terça-feira, 11 de junho de 2024

Hoje Eu Quero Sair Só

 


Estou, no momento em que inicio esse texto, sentado sozinho na mesa de um restaurante. É segunda e acabei de sair da sessão das 19 de Furiosa, em que mais uma vez George Miller opera acima dos 142% pra produzir algo grandiosamente minimalista. Como eu amo Mad Max. Apesar disso, meu foco aqui vai todo pra parte de estar sozinho.

Me lembro de um ritual razoavelmente comum nos meus anos mantiqueiros. Morar sozinho não cria, necessariamente, solidão. No tempo da graduação raramente ficava desacompanhado, e nossa galera amava passar tempo junta. Na verdade, era mais provável que estivesse com outras pessoas do que só, e não apenas no sentido físico, pois havia um senso genuíno de coletividade e apoio entre nós. Nos fins de semana, no entanto, era quase inevitável que não ficasse ninguém conhecido na cidade, até porque pouca gente, como eu, morava consideravelmente longe. Foi aí que o hábito surgiu.

Chegava a noite, eu botava uma roupa quente, pegava meu falecido iPod - companheiro inseparável de todas as horas - e caminhava ouvindo música até um restaurante japonês que fica escondido no primeiro andar de um prédio no Capivari, quase alheio à profusão de lugares genéricos que tomam conta do centro turístico jordanense. Subia as escadas, sentava numa mesa na sacada e comia observando o movimento na rua. Levou algum tempo até que o dono do restaurante não estranhasse minhas refeições solitárias, e por um período considerável, assim que eu chegava, perguntava se era “mesa só pra um, mesmo”.

Ao longo dos anos acabei estendendo essa rotina pra outros lugares da cidade, que se tornou ela mesma minha companhia. Vi muita gente chegar e ir embora, e no fim a solidão era sempre inevitável, mesmo que temporária (para mais sobre esse tempo, leia “O Som das Araucárias”). Quando chegou a minha vez de deixar a serra, um tanto dela veio comigo. Nos curtos intervalos que fiquei na Baixada mantive o hábito de sair sozinho, e o costume instaura a normalidade. Ao longo desse tempo a solitude me propiciou entrar em contato com aspectos de mim mesmo que por muito tempo ignorei, e aprendi a ficar em paz com a minha própria companhia. Eis que chega 2020.

A transição entre as décadas gerou uma ruptura nunca antes vista na normalidade. Pra além do impacto objetivo de milhões de mortes que a pandemia causou, se estabeleceu desde então um senso geral de que existe alguma coisa que quebrou e não se conserta mais, ou que ao menos se arrasta desde então sem uma remediação completa. No meio disso tudo, minha relação com o estar só também mudou.

Uma pandemia, um relacionamento e um burnout depois, me vi num estado de profunda ambiguidade. Momentos de crise, em maior ou menor escala, sempre deixam suas impressões espalhadas por aí. E, sendo como sou, como poderia querer facilitar a situação? Se de alguma forma sinto o peso da solidão, confesso que cada vez mais as pessoas soam irritantes e/ou desinteressantes, e não parece um esforço muito grande manter certa distância. Eu que lute com a minha dialética autoimposta.

Valter Hugo Mãe, escritor angolano dos melhores que eu já tive o prazer de ler, abre seu magistral “O Filho de Mil Homens” narrando a vida de um homem solitário. Cito aqui algumas de suas palavras:

“Estava sozinho, os seus amores haviam falhado e sentia que tudo lhe faltava pela metade, como se tivesse apenas metade dos olhos, metade do peito e metade das pernas, metade da casa e dos talheres, metade dos dias, metade das palavras para se explicar às pessoas.

Via-se metade ao espelho e achava tudo demasiado breve, precipitado, como se as coisas lhe fugissem, a esconderem-se para evitar a sua companhia. Via-se metade ao espelho porque se via sem mais ninguém, carregado de ausências e de silêncios como os precipícios ou poços fundos. Para dentro do homem era um sem fim, e pouco ou nada do que continha lhe servia de felicidade. Para dentro do homem o homem caía”.

O tempo aos poucos dilui o limiar entre a solitude e a solidão, e fica cada vez mais difícil saber quando é bom e ou não estar só. Chegando aos 30 em poucas semanas me peguei ligeiramente aflito pela questão. Talvez a leitura recente do livro tenha remexido coisas nos compartimentos internos desse estranho e excessivamente movimentado ambiente que chamo de minha mente, mas ao mesmo tempo, estando numa fase da vida em que finalmente detenho certo nível de autonomia, começo de novo a enxergar no meu tempo só o momento para me conectar comigo mesmo, sem deixar de refletir sobre como lidar de forma menos tensa com os outros. Escrever é um aspecto disso e me ajuda nessa mediação.

Fato é que, invariavelmente, nunca vai ser 100%, e tudo bem. Aos poucos restabeleço minha relação com os mundos interno e externo, e volto a dar espaço pra mim. Às vezes a gente se põe pressão demais por coisas que não estão totalmente no nosso controle e nem nos damos conta.

Curiosamente estou sentado na mesma mesa do mesmo restaurante que costumava vir nas minhas folgas, às segundas, do meu primeiro emprego como cozinheiro em Santos. Duas outras mesas estão ocupadas e, ainda mais curiosamente, mesmo que seja o único exercendo minha solitude, pareço ser o único desfrutando de algum lampejo de alegria. São tempos estranhos pra estar acompanhado.

 

Até a próxima.


quarta-feira, 1 de maio de 2024

A Guerra Somos Nós - Comentários sobre “Guerra Civil”



Esse vai ser um texto um pouco mais curto que o comum, já que, apesar de algumas rápidas reflexões, o foco vai ser indicar uma coisa. Nesse caso, um filme: Guerra Civil. Pra quem ainda não viu nada sobre ele, uma sinopse rápida. Em um futuro não muito distante uma guerra civil (ora, ora) tomou conta dos Estados Unidos, e o enredo acompanha três fotojornalistas de zonas de conflito viajando de Nova York até a capital estadunidense, Washington, acompanhados ainda de uma jovem fotógrafa que almeja seguir seus passos na cobertura de guerras.

O filme, porém, não é sobre a guerra em si, mas sobre os “microimpactos” de seus diversos aspectos, além de, ainda que de forma menos direta, sobre fotografia. Não vou ficar destrinchando demais, falando sobre atuações, montagem e outros aspectos técnicos. Como mencionado anteriormente, não entendo quase nada de teoria do cinema, logo não vou ficar inventando moda. O foco é no que senti e minhas percepções sobre algumas questões que me saltaram mais aos olhos. Vamos então ao que interessa.

Pra falar sobre os diferentes impactos que o conflito tem em uma sociedade, começo falando sobre os dois personagens principais, interpretados por Kirsten Dunst e Wagner Moura. Em Guerra Civil, Lee, personagem de Kirsten, funciona como um retrato da própria narrativa, relativamente apática e distante mesmo nos momentos mais tensos. A quebra desse comportamento, no entanto, ocorre quase como um prenúncio do fim, tanto seu quanto da própria narrativa, quando toda a tristeza que só a guerra é capaz de gerar em alguém se abate sobre ela.

A morte de Sammy, personagem vivido pelo Stephen McKinley Henderson, jornalista veterano e mentor de ambos, causa uma ruptura da barreira que ela construiu em volta de si pra não ter que lidar com toda o peso das coisas que ela viu ao longo dos anos que cobriu zonas de conflito. A partir desse ponto, enquanto registram a ofensiva final contra a Casa Branca, todo o medo e tristeza a soterram, ficando quase imóvel diante da ação.

É só nos momentos finais, com o ataque praticamente concluído, que ela se recompõe, num ato que serve como um momento simbólico pra ela, que já tendo realizado quase tudo que poderia querer, profissionalmente, morre ao salvar a vida da personagem de Cailee Spaeny, Jessie, a aspirante, entregando a ela o “fardo” que viveu ao longo de seu trabalho na forma de uma foto incrível e uma “micro revolução” paradigmática para a jovem.

O personagem do Wagner Moura, Joel, representa uma outra face do lidar com todo esse contexto. Enquanto Lee é tomada pela apatia, ele age quase com euforia ao vivenciar momentos de ação, enquanto estava “distante” dos impactos da guerra. Em diversos momentos se comporta como se aquilo impulsionasse sua existência, vivendo por mais uma dose da adrenalina. Sua conduta, como a de Lee, só se altera frente à violência quando vê seus amigos próximos, dois jornalistas chineses, serem executados por um grupo de civis armados que, se aproveitando do caos gerado pela guerra em andamento, passam seus dias executando pessoas que não consideram “verdadeiros americanos”.

Essa cena, inclusive - com destaque pra atuação insana do Jesse Plemons - poderia facilmente ser recortada e vendida como um curta, e convenceria qualquer um que a assistisse de que foi pensada com esse objetivo, sem, em nenhum momento, parecer deslocada do resto da história ou da ambientação. As ações do grupo racista são de uma crueza quase corriqueira, como se não estivessem fazendo nada diferente de lavar uma louça ou calçar um tênis, e isso é o bastante pra gerar um nível de tensão tão denso que dá quase pra pegar com a mão.

Outros dois momentos marcantes, que também servem como reflexões distorcidas um do outro, são as paradas que o grupo faz. A primeira se passa no posto de gasolina que encontram pouco depois de saírem de Nova York, em que habitantes da cidade amarraram pelos pulsos e torturam dois homens que tentaram saquear o lugar, com um deles constatando, sem nenhum incomodo aparente, que havia estudado com um dos homens pendurados, posando tranquilamente pra uma foto ao lado dele. Em contraste, mais ao final da viagem, passam por uma cidade em que as pessoas continuam vivendo como se nada estivesse acontecendo no resto do país, num único lapso do que poderia restar de normalidade naquele cenário.

Um último aspecto notável, que se faz presente ao longo de toda narrativa, é que a todo momento as cenas são filmadas propositadamente de perspectivas pensadas para compor fotografias, servindo como uma metanarrativa, um filme de si mesmo, como um documentário sobre a obra que está inserido na própria narrativa. Aos amantes da fotografia, especialmente da analógica, como este que lhes fala, é um detalhe que enriquece muito a narrativa.

Enfim, acho que já falei o que tinha que falar. Guerra Civil está longe de ser um dos meus filmes preferidos, mas sem dúvida é um filme que vale a pena ser assistido, especialmente no cinema. Se puderem, vejam.

Ah, esqueci de avisar, têm spoilers no texto.

Até a próxima.

segunda-feira, 29 de abril de 2024

Da Originalidade

 


Aos poucos que ainda não sabem, já que tive muito afinco na divulgação, co-criei, apresentei e vez ou outra editei um maravilhoso podcast sobre cinema de baixíssimo orçamento, discutindo filmes de qualidade quase sempre condizente com suas restrições orçamentárias e que, em alguns casos, esculpiram marcas indeléveis no meu ser e nos de todos que participaram, fixa ou esporadicamente, dos 30 episódios lançados.

Apesar dos vários chutes e voadoras de vacilo que nos atingiram em cheio, em especial ao já não tão jovem Gabriel - o Guedo, Guedollas, Gabigollum e tantos outros apelidos fofos que eu cunhei ao longo dos nossos quase 10 anos de amizade - que teve a tarefa hercúlea de editar e ajustar as trocentas horas de material que gravamos, guardamos com muito carinho todo o riso, de alegria ou nervoso, que o melhor do pior do cinema poderia nos ter proporcionado. Agora, pra surpresa de todos, não vim aqui hoje pra falar sobre o Cinemasso, mas sim das tranqueiras às quais a gente se submeteu e sobre criatividade e originalidade.

Acredito que não precise nem dar exemplos quando relembro aqui que nos últimos anos tivemos uma enxurrada de remakes e tentativas de trazer de volta franquias há muito esquecidas ou que sequer precisavam ser refeitas e continuadas, e tenho certeza de que só de ter lido isso pelo menos uns três exemplos tenham vindo à sua mente. A Disney, especialmente, em sua incansável busca pelo monopólio absoluto do entretenimento, se vale muito dessa prática, retroalimentada por uma demanda que ela mesma, junto com outros grandes bastiões da indústria - no pior sentido possível - ajudou a criar, na tentativa de manter quem consome seus produtos incessantemente engajados.

Por que não, então, unir o útil ao agradável e só requentar infinitamente o que já deu certo, correndo riscos mínimos, ao mesmo tempo que fisga a audiência com facilidade ao alimentar os anseios de afirmação de seus gostos e de pertencimento ligado ao passado, se escorando na nostalgia mais tosca possível? Eis o entretenimento no século 21. Agora, antes de continuar, quero deixar bem claro que de forma alguma eu julgo quem consome essas coisas, até porque seria de uma hipocrisia sem tamanho. Minha crítica é direcionada à quem produz. Por que isso, então, tem a ver com o Cinemasso? Explico.

Se você entrar na nossa página no seu streaming ou rede social preferida - que nesse caso só pode ser o Instagram, já que é único lugar com um perfil do podcast - não tenho dúvida de que vai lhe ocorrer algo como “meu Deus, que filmes ridículos são esses”? Não discordo, ao menos na maioria dos casos, mas existe uma coisa que os une e que, mesmo te causando estranheza, há de se concordar: são ideias muito originais.

A década de 80 talvez seja a mais frutífera nesse sentido, um período histórico em que, sim, muitas ideias eram ruins ou imbecis, mas nunca o suficiente pra serem ignoradas. Os gêneros que mais se beneficiaram disso foram a ação, a comédia e o terror, e ainda que muita gente tenha vergonha de admitir, com certeza tem um filme xodó que se enquadra em um deles e que, se fosse feito hoje, estaria relegado ao mais absoluto fracasso. Me ponho como exemplo quando afirmo, sem medo de ser feliz, que Stallone Cobra é um dos meus filmes preferidos. Se não viu, veja, pois é uma obra que exemplifica muito bem meu ponto.

Pensando seu conceito, nada muito fora do tradicional filme de ação policial estadunidense. Mocinha perseguida por um bandido implacável e protegida pelo herói improvável, renegado por grande parte de seus pares, mas que carrega consigo a chama da justiça. O que diferencia Cobra dos outros é que, apesar da ideia entregar que vai ser só mais um filme genérico e previsível - e não deixa de ser, apesar dos pesares - existe uma tentativa genuína de inserir elementos que construam aquele mundo de forma diferente do que se encontra por aí. O que começa como uma narrativa um tanto comum se torna um festival de “mas de onde veio isso?” e “por que diabos esse cara fez aquilo?”, entre outros questionamentos que tem fazem duvidar se aquele filme é o mesmo que você começou a assistir. Mas agora você precisa de mais.

Entre as muitas maluquices, as minhas preferidas são, sem dúvida, o bizarríssimo ensaio fotográfico de Brigitte Nielsen com robôs de borracharia do interior, o carro velho e pesado do Stallone, completamente deslocado daquele universo como seu próprio protagonista, seus hábitos peculiares como cortar pizzas com tesoura, mascar palito de fósforo e fazer ele mesmo o retrato-falado do vilão. É tudo fora do tom e sem sentido, mas ainda assim quanto mais a história avança, mais a sensação de estranhamento diminui, porque naquele microcosmo de policiais de sobretudo num calor de 40 graus, como tudo é exagero, nada fica realmente fora do tom.

Agora, que lugar teria um filme como Stallone Cobra em 2024? É altamente improvável que um estúdio com alguma capacidade financeira tivesse qualquer impulso de injetar dinheiro na produção de algo parecido, como a Warner fez em 86 com o roteiro co-escrito pelo próprio Sly. É aí que mora a morte da expressão artística. Definir o que é ou não arte é um debate complexo e que requer cuidado e profundidade aos quais não me proponho nesse momento, o elemento dessa discussão que quero levantar aqui é o da construção de referências. A expressão artística, mesmo quando não mediada por um ferramentário técnico complexo, pode ter um alto grau de complexidade no seu resultado, mas pra que isso ocorra é necessário que o autor tenha uma considerável bagagem referencial.

Como essa bagagem se constrói, então? A resposta mais do que óbvia é consumir cada vez mais coisas, das mais variadas perspectivas, pra que seu referencial se complexifique e a criticidade do olhar se aprofunde. Qual é o efeito, então, de estarmos num momento de produção como o atual? As mídias de massa despejam tanto conteúdo homogêneo que existe pouquíssimo espaço pra que a criatividade respire, e quem busca criar algo com algum nível de originalidade fica relegado aos espaços “underground”. E aqui não me refiro apenas ao cinema, mas a todo tipo de expressão, artística ou não.

Transporte agora esse preceito pra outro campo. Pensemos no caso da ciência política. Quanto exatamente você conhece do referencial teórico que constrói o pensamento ao redor das coisas que você critica? Extrapolando ainda mais, o quanto você tem de embasamento pra defender sua própria visão de mundo? Se todo debate ou temática está sujeito ao processo de homogeneização, não estaria então todo o referencial sujeito também ao mesmo processo?

É claro que se pode argumentar que tudo, ou ao menos parte considerável, do que foi produzido ao redor desse processo, no passado ou no presente, continua disponível, mas em quantos espaços é possível se ter acesso à essas coisas? Quando você vai a uma livraria, quais são os primeiros títulos que você encontra próximos à entrada? Quantos filmes de produtoras pequenas ou independentes estão passando no cinema mais próximo da sua casa? Que shows são divulgados nos principais veículos de mídia que você acessa? Você sequer busca transpor a barreira da produção industrial de gostos pra descobrir o que se faz além dela?

Essas são apenas algumas das perguntas que se pode levantar, e como sempre meu papel é tentar te oferecer um espaço pra se questionar. Tenho minhas respostas e convicções sobre o tema, e algumas estão contidas nas entrelinhas desse texto. Ser original ou produzir originalidade num mundo com o tanto que já foi feito não é tarefa simples, mas nunca foi, especialmente quando não havia nada sobre o que refletir ou referenciar, então, apesar de quem lucra forte com essa régua média querer estabelecer algum tipo de limite pro que é relevante ou merece atenção, acho que pra gente a coisa quase chegou de bandeja.

Tem uma frase, que provavelmente ouvi no Choque de Cultura, apesar de não lembrar em qual episódio e sequer estar disposto a procurar, que diz que se tudo fosse genial, tudo seria medíocre - aqui com seu significado correto, de mediano - e que a gente precisa das coisas que são ruins pra ter parâmetro sobre o que é bom. Mas como pode haver o ruim sem experimentação, se tudo já é produzido sob parâmetros formuláicos? O que eu quero dizer é que a gente precisa estar aberto pra todo tipo de coisa. A gente só tem certeza se é bom ou não se estiver disposto a consumir ou produzir algo sem ficar criando expectativas abstratas. Se for bom, ótimo, aquilo te entregou uma nova referência positiva. Agora, caso contrário, paciência, a vida também tá cheia de momentos de merda que a gente não pode evitar. Nessas horas é que eu costumo tirar as melhores ideias pra textos. A vida entrega originalidade o tempo todo e a gente nem se dá conta.

Até a próxima.

quarta-feira, 20 de março de 2024

Notas Complementares para “A Pobre Criatura Chamada Subjetividade”

 

O que faz de você, você? Melhor dizendo, você seria capaz de responder, de forma direta e objetiva, quem é você? Faça essa reflexão agora sem pensar no que você faz profissionalmente, ou no que você estudou, ou numa coisa que você gosta. Remova todas as coisas que compõe o seu eu exposto ao mundo exterior e tente responder essa pergunta como se falasse consigo mesmo.

Eu, particularmente, não tenho a mais remota ideia do que responderia. E depois de finalmente assistir e sim, por meios totalmente legais, pode ter certeza, Pobres Criaturas, esse questionamento ficou ainda mais complexo, quase beirando o cômico - é meio engraçado se sentir completamente burro, incapaz de responder uma pergunta que, penso eu, implica certa trivialidade.

Pontuo, antes de mais nada, que a questão do cérebro de criança no filme não é apenas uma analogia. Bella Baxter de fato recebe, recém falecida, o cérebro do bebê que gestava. No entanto, quando pensamos no conceito “cérebro de criança” estamos imputando conceitos apoiados no que se construiu socialmente sobre infância, o que é ser criança e todo o escopo de décadas de pesquisa sobre fases do desenvolvimento e blá blá blá. Lembremos que há não muito tempo atrás nada disso existia, então sem anacronismos.

Poderia passar um tempão mergulhando nesse ponto específico - ao menos sob a ótica da educação e da sociologia - mas esse não é o motivo de ter querido escrever um texto complementar, até porque a interpretação clara desde o início do filme se mantém exatamente a mesma que coloquei em “A Pobre Criatura Chamada Subjetividade”. Caso não tenha lido, volte duas casas.

O motivo de estar falando sobre o assunto novamente mistura o texto anterior com os questionamentos apontados aqui, nos primeiros parágrafos. Quando não se possui nenhuma referência sobre nada, como estabelecer uma relação dialética com o mundo e confrontar toda a miríade de conceitos e convenções já estabelecidas, mesmo tendo a capacidade cognitiva para tal? Cognição desenvolvida é suficiente pra mediar um mundo quando há ausência de entendimento dos símbolos sociais?

O filme não tenta responder, mas carrega o debate através das ações de Bella sendo dotadas de profunda objetividade, ultrapassando com força pro lado de uma simulação do que seria o estabelecimento de uma relação puramente metodológica com o mundo. As coisas, após determinado ponto, abandonam o caráter de descoberta, que remeteria ao fluxo comum do desenvolvimento do “eu”, e passam a ser experienciadas analiticamente, a aproximando de se tornar cada vez mais um reflexo do dr. Godwin Baxter, seu “criador”.

Adentrando esse pressuposto, o questionamento que se formula, e que talvez ambas as personagens, de formas diferentes, tentem responder, ou ao menos traçar uma linha lógica - não eles em si, mas suas trajetórias durante a narrativa - é: não possuir subjetividade construída de forma natural, dentro do tempo entendido como adequado para tal e passando pelas diversas fases do desenvolvimento da mente, possibilitaria algum nível de neutralidade real ao se analisar um objeto?

O tempo todo, ao longo do filme, o dr. Godwin relata as mais diversas atrocidades que o próprio pai cometeu com ele, mutilações diversas em prol de um senso deturpado de avanço científico e compreensão do corpo humano, o que o próprio defende com a mesma frequência como sendo os atos corajosos de alguém capaz de tudo pelo avanço técnico, como se tivesse experienciado uma espécie de dissociação do próprio sofrimento como forma de suportá-lo, estabelecendo um significado lógico, afastado de qualquer noção movida por sentimentos, para tudo que passou.

Se a objetividade seria para o dr. uma forma de fuga da própria subjetividade, de um elemento constituinte do seu “eu” - o sofrimento físico e o ódio pelo mesmo ter sido causado pelo próprio pai - para Bella esse mesmo traço anda em contraste constante com o fato de que, por não ter se desenvolvido numa temporalidade natural, todas as suas reações ao mundo, mesmo quando demonstra profunda inteligência e capacidade analítica, são precedidas por atitudes totalmente instintivas.

Quando entende sua sexualidade, quando come um doce pela primeira vez, quando ouve um bebê chorando, suas reações sempre são as que qualquer um tomaria se não estivesse sociabilizado - buscaria estímulo sexual continuamente, comeria um doce atrás do outro, reagiria com violência ao incômodo causado pelo choro. A quebra desse padrão só ocorre a partir do momento que ela é confrontada com duas coisas: a filosofia, que estabelece novas formas de percepção sobre o mundo, não objetivas e conflitantes com o que parece óbvio, e o choque de se deparar com a miséria, que desfaz sua noção de que o atendimento de seus prazeres é natural e está disponível para todos.

Sua resposta aos dois, sem possuir nenhum campo referencial prévio sobre ambos, também parte de reações de certa forma lógicas: o desespero e tristeza profunda com a filosofia implicando que nem tudo é claro como ela entendia, até então, o que acaba por estabelecer uma ruptura paradigmática, e a tentativa de sanar a pobreza suprindo àquelas pessoas o objeto que, em sua falta, a causaria, o dinheiro.

Existe espaço pra discutir uma série de outras questões sobre o filme, mas acho que, com relação ao meu objetivo central, me fiz entender. E isso porque a ideia era só complementar o que eu já tinha escrito. Talvez, no fim, o texto anterior seja um complemento desse. Seria possível complementar uma ideia antes mesmo de ela existir? Confesso que às vezes tenho medo de ser taxado de prolixo, então chega de divagação por hoje.

Não tenho total certeza se gostei do filme - imaginem se tivesse - mas posso afirmar que ele me deixou intrigado. Ao longo da história fui puxado pra fora diversas vezes, não por estar desinteressado, mas pra tentar organizar um pensamento que me ocorria sobre algo específico e anotar pra escrever esse texto. O ritmo da narrativa quase não te dá espaços pra sair dela, e tudo ocorre de forma tão intensa - talvez numa tentativa de nos conectar com a protagonista - que 2h20 parecem 3.

No fim das contas, acho que não respondi a pergunta que levantei lá no meio, e sendo bem sincero não sei se queria responder. O filme também não entrega nada de bandeja e eu tive que lidar com um pouco de insônia pra organizar e escrever o início das ideias contidas nesse texto. Talvez tenha escrito um monte de bobajada e você perdeu um tempo tremendo pra chegar até aqui, ou então tudo fez muito sentido e agora você deve estar se fazendo um monte de questionamentos. Em ambos os cenários, considero que atingi meus objetivos. Se é uma derrota, que seja compartilhada.

Até a próxima.

 


domingo, 17 de março de 2024

André Cozinha: Origens

 

O primeiro dia de aula em cozinha, na faculdade, era reservado pra inglória tarefa de mandar uma faxina geral nela, propositalmente deixada no pior estado possível. Coifas tão engorduradas quanto aquele lanche duvidoso que você comia pós-balada aos 19 anos, panelas com grossas crostas de caramelo queimado - que deixariam tomadas de inveja as placas tectônicas - e outros desafios faxinescos que exigiam sagacidade e força que a maioria de nós não tinha. Curiosamente, era - e não duvido que ainda seja - um dos dias em que mais faltavam alunos.

Aquele momento, além do claro objetivo de aprendermos a faxinar nosso ambiente de trabalho da melhor forma possível, diziam os professores, também tinha um outro propósito, nos fazer entender que estar ali só nos faria bons cozinheiros - e não chefs, como muitos pensavam que seriam depois de dois anos - se internalizássemos a dureza do trabalho. Concordo com isso, mas também sentia falta de um outro apontamento sobre a questão, que era estabelecermos um senso claro de que a cozinha só andava de forma coletiva. Tem muita gente que ainda não entendeu isso.

Costumo falar muito sobre a minha relação com a comida e a cozinha, mas pouco sobre como ela começou. Sendo assim, iniciemos do início. Lembro com clareza ímpar do meu pai indo embora e o sentimento de “merda, tô sozinho” que tomou conta de mim quando mudei pra Campos do Jordão pela primeira vez, aos 17 anos. Era 2012 e nunca tinha ficado totalmente só, ainda que estivesse acostumado a lidar com as necessidades básicas de um lar. Apesar da minha já citada timidez, fiz amigos bastante rápido, o que acabou por amenizar muito o peso do processo.

Não sabia o que fazer, mas sabia que coisas precisavam ser feitas. E assim se deu. Um dia de cada vez, uma tarefa por vez, e tudo foi se estabelecendo. Entre erros e acertos, me formei, fiz pós-graduações e hoje, 12 anos depois, não trabalhando mais na área, sinto que finalmente me tornei um cozinheiro competente.

Voltando um pouco mais, fora toda a tradição ao redor de comida das minhas famílias, cada qual com as suas peculiaridades regionalísticas, comecei a me interessar por gastronomia por causa de dois chefs: Bob Blumer e Anthony Bourdain. Ao contrário de hoje, mesmo em canais de TV fechados era quase impossível encontrar programas exclusivamente sobre comida, ainda mais nacionais, nos idos de 2007, pra além das Palmirinhas, Namarias e Edu Guedos, e ninguém ia pra faculdade de Gastronomia por causa de algum master-chef-estrela. Valorizo muito o legado dessas pessoas, mas no emaranhado de receitas super práticas e saborosas pra pessoas comuns fazerem em casa, sempre tinha uma lacuna: qual era a da comida.

A primeira vez que me fiz essa pergunta foi também a primeira vez que vi Anthony Bourdain comendo algum troço nadando em caldo apimentado - beirando o radioativo, do jeito que hoje eu gosto - numa barraquinha de rua tailandesa, enquanto conversava com um conhecido nascido no país sobre o que a mãe dele costumava cozinhar, e 5 minutos depois os dois debatiam a melhor técnica pra preparar um peixe específico numa mesa de restaurante estrelado. Foi ali que eu comecei a entender que não era só sobre comida.

Considerando que eu tinha 13 anos e, além da gastronomia, também começava a descobrir o rock e uma pseudonoção de rebeldia, a figura do Bourdain era um tanto quanto chamativa, fazendo comentários ácidos enquanto balançava um cigarro e uma cerveja como se tocasse bateria, dizendo o quanto a vida da cozinha era insana e tirando sarro de algum chef pomposo. É possível que isso tenha me dado algum senso de construção de mim mesmo, e de como, depois de ter sido uma criança fechada e que sempre tentava passar despercebida, eu poderia - pelo menos dentro dessa cachola peculiar - me tornar uma figura interessante, de alguma forma.

Muitos anos passaram, li os livros que ele escreveu, vi outros episódios dos programas que ele apresentou e enquanto eu fazia meu próprio caminho na cozinha, entendia um pouco mais tudo que aquele maluco dizia. Quando ele morreu, em 2018, a gastronomia também perdeu um pedaço, pra mim, e me fez lembrar que a vida na cozinha cobra um preço desagradável pra ser vivida. Agradeço tudo que passei, mas agradeço ainda mais por ter tido a escolha de fazer outra coisa.

Se Anthony Bourdain me proporcionou a realidade, com Bob Blumer foi o encantamento de descobrir uma coisa nova quando se é criança. Uma pesquisa rápida entrega rápido o motivo disso: é impossível não querer cozinhar vendo aquela figura de cabelo em pé, se divertindo horrores com os convidados enquanto faz um prato cheio de técnicas malucas como se fossem a coisa mais corriqueira do mundo DENTRO DE UM TRAILER-TORRADEIRA. Como o programa passava pouco, todos os dias olhava a programação inteira do canal pra ver se surgia entre os quadradinhos o Gourmet Surrealista.

Um dia, sem mais nem menos, o programa simplesmente desapareceu e nunca mais passou. Coincidentemente isso aconteceu na mesma época que mudei pra Campos, então é possível que eu só tenha perdido esse momento, o que não diminui a importância que ele teve nas primeiras etapas da minha formação.

Assim como o programa desapareceu, o próprio Bob, junto com a torradeira gigante em que ele cozinhava, se ausentou das minhas memórias, ao longo dos anos. Há alguns meses, fazendo almoço de domingo, tive um estalo nostálgico e lembrei de várias coisas como se tivesse assistido o programa no dia anterior. Corri pra pesquisar à quantas andava a vida dele e fiquei feliz de saber que continua participando de programas culinários, fazendo por outras pessoas o que, mesmo sem ter a menor ideia, ele fez por mim, mostrar a cozinha como uma antena pra nossa criatividade, um lugar pra criar, que nos abraça pra podermos abraçar os outros.

Um bom tempo atrás, já nem sei mais em que texto, disse que cozinhar não é uma forma de amar os outros, ou ao menos não a única coisa. Têm afetos demais envolvidos nessa história e entregar a carga toda pro amor seria injusto com o resto deles. Relembrar essas duas figuras reforça - ao menos pra mim - esse sentimento, e tenho certeza que ambos foram cruciais pra que chegasse nessa conclusão. Um ciclo completo, e talvez essa seja a da comida, vai saber.

Prometo que continuarei tentando encontrar uma resposta mais concreta pra esse dilema. Prometo também continuar não assistindo MasterChef. Posso não ter certezas, mas pelo menos eu tenho respeito próprio.

Até a próxima.