segunda-feira, 29 de abril de 2024

Da Originalidade

 


Aos poucos que ainda não sabem, já que tive muito afinco na divulgação, co-criei, apresentei e vez ou outra editei um maravilhoso podcast sobre cinema de baixíssimo orçamento, discutindo filmes de qualidade quase sempre condizente com suas restrições orçamentárias e que, em alguns casos, esculpiram marcas indeléveis no meu ser e nos de todos que participaram, fixa ou esporadicamente, dos 30 episódios lançados.

Apesar dos vários chutes e voadoras de vacilo que nos atingiram em cheio, em especial ao já não tão jovem Gabriel - o Guedo, Guedollas, Gabigollum e tantos outros apelidos fofos que eu cunhei ao longo dos nossos quase 10 anos de amizade - que teve a tarefa hercúlea de editar e ajustar as trocentas horas de material que gravamos, guardamos com muito carinho todo o riso, de alegria ou nervoso, que o melhor do pior do cinema poderia nos ter proporcionado. Agora, pra surpresa de todos, não vim aqui hoje pra falar sobre o Cinemasso, mas sim das tranqueiras às quais a gente se submeteu e sobre criatividade e originalidade.

Acredito que não precise nem dar exemplos quando relembro aqui que nos últimos anos tivemos uma enxurrada de remakes e tentativas de trazer de volta franquias há muito esquecidas ou que sequer precisavam ser refeitas e continuadas, e tenho certeza de que só de ter lido isso pelo menos uns três exemplos tenham vindo à sua mente. A Disney, especialmente, em sua incansável busca pelo monopólio absoluto do entretenimento, se vale muito dessa prática, retroalimentada por uma demanda que ela mesma, junto com outros grandes bastiões da indústria - no pior sentido possível - ajudou a criar, na tentativa de manter quem consome seus produtos incessantemente engajados.

Por que não, então, unir o útil ao agradável e só requentar infinitamente o que já deu certo, correndo riscos mínimos, ao mesmo tempo que fisga a audiência com facilidade ao alimentar os anseios de afirmação de seus gostos e de pertencimento ligado ao passado, se escorando na nostalgia mais tosca possível? Eis o entretenimento no século 21. Agora, antes de continuar, quero deixar bem claro que de forma alguma eu julgo quem consome essas coisas, até porque seria de uma hipocrisia sem tamanho. Minha crítica é direcionada à quem produz. Por que isso, então, tem a ver com o Cinemasso? Explico.

Se você entrar na nossa página no seu streaming ou rede social preferida - que nesse caso só pode ser o Instagram, já que é único lugar com um perfil do podcast - não tenho dúvida de que vai lhe ocorrer algo como “meu Deus, que filmes ridículos são esses”? Não discordo, ao menos na maioria dos casos, mas existe uma coisa que os une e que, mesmo te causando estranheza, há de se concordar: são ideias muito originais.

A década de 80 talvez seja a mais frutífera nesse sentido, um período histórico em que, sim, muitas ideias eram ruins ou imbecis, mas nunca o suficiente pra serem ignoradas. Os gêneros que mais se beneficiaram disso foram a ação, a comédia e o terror, e ainda que muita gente tenha vergonha de admitir, com certeza tem um filme xodó que se enquadra em um deles e que, se fosse feito hoje, estaria relegado ao mais absoluto fracasso. Me ponho como exemplo quando afirmo, sem medo de ser feliz, que Stallone Cobra é um dos meus filmes preferidos. Se não viu, veja, pois é uma obra que exemplifica muito bem meu ponto.

Pensando seu conceito, nada muito fora do tradicional filme de ação policial estadunidense. Mocinha perseguida por um bandido implacável e protegida pelo herói improvável, renegado por grande parte de seus pares, mas que carrega consigo a chama da justiça. O que diferencia Cobra dos outros é que, apesar da ideia entregar que vai ser só mais um filme genérico e previsível - e não deixa de ser, apesar dos pesares - existe uma tentativa genuína de inserir elementos que construam aquele mundo de forma diferente do que se encontra por aí. O que começa como uma narrativa um tanto comum se torna um festival de “mas de onde veio isso?” e “por que diabos esse cara fez aquilo?”, entre outros questionamentos que tem fazem duvidar se aquele filme é o mesmo que você começou a assistir. Mas agora você precisa de mais.

Entre as muitas maluquices, as minhas preferidas são, sem dúvida, o bizarríssimo ensaio fotográfico de Brigitte Nielsen com robôs de borracharia do interior, o carro velho e pesado do Stallone, completamente deslocado daquele universo como seu próprio protagonista, seus hábitos peculiares como cortar pizzas com tesoura, mascar palito de fósforo e fazer ele mesmo o retrato-falado do vilão. É tudo fora do tom e sem sentido, mas ainda assim quanto mais a história avança, mais a sensação de estranhamento diminui, porque naquele microcosmo de policiais de sobretudo num calor de 40 graus, como tudo é exagero, nada fica realmente fora do tom.

Agora, que lugar teria um filme como Stallone Cobra em 2024? É altamente improvável que um estúdio com alguma capacidade financeira tivesse qualquer impulso de injetar dinheiro na produção de algo parecido, como a Warner fez em 86 com o roteiro co-escrito pelo próprio Sly. É aí que mora a morte da expressão artística. Definir o que é ou não arte é um debate complexo e que requer cuidado e profundidade aos quais não me proponho nesse momento, o elemento dessa discussão que quero levantar aqui é o da construção de referências. A expressão artística, mesmo quando não mediada por um ferramentário técnico complexo, pode ter um alto grau de complexidade no seu resultado, mas pra que isso ocorra é necessário que o autor tenha uma considerável bagagem referencial.

Como essa bagagem se constrói, então? A resposta mais do que óbvia é consumir cada vez mais coisas, das mais variadas perspectivas, pra que seu referencial se complexifique e a criticidade do olhar se aprofunde. Qual é o efeito, então, de estarmos num momento de produção como o atual? As mídias de massa despejam tanto conteúdo homogêneo que existe pouquíssimo espaço pra que a criatividade respire, e quem busca criar algo com algum nível de originalidade fica relegado aos espaços “underground”. E aqui não me refiro apenas ao cinema, mas a todo tipo de expressão, artística ou não.

Transporte agora esse preceito pra outro campo. Pensemos no caso da ciência política. Quanto exatamente você conhece do referencial teórico que constrói o pensamento ao redor das coisas que você critica? Extrapolando ainda mais, o quanto você tem de embasamento pra defender sua própria visão de mundo? Se todo debate ou temática está sujeito ao processo de homogeneização, não estaria então todo o referencial sujeito também ao mesmo processo?

É claro que se pode argumentar que tudo, ou ao menos parte considerável, do que foi produzido ao redor desse processo, no passado ou no presente, continua disponível, mas em quantos espaços é possível se ter acesso à essas coisas? Quando você vai a uma livraria, quais são os primeiros títulos que você encontra próximos à entrada? Quantos filmes de produtoras pequenas ou independentes estão passando no cinema mais próximo da sua casa? Que shows são divulgados nos principais veículos de mídia que você acessa? Você sequer busca transpor a barreira da produção industrial de gostos pra descobrir o que se faz além dela?

Essas são apenas algumas das perguntas que se pode levantar, e como sempre meu papel é tentar te oferecer um espaço pra se questionar. Tenho minhas respostas e convicções sobre o tema, e algumas estão contidas nas entrelinhas desse texto. Ser original ou produzir originalidade num mundo com o tanto que já foi feito não é tarefa simples, mas nunca foi, especialmente quando não havia nada sobre o que refletir ou referenciar, então, apesar de quem lucra forte com essa régua média querer estabelecer algum tipo de limite pro que é relevante ou merece atenção, acho que pra gente a coisa quase chegou de bandeja.

Tem uma frase, que provavelmente ouvi no Choque de Cultura, apesar de não lembrar em qual episódio e sequer estar disposto a procurar, que diz que se tudo fosse genial, tudo seria medíocre - aqui com seu significado correto, de mediano - e que a gente precisa das coisas que são ruins pra ter parâmetro sobre o que é bom. Mas como pode haver o ruim sem experimentação, se tudo já é produzido sob parâmetros formuláicos? O que eu quero dizer é que a gente precisa estar aberto pra todo tipo de coisa. A gente só tem certeza se é bom ou não se estiver disposto a consumir ou produzir algo sem ficar criando expectativas abstratas. Se for bom, ótimo, aquilo te entregou uma nova referência positiva. Agora, caso contrário, paciência, a vida também tá cheia de momentos de merda que a gente não pode evitar. Nessas horas é que eu costumo tirar as melhores ideias pra textos. A vida entrega originalidade o tempo todo e a gente nem se dá conta.

Até a próxima.

quarta-feira, 20 de março de 2024

Notas Complementares para “A Pobre Criatura Chamada Subjetividade”

 

O que faz de você, você? Melhor dizendo, você seria capaz de responder, de forma direta e objetiva, quem é você? Faça essa reflexão agora sem pensar no que você faz profissionalmente, ou no que você estudou, ou numa coisa que você gosta. Remova todas as coisas que compõe o seu eu exposto ao mundo exterior e tente responder essa pergunta como se falasse consigo mesmo.

Eu, particularmente, não tenho a mais remota ideia do que responderia. E depois de finalmente assistir e sim, por meios totalmente legais, pode ter certeza, Pobres Criaturas, esse questionamento ficou ainda mais complexo, quase beirando o cômico - é meio engraçado se sentir completamente burro, incapaz de responder uma pergunta que, penso eu, implica certa trivialidade.

Pontuo, antes de mais nada, que a questão do cérebro de criança no filme não é apenas uma analogia. Bella Baxter de fato recebe, recém falecida, o cérebro do bebê que gestava. No entanto, quando pensamos no conceito “cérebro de criança” estamos imputando conceitos apoiados no que se construiu socialmente sobre infância, o que é ser criança e todo o escopo de décadas de pesquisa sobre fases do desenvolvimento e blá blá blá. Lembremos que há não muito tempo atrás nada disso existia, então sem anacronismos.

Poderia passar um tempão mergulhando nesse ponto específico - ao menos sob a ótica da educação e da sociologia - mas esse não é o motivo de ter querido escrever um texto complementar, até porque a interpretação clara desde o início do filme se mantém exatamente a mesma que coloquei em “A Pobre Criatura Chamada Subjetividade”. Caso não tenha lido, volte duas casas.

O motivo de estar falando sobre o assunto novamente mistura o texto anterior com os questionamentos apontados aqui, nos primeiros parágrafos. Quando não se possui nenhuma referência sobre nada, como estabelecer uma relação dialética com o mundo e confrontar toda a miríade de conceitos e convenções já estabelecidas, mesmo tendo a capacidade cognitiva para tal? Cognição desenvolvida é suficiente pra mediar um mundo quando há ausência de entendimento dos símbolos sociais?

O filme não tenta responder, mas carrega o debate através das ações de Bella sendo dotadas de profunda objetividade, ultrapassando com força pro lado de uma simulação do que seria o estabelecimento de uma relação puramente metodológica com o mundo. As coisas, após determinado ponto, abandonam o caráter de descoberta, que remeteria ao fluxo comum do desenvolvimento do “eu”, e passam a ser experienciadas analiticamente, a aproximando de se tornar cada vez mais um reflexo do dr. Godwin Baxter, seu “criador”.

Adentrando esse pressuposto, o questionamento que se formula, e que talvez ambas as personagens, de formas diferentes, tentem responder, ou ao menos traçar uma linha lógica - não eles em si, mas suas trajetórias durante a narrativa - é: não possuir subjetividade construída de forma natural, dentro do tempo entendido como adequado para tal e passando pelas diversas fases do desenvolvimento da mente, possibilitaria algum nível de neutralidade real ao se analisar um objeto?

O tempo todo, ao longo do filme, o dr. Godwin relata as mais diversas atrocidades que o próprio pai cometeu com ele, mutilações diversas em prol de um senso deturpado de avanço científico e compreensão do corpo humano, o que o próprio defende com a mesma frequência como sendo os atos corajosos de alguém capaz de tudo pelo avanço técnico, como se tivesse experienciado uma espécie de dissociação do próprio sofrimento como forma de suportá-lo, estabelecendo um significado lógico, afastado de qualquer noção movida por sentimentos, para tudo que passou.

Se a objetividade seria para o dr. uma forma de fuga da própria subjetividade, de um elemento constituinte do seu “eu” - o sofrimento físico e o ódio pelo mesmo ter sido causado pelo próprio pai - para Bella esse mesmo traço anda em contraste constante com o fato de que, por não ter se desenvolvido numa temporalidade natural, todas as suas reações ao mundo, mesmo quando demonstra profunda inteligência e capacidade analítica, são precedidas por atitudes totalmente instintivas.

Quando entende sua sexualidade, quando come um doce pela primeira vez, quando ouve um bebê chorando, suas reações sempre são as que qualquer um tomaria se não estivesse sociabilizado - buscaria estímulo sexual continuamente, comeria um doce atrás do outro, reagiria com violência ao incômodo causado pelo choro. A quebra desse padrão só ocorre a partir do momento que ela é confrontada com duas coisas: a filosofia, que estabelece novas formas de percepção sobre o mundo, não objetivas e conflitantes com o que parece óbvio, e o choque de se deparar com a miséria, que desfaz sua noção de que o atendimento de seus prazeres é natural e está disponível para todos.

Sua resposta aos dois, sem possuir nenhum campo referencial prévio sobre ambos, também parte de reações de certa forma lógicas: o desespero e tristeza profunda com a filosofia implicando que nem tudo é claro como ela entendia, até então, o que acaba por estabelecer uma ruptura paradigmática, e a tentativa de sanar a pobreza suprindo àquelas pessoas o objeto que, em sua falta, a causaria, o dinheiro.

Existe espaço pra discutir uma série de outras questões sobre o filme, mas acho que, com relação ao meu objetivo central, me fiz entender. E isso porque a ideia era só complementar o que eu já tinha escrito. Talvez, no fim, o texto anterior seja um complemento desse. Seria possível complementar uma ideia antes mesmo de ela existir? Confesso que às vezes tenho medo de ser taxado de prolixo, então chega de divagação por hoje.

Não tenho total certeza se gostei do filme - imaginem se tivesse - mas posso afirmar que ele me deixou intrigado. Ao longo da história fui puxado pra fora diversas vezes, não por estar desinteressado, mas pra tentar organizar um pensamento que me ocorria sobre algo específico e anotar pra escrever esse texto. O ritmo da narrativa quase não te dá espaços pra sair dela, e tudo ocorre de forma tão intensa - talvez numa tentativa de nos conectar com a protagonista - que 2h20 parecem 3.

No fim das contas, acho que não respondi a pergunta que levantei lá no meio, e sendo bem sincero não sei se queria responder. O filme também não entrega nada de bandeja e eu tive que lidar com um pouco de insônia pra organizar e escrever o início das ideias contidas nesse texto. Talvez tenha escrito um monte de bobajada e você perdeu um tempo tremendo pra chegar até aqui, ou então tudo fez muito sentido e agora você deve estar se fazendo um monte de questionamentos. Em ambos os cenários, considero que atingi meus objetivos. Se é uma derrota, que seja compartilhada.

Até a próxima.

 


domingo, 17 de março de 2024

André Cozinha: Origens

 

O primeiro dia de aula em cozinha, na faculdade, era reservado pra inglória tarefa de mandar uma faxina geral nela, propositalmente deixada no pior estado possível. Coifas tão engorduradas quanto aquele lanche duvidoso que você comia pós-balada aos 19 anos, panelas com grossas crostas de caramelo queimado - que deixariam tomadas de inveja as placas tectônicas - e outros desafios faxinescos que exigiam sagacidade e força que a maioria de nós não tinha. Curiosamente, era - e não duvido que ainda seja - um dos dias em que mais faltavam alunos.

Aquele momento, além do claro objetivo de aprendermos a faxinar nosso ambiente de trabalho da melhor forma possível, diziam os professores, também tinha um outro propósito, nos fazer entender que estar ali só nos faria bons cozinheiros - e não chefs, como muitos pensavam que seriam depois de dois anos - se internalizássemos a dureza do trabalho. Concordo com isso, mas também sentia falta de um outro apontamento sobre a questão, que era estabelecermos um senso claro de que a cozinha só andava de forma coletiva. Tem muita gente que ainda não entendeu isso.

Costumo falar muito sobre a minha relação com a comida e a cozinha, mas pouco sobre como ela começou. Sendo assim, iniciemos do início. Lembro com clareza ímpar do meu pai indo embora e o sentimento de “merda, tô sozinho” que tomou conta de mim quando mudei pra Campos do Jordão pela primeira vez, aos 17 anos. Era 2012 e nunca tinha ficado totalmente só, ainda que estivesse acostumado a lidar com as necessidades básicas de um lar. Apesar da minha já citada timidez, fiz amigos bastante rápido, o que acabou por amenizar muito o peso do processo.

Não sabia o que fazer, mas sabia que coisas precisavam ser feitas. E assim se deu. Um dia de cada vez, uma tarefa por vez, e tudo foi se estabelecendo. Entre erros e acertos, me formei, fiz pós-graduações e hoje, 12 anos depois, não trabalhando mais na área, sinto que finalmente me tornei um cozinheiro competente.

Voltando um pouco mais, fora toda a tradição ao redor de comida das minhas famílias, cada qual com as suas peculiaridades regionalísticas, comecei a me interessar por gastronomia por causa de dois chefs: Bob Blumer e Anthony Bourdain. Ao contrário de hoje, mesmo em canais de TV fechados era quase impossível encontrar programas exclusivamente sobre comida, ainda mais nacionais, nos idos de 2007, pra além das Palmirinhas, Namarias e Edu Guedos, e ninguém ia pra faculdade de Gastronomia por causa de algum master-chef-estrela. Valorizo muito o legado dessas pessoas, mas no emaranhado de receitas super práticas e saborosas pra pessoas comuns fazerem em casa, sempre tinha uma lacuna: qual era a da comida.

A primeira vez que me fiz essa pergunta foi também a primeira vez que vi Anthony Bourdain comendo algum troço nadando em caldo apimentado - beirando o radioativo, do jeito que hoje eu gosto - numa barraquinha de rua tailandesa, enquanto conversava com um conhecido nascido no país sobre o que a mãe dele costumava cozinhar, e 5 minutos depois os dois debatiam a melhor técnica pra preparar um peixe específico numa mesa de restaurante estrelado. Foi ali que eu comecei a entender que não era só sobre comida.

Considerando que eu tinha 13 anos e, além da gastronomia, também começava a descobrir o rock e uma pseudonoção de rebeldia, a figura do Bourdain era um tanto quanto chamativa, fazendo comentários ácidos enquanto balançava um cigarro e uma cerveja como se tocasse bateria, dizendo o quanto a vida da cozinha era insana e tirando sarro de algum chef pomposo. É possível que isso tenha me dado algum senso de construção de mim mesmo, e de como, depois de ter sido uma criança fechada e que sempre tentava passar despercebida, eu poderia - pelo menos dentro dessa cachola peculiar - me tornar uma figura interessante, de alguma forma.

Muitos anos passaram, li os livros que ele escreveu, vi outros episódios dos programas que ele apresentou e enquanto eu fazia meu próprio caminho na cozinha, entendia um pouco mais tudo que aquele maluco dizia. Quando ele morreu, em 2018, a gastronomia também perdeu um pedaço, pra mim, e me fez lembrar que a vida na cozinha cobra um preço desagradável pra ser vivida. Agradeço tudo que passei, mas agradeço ainda mais por ter tido a escolha de fazer outra coisa.

Se Anthony Bourdain me proporcionou a realidade, com Bob Blumer foi o encantamento de descobrir uma coisa nova quando se é criança. Uma pesquisa rápida entrega rápido o motivo disso: é impossível não querer cozinhar vendo aquela figura de cabelo em pé, se divertindo horrores com os convidados enquanto faz um prato cheio de técnicas malucas como se fossem a coisa mais corriqueira do mundo DENTRO DE UM TRAILER-TORRADEIRA. Como o programa passava pouco, todos os dias olhava a programação inteira do canal pra ver se surgia entre os quadradinhos o Gourmet Surrealista.

Um dia, sem mais nem menos, o programa simplesmente desapareceu e nunca mais passou. Coincidentemente isso aconteceu na mesma época que mudei pra Campos, então é possível que eu só tenha perdido esse momento, o que não diminui a importância que ele teve nas primeiras etapas da minha formação.

Assim como o programa desapareceu, o próprio Bob, junto com a torradeira gigante em que ele cozinhava, se ausentou das minhas memórias, ao longo dos anos. Há alguns meses, fazendo almoço de domingo, tive um estalo nostálgico e lembrei de várias coisas como se tivesse assistido o programa no dia anterior. Corri pra pesquisar à quantas andava a vida dele e fiquei feliz de saber que continua participando de programas culinários, fazendo por outras pessoas o que, mesmo sem ter a menor ideia, ele fez por mim, mostrar a cozinha como uma antena pra nossa criatividade, um lugar pra criar, que nos abraça pra podermos abraçar os outros.

Um bom tempo atrás, já nem sei mais em que texto, disse que cozinhar não é uma forma de amar os outros, ou ao menos não a única coisa. Têm afetos demais envolvidos nessa história e entregar a carga toda pro amor seria injusto com o resto deles. Relembrar essas duas figuras reforça - ao menos pra mim - esse sentimento, e tenho certeza que ambos foram cruciais pra que chegasse nessa conclusão. Um ciclo completo, e talvez essa seja a da comida, vai saber.

Prometo que continuarei tentando encontrar uma resposta mais concreta pra esse dilema. Prometo também continuar não assistindo MasterChef. Posso não ter certezas, mas pelo menos eu tenho respeito próprio.

Até a próxima.


terça-feira, 12 de março de 2024

A Pobre Criatura Chamada Subjetividade

 

Há alguns dias li uma matéria sobre pessoas criticando um aspecto específico do filme “Pobres Criaturas”, de Yorgos Lanthimos, mesmo diretor do excelente, ainda que um pouco arrastado, “A Favorita”. Os comentários se direcionam ao fato de que a personagem principal, uma mulher falecida que é trazida de volta à vida por um cientista, tal qual o monstro de Frankenstein, recebe um “cérebro de criança”.

Ainda não tive a oportunidade de o assistir, então me abstenho de interpretar, até que isso ocorra, qualquer coisa relacionada diretamente à trama. Meu foco aqui é apenas na questão das críticas em si e minhas considerações sobre isso. O que se pontua é que muito da história gira em torno de que a personagem passa por uma série de eventos que a levam à descobertas sobre, entre outras coisas, sua sexualidade, o que faria ter um “cérebro de criança” algo no mínimo questionável.

A resposta pra isso, tanto do diretor quanto da atriz e produtora que interpreta a personagem principal, Emma Stone, é de que o conceito é usado como uma analogia para o fato de seu cérebro ser “zerado”, tomado de extrema inocência e desconhecimento perante o mundo, ainda não dotado de subjetividade, e que em todo o filme os outros personagens a tratam exatamente como o que ela é, uma mulher adulta.

Não tenho qualquer pretensão de falar de algo sobre o qual não tenho conhecimento, então lhes pouparei de colocações mal feitas sobre teoria de psicologia e psicanálise. Se quiser ler algo bem fundamentado sobre isso, deixo ao final da postagem o link do texto “Pobres criaturas e nosso reflexo em seu espelho”, do psicanalista Douglas Rodrigues Barros para o blog da Editora Boitempo. Quanto as críticas, sob o pretexto de abrir uma portinha pro debate, faço meus apontamentos.

Arte é interpretação. Obviamente existem técnicas e modos do fazer artístico, mas o resultado final, uma vez lançado ao mundo, está sujeito às variadas interpretações de toda e qualquer pessoa que se expor e consumir aquele objeto artístico, cada qual com seus próprios mundos mentais, referências e subjetividades que moldam o olhar sobre as coisas, e que em grande parte diferem da visão e intenção do artista.

Dito isso, me soa profundamente preocupante que alguém assista um filme com a premissa de “Pobres Criaturas” e simplesmente o interprete da maneira mais direta e rasa possível, assim como me soaria muito estranho que alguém olhasse pra história do Monstro de Frankenstein, sua principal e mais clara referência, apenas como mais um livro de terror. A arte convertida em indústria e, consequentemente, em produto - sintoma do capitalismo - revela uma das facetas mais estranhas da mercantilização de tudo e da tendência a monopolização: a planificação das subjetividades.

Nosso modo de entender o mundo está tão cativo da modulação do gosto, em que tudo que chega pra ser consumido oferece a pergunta e a resposta, ou o mistério e sua resolução, sem espaço pra interpretações e dúvidas, que aos poucos nos tornamos cada vez menos capazes de olhar para algo além de seus limites objetivos e concretos, e pior, afunilando nossa cadeia de consumo cada vez mais, “universalizando” o gosto e ainda estabelecendo uma ideia de estranhamento a quem não aderir a isso. Para exemplos práticos sugiro - mas não recomendo - duas semanas de uso do Xwitter, a rede social falecida.

Um ex-professor costumava dizer que a gente sempre devia ter mais perguntas do que respostas, porque elas fecham os debates quando estes, num mundo ideal, não deveriam nunca se encerrar. Num momento histórico em que a formulação das subjetividades está rendida à essa homogeneização, onde se incentiva a sobreposição do coletivo pelo indivíduo, em que “ter a razão” ou “vencer o debate” são colocados como mais importantes que a reflexão em si, como desmanchar as certezas e incentivar a expansão dos limites do subjetivo?

Como eu disse antes, zero pretensões de tentar dar respostas pra coisas sobre as quais eu não tenho conhecimento. Meu objetivo aqui era exclusivamente tentar causar algum incômodo sobre isso, e se eu consegui ou não, aí fica a seu cargo me dizer. Talvez depois que assistir o filme escreva algo mais sobre o tema. Por hora, encerro.

Até a próxima.

Link para “Pobres criaturas e nosso reflexo em seu espelho”: https://blogdaboitempo.com.br/2024/02/27/pobres-criaturas-e-nosso-reflexo-em-seu-espelho/

 


quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

BR-116

 


Viajar de ônibus é uma merda. Sim, depois de uma longa série de textos reflexivos e que tocam em questões mais profundas da existência, tal qual um “Jim Carrey fazendo o filme do Sonic” da literatura, estou de volta ao que realmente me deixou famoso, ser muito azedo. Se por um acaso a parte da fama lhe parece estranha, não é problema meu, já que me permito viver com certo grau de ilusão. Voltemos.

Durante os quase 10 anos habitando a saudosa Serra da Mantiqueira, fazer viagens interurbanas se tornou parte da minha vida tanto quanto dormir todos os dias de edredom. Dizem que a gente se acostuma com certas coisas, especialmente se elas são rotineiras, mas fazer o trajeto Santos-Campos - e vice-versa - certamente não foi uma dessas coisas. Eu ainda prefiro lavar louça com água semicongelada na tubulação.

Veja só, minha intenção não é soar mesquinho e reclamar do inegável privilégio e oportunidade que tive de poder vivenciar tudo que se passou, que fique claro, mas ignorar um sentimento tão bonito quanto o stress dilacerante que a viagem causava seria um erro terrível. E, claro, estaria deixando de proporcionar entretenimento de qualidade pra vocês. Sigamos.

Nos primeiros anos, o caminho que eu percorria de ônibus era o seguinte: descia de Campos para Taubaté e de lá pegava outro pra Santos, com um intervalo de aproximadamente 1h30 entre as linhas. Parece bom, né? A pegadinha mora no fato de que, saindo de lá, parávamos em Caçapava, São José dos Campos, Mogi das Cruzes, Suzano, Ribeirão Pires e só então descíamos a serra em direção a Santos. Não parece tão ruim, à primeira vista, mas a conjuntura de fatores é que tornava a experiência tão desedificante.

Primeiramente, caso você não conheça a vetusta Taubaté, saiba que durante aproximadamente 90% do ano ela está uns 15ºC acima da temperatura de qualquer outro lugar, ou seja, saía do meu refúgio alpino com uma sensação térmica de “será se meus dedos congelam lá fora, hoje?” pra “OK, talvez ser atirado no Sol seja mais agradável que isso”. E nessa brincadeira, obviamente, uma crise avassaladora de rinite começava a se estabelecer, talvez uma tentativa do meu corpo de desviar minha atenção de todo o resto. Obrigado, corpo, mas você não estava ajudando em nada.

Subia no ônibus já abalado pela conjuntura, sabendo que dali pra frente, infelizmente, era só pra trás. Um suspiro breve de alívio se instituía passando por Caçapava e São José. Sobre a primeira, nada a declarar, passou completamente batida durante todo esse tempo. A segunda, pelo tamanho, sempre chamou um pouco mais a atenção, apesar de também não ser exatamente uma metrópole ultra fascinante. Acho que eu moraria por lá.

Antes de continuar lhes guiando através das bucólicas paisagens da Rodovia Presidente Dutra, vulgarmente conhecida como BR-116 (aqui o contrário também funciona, até porque Dutra foi um grandessíssimo canalha, pra dizer o mínimo), gostaria de tomar um pouco do tempo pra mencionar uma outra faceta dessa romaria reversa: estar dentro do ônibus.

Quis a entropia que meus genes produzissem um ser humano que ocupa muito espaço. Entrar no ônibus por si só já é uma tarefa inglória pra este que vos fala. Ocupar um banco de forma confortável, então, nem considero uma possibilidade.

A entropia, essa canalha, também quis - e continua querendo - que TODA VEZ A PESSOA DA MINHA FRENTE DEITE COMPLETAMENTE O BANCO. Eis o primeiro dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse Veicular Coletivo. Menção breve sobre os outros 3: a pessoa que senta do seu lado e quer bater papo a viagem toda, a que passa muito mal, mas não se previne com um Draminzinho e falta expelir o próprio intestino, garantindo aquele aroma ácido agradabilíssimo pros companheiros de estrada e, por último, mas não menos importante, a que pede pra diminuir a potência do ar-condicionado, proporcionando à todos desconforto térmico, como se todo o resto já não fosse desconfortável o bastante. Voltemos à estrada, pelamordeDeus.

Saindo de São José, o ônibus roda mais alguns quilômetros pela Dutra até a entrada pra Mogi, cidade pela qual eu nutro muito carinho e de onde parte da minha família vem e ainda reside. Gosto de Mogi, mas pra azar dela - e meu - o ônibus sempre chegava lá em horário de rush. E isso também valia pra Suzano. E Ribeirão. E pra toda a extensão da Índio Tibiriçá, a estrada quase vicinal que liga todas elas até a Anchieta, que, convenhamos, também não é exatamente um exemplo de conservação.

Muitos congestionamentos e neblina depois, enfim, o ônibus iniciava a descida pra Baixada. Daqui pra frente, nada a declarar a não ser a profunda sensação de alívio em saber que só faltava 1/10 do caminho pra sair daquela situação. Traduzindo tudo isso pra algo mais concreto, essa viagem toda levava, em média, de 6 a 10 horas. Traçando um comparativo, o trajeto total de carro não passa de 3. É só isso mesmo que eu tenho pra dizer.

Alguns anos fazendo esse trajeto me empurraram em direção à alternativa, definitivamente menos extensa, mas com um “plus a mais”, como dizem os jovens, que era ir pra São Paulo e cruzar a cidade do Tietê até o Jabaquara de metrô, outra experiência que ainda hoje evito sempre que possível, apesar de agora precisar vivê-la com certa frequência em razão do trabalho. Pelo menos me pagam pra isso.

Enfim, encerro aqui meu desabafo. Apesar dos pesares, olho com certo apreço pra tudo isso, afinal de contas, querendo ou não, toda a experiência me deu um tanto bom de habilidades pra me virar em situações insólitas que provavelmente não teria aprendido de outra forma.

Eu agradeceria aos ônibus, às rodoviárias e à BR-116 mas, pra azar de todos, não sou tão complacente assim.

Até a próxima.