem, o que te ainda te dá um bom tempo pra entrar e olhar lá. Mas, novamente, ainda acho isso um erro”.

“Muito obrigado, Gonça, vou lembrar do seu conselho”.

“Garoto, vai lá. Vou ficar aqui com o Gonça e te mando uma mensagem no celular caso os caras cheguem antes do esperado”.

Subi as escadas, enfiei a chave no trinco e abri a porta. Nada. O quarto era absolutamente impecável, como se ninguém entrasse ali há dias. Senti um baque na nuca e caí no chão apagado.

Acordei uma semana depois no hospital da cidade. O médico que acompanhava minha internação disse que os frentistas me encontraram desacordado no posto, na manhã seguinte à minha ida com o Sérgio na pousada. Minhas lembranças à princípio só chegavam até o momento que subi as escadas em direção ao quarto, levei alguns dias pra atinar que talvez os caras nunca nem tivessem ficado hospedados nele, possivelmente nem no hotel. Por mensagem, o Sérgio me contou que também foi atacado, mas que acordou no dia seguinte, também no hospital, sem maiores complicações e logo recebeu alta. Me visitou por três dias, mas como não havia previsão pra que eu acordasse, resolveu passar uns dias com a mãe na cidade vizinha.

Dois dias depois de receber alta voltei até a pousada pra tentar descobrir o que aconteceu comigo.

“Sinto muito, amigo, mas faz alguns dias que o Armando não aparece no trabalho nem me dá satisfação. Sinceramente eu nem quero saber no que ele se meteu, caso você tenha vindo até aqui pra falar disso”.

“Na verdade, eu QUERO saber no que ele se meteu, porque foi a mesma merda em que me envolveram e que me deixou desacordado uma semana no hospital. Enfim, obrigado por nada”.

“Disponha”.

O sentimento de estranheza havia desaparecido. Certamente não tinha mais ninguém me vigiando, e mesmo que houvesse, não fazia mais diferença. Meu trabalho foi todo pelo ralo e faltavam menos de 3 semanas pro festival, nem perto de ser tempo suficiente pra tentar reproduzir a receita e curar uma peça de queijo que fosse. Resolvi que tava na hora de retomar minha vida normal, produzir meus queijos de sempre, cuidar das vacas como sempre, esquecer desse negócio de festival, de Gonça, esquisitões em caminhonetes roubando queijos alheios, enfim, qualquer coisa que remetesse aos últimos meses.

Num domingo de manhã, mais ou menos um mês depois, acordei cansado depois de uma noite conturbada. Sonhei novamente com alguém me chamando, provavelmente um rebote emocional daquela merda toda, e pareceu sensato levantar logo ao invés de ficar tentando fingir pra mim mesmo que seria possível virar pro lado e voltar a dormir. Passei um café, liguei a TV e sentei no sofá pra assistir Globo Rural. Na matéria especial, ele mesmo, o famigerado Festival do Queijo Artesanal do Sul de Minas. E qual não foi minha surpresa ao ver a entrevista com os vencedores do festival: Gonça e SÉRGIO. Sorridentes, falando pra repórter como foi complexo o desenvolvimento da receita, segurando uma das peças de queijo roubado e o troféu.

Nas semanas anteriores tentei várias vezes entrar em contato com o Sérgio. Liguei, mandei mensagem, e nada. Fui até a casa dele, ver se já tinha voltado, mas a casa parecia vazia, a horta já estava quase toda morta e um outro vizinho disse que havia comprado as vacas dele. Imaginei que depois de tantas décadas ele estivesse cansado, que precisasse de um tempo longe de tudo aquilo, ficar próximo da família, qualquer coisa do gênero. Mas ISSO? Nunca.

Essa imagem veio como uma voadora na minha cara. Meu estômago embrulhou, minha cabeça começou a formigar, o suor não parava de escorrer em meio ao clima ameno do outono. Tentei encontrar algum sentido naquilo, mas nada vinha. Desnorteado, tomei o último gole de café e fiz a única coisa sensata naquele momento: deitei no chão e passei algumas horas olhando pro teto.


Nenhum comentário:

Postar um comentário