terça-feira, 14 de janeiro de 2025

O Que Premia Um Prêmio?

 


Se tem uma coisa que eu posso chamar de falha de caráter enquanto escritor e amante de literatura é minha consciente displicência com a leitura de clássicos. Claro que li alguns dos mais conhecidos, especialmente durante o ensino médio, como meu amado “A Divina Comédia”, que ainda figura entre meus livros favoritos, mas sempre tive uma certa dificuldade de me conectar ou me atrair pelas grandes obras, nacionais ou não.

Essa conexão é, pra mim, o parâmetro mais importante de uma leitura. Por melhor escrito, tecnicamente apurado e com temáticas bem desenvolvidas e aprofundadas que seja, se o livro não dialogar em algum nível com o leitor, por mais que se insista, é grande a chance de a leitura ser lenta, arrastada e pouco proveitosa.

Claro que uma pessoa com hábito de leitura consegue contornar essas questões com alguma destreza, mas pra quem ainda está construindo essa relação, se forçar na leitura de uma obra com a qual a pessoa não se conecta costuma ter um efeito negativo. Confia em mim, tá tudo bem parar um livro que você achou chato no meio, o mais importante é não achar que a leitura “tem que” alguma coisa, ou que precisa ser mais uma coisa medida, registrada e quantificada como muito imbecil que gosta de incentivar essa nóia por produtividade costuma espalhar por aí. Leitura tem que ser prazerosa.

Agora, encerrando mais um capítulo da minha tradição de escrever introduções excessivamente longas, por que diabos entrei nessa reflexão? A resposta, direta e reta, é por causa dos dois últimos livros que li, “Sobre os Ossos dos Mortos” e “A Vegetariana”, ambos escritos por autoras que ganharam o Nobel de Literatura. Sobre ele falo um pouco mais pra frente, mas antes faço uma breve sinopse sobre os livros e faço algumas considerações do porquê escrevi esse texto.

“Sobre os Ossos dos Mortos”, da polonesa Olga Tokarczuk, narra os eventos ao redor de três assassinatos, todos aparentemente resultado da ação de animais selvagens, sob a perspectiva de Janina Dusheiko, professora aposentada e astróloga amadora - fato que, confesso, me ejetou da leitura algumas vezes porque não consigo deixar de achar astrologia uma grande bobajada - que vive nos arredores de uma cidadezinha já bastante isolada.

Colocado de lado seu inegável primor técnico, existe algo de previsível na narrativa, o que torna a reviravolta final entre zero e pouco chocante. O desfecho, na verdade, soa como a coisa mais provável por toda a história, e o que me prendeu na leitura foi exatamente a expectativa pela quebra dessa previsibilidade, pela constatação de que, de fato, haveria algo de sobrenatural operando naquele lugar. Gostei do livro, ao contrário do que possa parecer, mas senti falta de algo que provocasse um senso um pouco mais profundo de mistério e dúvida sobre as possibilidades.

“A Vegetariana”, assim como “Sobre os Ossos”, é impecável num sentido técnico, talvez até mais, além de ter uma dinâmica incrível que me fez, mesmo pouco entusiasmado com a narrativa, não conseguir parar de ler e terminá-lo em 3 dias. Nele, a coreana Han Kang narra o desenrolar da vida de uma mulher que, após um pesadelo, decide parar de ingerir quaisquer alimentos de origem animal, o que gera desdobramentos radicais e inesperados em todos da sua família, explorando questões como controle sobre o corpo e desejo feminino, culpa, saúde mental e exploração animal.

O que me incomodou na leitura, nesse caso, foi exatamente o que em tese me parece um artifício de metalinguagem para abordar essas temáticas: a história é contada sob a perspectiva do marido, do cunhado e da irmã da protagonista, meio que em segunda pessoa - talvez, não sei, desculpem minha ignorância e esquecimento nesse sentido, mas passei a última década não estudando teoria literária - o que, ao menos pra mim, gerou um descolamento das situações e desdobramentos subsequentes à revelação do vegetarianismo para a protagonista. Você simpatiza com ela, mas mais porque as pessoas ao redor estão o tempo todo tentando conduzir sua vida do que pela construção da personagem.

Reitero, essas percepções são puramente pessoais e singulares da minha experiência com ambos os livros, inclusive recomendo a leitura dos dois, até porque não recomendaria algo que não me fizesse pensar por pelo menos alguns dias sobre, como é o caso, mas é aí que, por fim, me vem a pergunta: o que premia, de fato, um prêmio? O que faz um clássico ser um clássico? Não tenho dúvida de que o conhecimento prévio de que ambos foram escritos por autoras premiadas com o Nobel teve um impacto significativo na experiência. A expectativa de que estaria adentrando narrativas superlativas movimenta conceitos altamente subjetivos sobre o que é ser superlativo, e mesmo tendo alguma capacidade de entender o primor técnico das obras, é impossível não ter uma certa decepção quando as expectativas não são atendidas.

Coincidentemente termino de escrever essa crônica pouco tempo depois de Fernanda Torres receber o Globo de Ouro de Melhor Atriz em Filme de Drama por sua atuação em “Ainda Estou Aqui”. Toda a discussão ao redor do filme à parte, me chamou a atenção a fala dela, assim como a de Selton Mello em algumas entrevistas, de que já estavam muito lisonjeados simplesmente por estarem ali, dividindo o espaço com outros grandes nomes da indústria e levando o cinema brasileiro para o mundo, e que isso por si só já era um grande prêmio.

Talvez meu ponto aqui seja esse. Existe uma ânsia bizarra do mundo em colocar as coisas em comparativo conflitivo e alguém precisa nos dizer qual o melhor. É claro, como já coloquei em algum texto anterior, existem certos parâmetros objetivos pra se estabelecer qualidade, mas quando esses parâmetros e a técnica se sobressaem ao conteúdo, o que fica é uma linda casca vazia: se vê a beleza, mas ela é preenchida por nada.

Voltando aos “Ossos dos Mortos” e “A Vegetariana”, não posso afirmar que esse seja o caso. Existe sim muito que se tirar de ambas as obras, mas ao refletir sobre elas sob a perspectiva de terem grande relevância na consagração de suas autoras com o Nobel de Literatura, me pergunto o que exatamente foi considerado pra além das metáforas elusivas que são colocadas na justificativa pública no site do Instituto Nobel - e que você pode conferir no link - pra estabelecer o ganhador. Tenho muitos tópicos elencados pra responder essa pergunta - questões geopolíticas, históricas, enfim, temas que demandariam muito mais que uma crônica pra desenvolver - mas que ainda assim não parecem conseguir montar o quadro completo.

É fato que ter seu trabalho reconhecido é extremamente gratificante, mas esse reconhecimento não passa necessariamente por uma premiação institucional, ou ao menos não deveria. Em alguma dimensão, o prêmio talvez seja mais importante para quem premia e quem observa do que para o próprio premiado, por alguns dos motivos citados acima. Não é meu objetivo aqui chegar a uma conclusão nem dizer o que deveria ou não guiar suas escolhas para o que você consome, é só te dar aquela cutucada pra estar sempre aberto a refletir o motivo de fazer as escolhas que você faz e colocá-las sob perspectiva, além de, claro, não se fechar para o novo, seja contemporâneo ou clássico.

Dito isso, não se engane, também escrevi esse texto pra mim mesmo, como um lembrete pessoal de que preciso me manter atento pra não cair no erro de deixar passar obras que podem enriquecer meu próprio fazer literário. Infelizmente não posso passar cada segundo do meu dia lendo, então sigo nessa missão no ritmo do possível e não do desejado.

 

Até a próxima.



Link para lista de ganhadores do Nobel: https://www.nobelprize.org/prizes/lists/all-nobel-prizes-in-literature/ 

terça-feira, 17 de dezembro de 2024

Papai Noel Velho Batuta

 

Estávamos algumas semanas atrás eu e meu pai assistindo o jornal local no horário do almoço. Como nunca acontece nada de relevante por aqui - a não ser, claro, quando mais uma criança preta e periférica é assassinada pela polícia - as notícias costumam girar em torno de coisas inócuas pra deixar a população santista feliz e alegre na cidade com - consta, sabe-se lá que recorte e parâmetros foram usados pra isso - um dos melhores índices de qualidade de vida do país. ÊÊÊÊÊÊÊ. Chegando ao fim do ano, obviamente, o tema da vez é Natal.

Chegou o momento de Papais e Mamães Noéis, duendes, renas, pinheiros e caminhões cafonas de marca de refrigerante começarem a tomar conta de tudo, e as pessoas se aglomeram em qualquer lugar onde anunciem que vai ter uma chegada do bom velhinho. Vendo aquelas cenas de absoluto deslumbramento de gente de todas as idades com o clima de inverno fake, entramos no seguinte debate: será que uma criança que cresce imersa num ambiente excessivamente fantasioso vai se tornar um adulto capaz de compreender a realidade de forma aprofundada, considerando que a chance de ela virar uma pessoa muito alienada é grande, se o ambiente e a cultura familiar não a levarem a refletir sobre as coisas que ela vivencia? Adiantando minha conclusão, digo que depende, porém explico.

Recentemente vi a participação do Guilherme Terreri, professor e produtor de conteúdo que dá vida à drag queen Rita Von Hunty, falando em um podcast sobre cinema como a indústria cultural ocidental criou um fenômeno psicológico assustador, em que as pessoas não conseguem pensar o futuro do mundo que não seja um em que, inexoravelmente, sejamos jogados num apocalipse absoluto, pensamento elaborado de forma mais complexa pelo teórico britânico Mark Fisher, em seu livro “Realismo Capitalista”, condensado no questionamento “é mais fácil imaginar o fim do mundo que o fim do capitalismo?”.

Essa conversa no podcast me fez lembrar de dois filmes lançados em datas aproximadas, se me recordo bem, durante os momentos finais da pandemia: “Terra à Deriva”, produção chinesa, e “Destruição Final: o último refúgio”, filme estadunidense. Antes de mais nada, os dois são bem medianos, com “Destruição Final” sendo um tanto pior, mas segue um sinopse rápida de cada um.

“Terra à Deriva” se desenrola num hipotético ano 2500 em que o Sol, na iminência de se tornar uma gigante vermelha, ameaça a existência da Terra e, obviamente, de tudo que tem nela. O mundo então se une pra desenvolver um sistema show de propulsores que vão levar o planeta pra órbita de outra estrela, e o filme acompanha um grupo de pessoas que precisa garantir que o sistema funcione pra salvar todo mundo e garantir nosso futuro. Pelo menos uma dezena de problemas relativos à física e astrofísica à parte, rola bem numa sessão de “filmes pra não realizar uma única sinapse por pelo menos 1h30”.

“Destruição Final”, por sua vez, mostra a viagem de uma família em busca de refúgio numa Terra relativamente contemporânea, ameaçada pelo possível impacto de um cometa. Ao longo do caminho se deparam com uma série de atribulações ao lidar com uma humanidade já sem qualquer esperança de sobrevivência ao cataclisma que se aproxima. Particularmente acho meio sofrível, mas considerando que meu filme preferido de apocalipse é “The Omega Code 2: Megiddo”, minha avaliação sobre a qualidade aqui é completamente irrelevante.

O ponto a ser observado e que coloca os dois filmes em direções opostas, ainda que tenham temáticas relativamente parecidas, é a visão do possível que cada um projeta. O filme estadunidense lida com a proximidade do fim partindo do pressuposto de que a maior parte da sociedade simplesmente abandonaria qualquer resquício de civilidade e sucumbiria à barbárie sem pensar duas vezes, enquanto alguns poucos selecionados - vide gente rica, militares ou que apresentem alguma habilidade técnica específica - teriam a possibilidade de se refugiarem em bunkers ultra seguros, claramente construídos há muito tempo pra lidar com uma eventualidade como essa.

Filmes hollywoodianos de fim do mundo, de modo geral, só caminham em duas direções possíveis: dor, trevas e o absoluto colapso da sociedade ou, o que eu acho ainda pior, um único guerreirinho escolhido pelo motivo mais esdrúxulo possível pra salvar a humanidade, com a narrativa tentando te empurrar goela abaixo o tempo todo que ele resolve tudo sozinho porque sim. Eu poderia citar vários - inclusive o próprio Megiddo - mas acho que você consegue lembrar de algum que bate com uma dessas descrições com certa facilidade.

O filmes chinês, por sua vez, aponta na direção completamente oposta. O mundo inteiro, sabendo que a ameaça era real e não demoraria muito pra acontecer, se junta e desempenha um esforço coletivo pra criar um sistema global capaz de impedir o fim. Pela sinopse, acho que ficou claro que não acho um grande filme, mas nem é isso que é relevante. Perceba aqui o ponto a que quero chegar: a visão dos realizadores é de que dá sim pra imaginar um futuro e um mundo onde o coletivo empenha esforços pra garantir nossa sobrevivência.

Volto então ao questionamento inicial. Acho que o fator determinante pra que uma criança, ao crescer, desenvolva uma visão limitada de mundo não é estar imersa demais em estímulos fantasiosos, mas como esses estímulos são direcionados e apresentados pra ela e, ainda mais importante, que haja cuidado para que eles não se tornem mais do que boas lembranças e essa criança não se torne o adulto que as transforma em traço de personalidade - vide minha crônica “A Vida, o Universo e Só Mais Umas Coisinhas” - passa horas defendendo empresa bilionária na internet por causa de filme de super-herói - os também chamados “filmes de hominho”.

A fantasia é necessária pra que a criança seja capaz de imaginar e vislumbrar um futuro que, pra maioria das pessoas, é constantemente negado, algo inclusive abordado na conversa dos escritores - respectivamente angolano e moçambicano - José Eduardo Agualusa e Mia Couto que ocorreu pouco mais de um mês atrás na Tarrafa Literária. É necessário que sejamos capazes de sonhar com um mundo pra além da violência, medo e desesperança que nos empurram goela abaixo diariamente em cada noticiário transmitido em um canal de TV. É necessário que sejamos capazes de sonhar com o fim de um sistema que se fortalece com nosso esgotamento. Sendo então capazes de sonhar, que estejamos preparados pra atuar na construção desse mundo, pra que no futuro, mesmo que não o vejamos, nenhuma outra criança vire notícia por causa da bala que atravessou suas costas.

Até a próxima.

 


quinta-feira, 24 de outubro de 2024

Flip-se

 


Estive na Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, pela primeira vez em 2017, com alguns textos não acadêmicos já escritos, mas absolutamente sem nenhuma pretensão de me tornar um escritor. Sendo sincero, em 2017 eu não fazia ideia do caminho a seguir, mas deixo esse assunto pra outra hora, já que falar sobre isso requereria um tempo considerável, então voltemos.

Relatei muitas vezes meu amor pela leitura, então não é difícil imaginar que estar imerso num ambiente onde - quase - tudo gira em torno da literatura me causa uma comoção enorme, assim como o fim do evento gera uma certa melancolia, quase na mesma proporção. Quase porque esse não é o tipo de coisa que se vivencia e logo se esquece, e hoje, aos 30, muito mais maduro e compartilhando do ofício literário, o retorno à Flip ganhou uma outra dimensão: ouvir tantas pessoas que fazem da palavra sua ferramenta reafirmou minha vontade de continuar e me trouxe novas perspectivas sobre o escrever.

Esse, inclusive, foi o grande tópico informal dessa edição, recorrente em quase todas as mesas e debates que assisti, o fazer literário. Algo bastante natural, diga-se de passagem, considerando que a obra é, de formas variadas, uma extensão do artista e seu jeito de organizar a realidade, tanto pelo que se registra quanto pelo que se omite. Como dizem na música, o silêncio também é parte da composição.

Poder ver ao vivo alguns de meus autores e autoras favoritos da atualidade, como Carla Madeira, Jefferson Tenório, Socorro Acioli e Mohammed Sarr falando sobre seus processos criativos, o que move suas escritas, referências e, acima de tudo, de sua paixão pelos livros não foi apenas combustível pro eu-presente, escritor, mas também um aceno pro Andrézinho que se refugiava em livros incansavelmente, ainda sem saber que aquilo tudo serviria de base pro que estava por vir, mas sempre ávido por transitar entre páginas e palavras, imaginando como seria o mundo se elas transbordassem pro real.

Eis aqui a dimensão da literatura que mais conversa com a pessoa que me tornei. O imaginar não se restringe apenas ao exercício de abstração sobre outras realidades, mas acreditar que a realidade pode ser outra. Não vejo nada como utópico, apenas colossalmente difícil, em muitos casos, e exatamente por isso requer que nos empenhemos, na medida e da forma que forem possíveis a cada um, em construir as condições que propiciem a mudança. Estar lá só reafirmou minhas convicções e, como sempre, reiterou o quanto a literatura pode ser transformadora.

Seria atestar o óbvio, contudo, dizer que nada é perfeito, e a Flip também carrega suas contradições. Já que é um evento literário, começo falando exatamente sobre os protagonistas: os livros. Sabemos que os comprar nunca foi exatamente barato, mas o que se espera de um espaço que visa debate-los e incentivar seu consumo é que estejam disponíveis, ao menos, com valores mais convidativos, e o que se viu foi exatamente o contrário.

Paraty é uma cidade turística e sofre com as mesmas coisas que qualquer outra cidade que carregue esse fardo sofre, então quem vai até lá já espera que os custos sejam singulares, sendo bastante gentil. Existe, no entanto, uma característica muito própria da Flip que é a grande presença de pessoas - turistas ou locais - que trabalham com arte e educação. É certo que existem exceções, mas em ambas as categorias a realidade é a de que, no geral, docentes e artistas não levam uma vida de abundância e grande estabilidade financeira. Participar de um evento como esse, em muitos casos, exige muito planejamento e antecipação, reserva de estadia muitos meses antes, pra pagar em suaves prestações e algum estudo da cidade pra saber onde comer e o que fazer sem comprometer economicamente sua vida depois de voltar pra ela.

Ao menos no centro histórico da cidade, onde ocorrem a maior parte das atividades da festa, cria-se uma bolha de quase absoluto isolamento da realidade social de Paraty como, novamente, em boa parte das cidades que dependem do turismo pra sobreviver. Vi por muitos anos essa mesma discrepância em Campos do Jordão, em que assim como lá não é necessário se afastar muito do epicentro turístico pra começar a se deparar com a materialidade que rege a vida das pessoas naquele espaço. A inacessibilidade do que move a cidade pra quem sustenta essa dinâmica é de uma crueldade assustadoramente recorrente.

Falando em inacessível, essa é uma questão ambígua. É difícil falar sobre acessibilidade quando a própria constituição física e arquitetônica da cidade não proporciona condições pra que ocorram mudanças significativas na estrutura de acesso de pessoas com mobilidade reduzida, seja por portarem alguma deficiência física ou em função da idade, por exemplo. Caso essa informação lhe escape, o centro da cidade é tombado como patrimônio histórico pelo IPHAN, o que não permite obras que a descaracterizem, como a pavimentação de vias que permitissem e facilitassem o acesso.

Vejo algumas iniciativas ocorrendo pra que isso seja sanado, como o projeto de uma rota de acessibilidade de um aluno de mestrado do IPHAN ou a expansão de atividades e eventos ocorrendo em pontos fora do centro histórico, mas ainda é muito pouco. São 22 edições e 21 anos de existência, me parece tempo o suficiente pra que soluções fossem pensadas.

Enquanto pensava sobre como relatar o que vivi nos 4 dias de evento, li alguns textos sobre a FLIP. Todos são muito bem escritos, flutuando entre elogios e figuras de linguagem num mar de exaltações às virtudes da festa. Não os nego, claro, acho que já deixei bem claro o quanto acho importante que eventos como esse existam, mas me incomoda o pouco que se fala sobre suas contradições. Escolhi deliberadamente não falar sobre a programação em si porque disso se encontra artigos aos montes pelas vielas esburacadas da internet, muito mais competentes em analisar as obras de palestrantes e entrevistados do que eu.

Tento me ater à ideia de que ressaltar essas contradições adiciona uma outra camada ao que é vivenciar um evento como a Flip. Às vezes nos foge o fato de que momentos como esse são reflexos e parte constituinte do tempo em que se inserem, e para entender seu impacto - não só da literatura, objeto central da feira - se faz necessário olhar pra suas contradições e colocá-las em perspectiva, à fim de entender por quê e pra quem são realizados. Se as reflexões e impactos de uma festa literária se dissolvem com seu fim ou nas mentes de uma classe que pouco se importa que cheguem em quem mais poderia se beneficiar de sua realização, que diferença faz existir?

 

Até a próxima.

 

terça-feira, 1 de outubro de 2024

Guia Abstrato da Gastronomia Santista

 


Tem uma pizzaria na esquina de casa pela qual passo com alguma frequência, e toda vez me surge a mesma pergunta: como ela sempre tem movimento? Não vou mentir, faz mais de uma década que comi alguma coisa feita lá e seria desonesto fazer qualquer afirmação, mas tendo aquela experiência como parâmetro, poderia dizer sem pensar muito que, depois desse tempo todo, nem aberta ela deveria estar. Por quê, então, continua bombando?

Sendo sincero, essa é uma pergunta que passa pela minha cabeça quando olho pro cenário gastronômico santista como um todo, e naturalmente não sou o primeiro e nem serei o último a constatar esse fato, mas considero de suma importância que qualquer pessoa com um pingo de consciência sobre a questão se manifeste. O centro desse debate, a meu ver, está intimamente ligado com uma coisa que eu já levantei um bom tempo atrás, quando falei sobre a experiência gastronômica, essa ideia tosca de criar toda uma narrativa mequetrefe pra servir ao cliente exatamente o que ele quer e espera.

Partindo desse pressuposto, será que o que o cliente quer é, de fato, o que ele quer? Quais são os parâmetros construídos no gosto dessa pessoa, ditando suas escolhas, e quem os estabeleceu? Eis aqui um ponto crucial. A indústria alimentar vem modulando nosso gosto desde sempre e interfere até em coisas que parecem simples,

Traçada essa pequena introdução sobre gosto, qualidade e o que buscam as pessoas quando vão a um restaurante ou pedem um delivery, convoco o André-ranzinza, o mesmo que já destilou muita raiva e estresse com QR codes e ciclistas - percebam o padrão, talvez a maresia esteja corroendo minha paciência - pra fazer um pequeno retrato do que é tentar comer nessa cidade, uma tarefa árdua.

Não tô falando de ingerir alimento, se empanturrar, deglutir massa orgânica, minha referência é sobre botar pra dentro alguma coisa que te faça pensar, e pensar se realmente é possível fazer aquilo com comida. Particularmente só conheço três lugares e meio que conseguem plenamente essa proeza. Antes que me esqueça, não pretendo citar nomes. Se quiser saber quais são, pode entrar em contato com o SAC - que no caso sou eu mesmo - e uma lista de recomendações será gentil e alegremente compartilhada com você. Prossigamos.

De forma geral, além de meio covarde, as opções são limitadíssimas. Não em números, já que sequer é necessário rodar pela cidade pra constatar esse fato, basta entrar no Ifood pra ver uma lista desproporcionalmente grande de estabelecimentos em relação ao tamanho de Santos. Não seria problema se essa lista não se limitasse a cinco opções: hamburguerias, pizzarias/esfiharias, restaurantes japoneses/temakerias/lugares que fazem poke, restaurantes italianos e bares/ locais focados em porções. Óbvio, tô exagerando um pouco, existem outras coisas, mas em números muito mais tímidos.

Não acho que seria propriamente um problema essa falta de variedade se fosse possível encontrar um número razoável de lugares que entregasse alguma coisa diferente, mas não. Todos são uma metralhadora de cópias toscas de alguma coisa que nem sequer existe mais aqui, e tenho dúvidas se algum dia existiu. Vá nesses tipos e encontrará praticamente a mesma coisa, tanto em variedade quanto em qualidade, com uma ou outra especificidade, mas nada que seja digno de destaque, uma horizontalidade insana de medianidade.

O maior pecado nesse quesito, a meu ver, é o que acontece com os restaurantes japoneses ou qualquer lugar que sirva pescados no geral. Como diabos uma cidade costeira, com um mercado de peixes bastante estruturado e com uma variedade razoável de bichos frescos e encontrados na nossa costa consegue ter tantos restaurantes que ficam restritos quase que exclusivamente a salmão, tilápia e outros pescados de qualidade duvidosa, que viajam milhares de quilômetros, são criados à base de ração vagabunda em condições questionáveis e passam meses sendo congelados e descongelados? Eis uma das provas de que a indústria de alimentos empurra qualquer merda goela abaixo da galera sob uma camadinha boa de verniz.

Outra questão de altíssima relevância pra esse debate é o custo. Cacete, como é caro comer em Santos. Voltando em outro tópico já abordado anteriormente, resgato minha colocação sobre a padaria que ficava próxima à faculdade onde estava estudando. Aquele lugar é horrível, mas não finge ser o que não é, se dá por satisfeito em ser uma tranqueira e tudo certo. Acho que de alguma forma não seria problema se ao menos fosse barato, mas não. Continuo vendo certa dignidade nessa auto aceitação, mas é quase impossível sair de lá sem se sentir muito otário, porque sim, você vai pagar caro e vai se arrepender de comer.

Contudo, veja só. Na esquina seguinte, infelizmente fechando às 19h, o que não me permitia fazer um lanche nos intervalos de aula, durante a semana, fica um “bar&lanches” bastante conhecido que faz coisas infinitamente melhores com um preço muito parecido. Colocados em perspectiva, fica fácil sacar que, indo no segundo, não fica a sensação de que foi caro. Existe uma explicação histórica - que eu considero bastante plausível, ainda que nunca tenha me debruçado sobre o tema com a devida atenção - pro custo das coisas aqui.

Consta que com a crescente força dos movimentos sociais e trabalhistas/sindicais na Baixada, principalmente ligados ao porto, por volta dos anos 60, a burguesia local achou de bom tom se movimentar pra ferrar com a vida dos trabalhadores - ora ora, que novidade - e coibir o avanço da organização dos mesmos. Como isso foi feito? Regulando preços de forma a aumentar o custo de vida da população pra que o receio de não conseguir manter o básico de suas vidas fosse maior que a coragem de lutar por melhores dias, e cá estamos, décadas depois ainda sofrendo os efeitos dessa canalhice, ainda mais afundados nesse lamaçal.

Um outro fator que adiciona complexidade na situação é a famigerada arrogância da classe média santista. Lembra que eu falei lá em cima de como o conceito de experiência impulsiona a ideia de entregar o que o cliente quer ou, como dizem por aí, “encantar o cliente”? Se tem uma coisa que o santista clássico gosta, quase clama, é ser servido quando e como ele quer, como se fosse detentor de um lugar fixo na fila de prioridade do Universo, implorando por ser adulado como uma criança sem freio pros seus impulsos.

Esse é um fato bastante fácil de ser constatado, já que basta um tempinho sentado numa mesa de um estabelecimento qualquer pra ouvir meia dúzia de histórias ao redor sobre a gloriosa e singular existência de alguém. Acredito que não seja necessário dizer que isso é uma generalização funcional, que serve apenas ao propósito de elencar os porquês, mas nunca é demais reforçar. Além do mais, o que digo dos clientes se reflete no empresariado, num ciclo de retroalimentação ególatra que também limita qualquer impulso de que algo novo surja.

Eis então que chego à algumas respostas. A falta de parâmetro leva embora com ela a possibilidade de que se crie até um senso mais apurado da relação entre custo e benefício, que fica quase exclusivamente atrelado ao “mais por menos”. Ao longo do meu caminho gastronômico, tanto profissional quanto acadêmico, vi isso acontecer de diversas formas, mas poucos lugares conseguem acentuar essa discrepância como Santos, especialmente por saber que é possível fazer melhor.

Existe, na contramão de todos esses fatores que levantei aqui, um movimento sério pra que se estabeleça uma gastronomia respeitável na cidade. Ainda que tímido, dá sinais de que o futuro é promissor. Espero sinceramente que as pessoas estejam abraçando quem está conduzindo esse processo como eu acredito que estão, porque essa galera tá operando em nível altíssimo. Meu sonho é que essa qualidade se capilarize, não só horizontalmente, já que esses lugares ainda são caros e atendem um público restrito, mas que locais com propostas mais simples e despretensiosas entendam que é possível fazer comida barata e com qualidade. E mais, que entendam que fazer isso acontecer também passa por apoiar ideais e políticas que lutem pra que quem produz alimento real, fresco e desvencilhado da lógica insana de produção irrefreada e hiperprocessamento da grande indústria seja devidamente valorizado, já que são essas pessoas que produzem 75% do que chega nas nossas mesas, caseiras ou não.

Depois de 12 anos pensando e fazendo comida, não acho que nenhuma das duas tarefas se tornou mais simples. A complexificação do processo, porém, me trouxe também bagagem o bastante pra não só entender meu processo e apurar minha cozinha, como também pra ao menos identificar com alguma clareza as virtudes e falhas na panela alheia. Não sou nenhuma sumidade e tenho total consciência de que pra tudo que eu sei, existe uma infinidade de entendimentos que me escapam, especialmente pela minha deserção da profissionalidade do ofício alguns anos atrás.

Tudo isso ao menos me deu alguma credibilidade pra que as pessoas ao meu redor tenham abraçado o que tenho pra dizer e começam elas também a espalhar as ideias aqui contidas. Comecei escrevendo com a pretensão de que isso aqui fosse uma espécie de anti-guia gastronômico santista e acabei divagando um pouco, mas não importa. Como sempre, acho que me fiz claro. Penso que mais importante do que te dizer onde comer ou não, minha busca é incentivar que as pessoas entendam o que estão comendo. Talvez um dia eu desenvolva algo mais objetivo sobre essa questão, acho que as pessoas merecem esse suporte. Como já disse anteriormente, é péssimo se sentir otário com comida, e isso é fácil demais por aqui.

Até a próxima.

segunda-feira, 23 de setembro de 2024

Quem Se Lê - Comentários Sobre “A Mais Recôndita Memória dos Homens”

 




Semanas atrás, por ocasião da comemoração número 2 do aniversário de um grande amigo, estive em São Paulo. Já mencionei diversas vezes o quanto odeio aquilo tudo, o barulho, o ar, a indiferença, a velocidade, os abismos, São Paulo é atroz em cada esquina. Contudo, algumas pessoas que amo muito - e meu ganha-pão, diga-se de passagem - estão lá, então como um bom adulto funcional numa sociedade esquisita como a nossa, engulo meu choro e subo no ônibus pra encarar meu desdém metropolitano em prol das coisas boas da minha vida.

Nesses momentos de alienação do caos surgem boas surpresas, e entre elas está uma das livrarias que eu mais gosto, a Megafauna, no meio da galeria interna do Copan, da qual sempre que entro saio com um ou dois livros. Foi lá que encontrei sem querer meu queridíssimo “Como Escrever Bem”, citado mais de uma vez em textos anteriores. Nessa última ida estive lá novamente e mais uma vez trouxe livros comigo. Um deles é Uma Noite com Sabrina Love, do autor argentino Pedro Mairal, do qual já li outros dois romances, A Uruguaia e Salvatierra, ambos muito bem escritos, além de razoavelmente curtos - fica a sugestão pra você que não tem muita paciência pra histórias enormes e prolixas como eu.

O outro, recém terminado, é A Mais Recôndita Memória dos Homens, do senegalês Mohamed Mbougar Sarr, vencedor do prêmio Goncourt, o mais importante da língua francesa, exatamente por esse livro. Poderia passar vários parágrafos discorrendo sobre suas diversas temáticas, contando sobre a história, mas como já mencionei anteriormente não me dou com a tarefa de resenhista - ao menos não escrita - então serei o mais breve possível sobre a narrativa.

O romance narra, sob diversos pontos de vista, o impacto causado no meio literário francês por um livro escrito por T. C. Elimane, autor elusivo e recluso do qual pouco se sabe pra além do fato de ser africano, palavra escolhida pelo autor pra indicar que 1º: por boa parte da história sequer sabemos qual a sua nacionalidade e 2º: deixar claro que muitos dos personagens que se referem à Elimane, sendo europeus, ainda que se vejam progressistas, têm um olhar carregado de preconceitos, ainda mais típico do período em que se passa parte da narrativa, no pré-Segunda Guerra.

Não vou falar muito mais porque recomendo a leitura. Infelizmente não é um livro barato, então vale ficar de olho em promoções, ainda mais agora que estamos nos aproximando da Black Friday, mas caso a curiosidade fale mais alto, prometo que é um gasto que não vai causar arrependimentos. Voltemos ao que importa e o porquê de eu estar escrevendo esse texto.

Ainda que o foco narrativo seja em Elimane e seu livro O Labirinto do Inumano, tão elusivo quanto o próprio criador, o olhar que conduz a narrativa e nos leva para outros personagens e situações é o de Diégane, jovem autor senegalês expatriado na França - e nosso contemporâneo - que busca reconstruir a história de T. C. em busca de sua própria, não só no sentido pessoal como também no literário, tentando descobrir o que escrever em seu próximo livro. Sua jornada cruza a de outros expatriados, migrantes, escritoras e escritores do presente e do passado que de alguma forma também tiveram suas vidas atravessadas pelo autor.

Todos esses olhares dentro da trama são tão bem desenvolvidos que não seria exagero afirmar que cada personagem poderia ter um livro inteiro pra chamar de seu, e poderia passar mais um tempão aqui falando sobre cada um, mas de novo, o objetivo é outro. Fiz essa introdução gigantesca e esqueci de dizer sobre o que eu vim falar aqui: leitura e escrita.

Durante boa parte do texto 3 perguntas surgiam recorrentemente nas entrelinhas: o quê, por quê e para que escrever. Muitos dos dilemas e angústias das personagens, ligadas em maior ou menor grau com a literatura, orbitavam em torno desses questionamentos, não necessariamente porque escreviam ou escreveriam, mas porque o ato de registrar está intimamente ligado com a memória e esse sim é o grande pilar da obra.

Se por um lado escrever é não esquecer e não se deixar ser esquecido, a leitura surge como a porta pra memória do outro. Obviamente essa não é uma análise inédita e A Mais Recôndita Memória dos Homens não será a última obra a tratar de memória nesses termos, mas existe algo mais, aqui. Diégane busca o tempo todo remontar a história de Elimane não só pra entender o quanto do autor é a obra e vice-versa, mas porque precisa entendê-lo para entender a si mesmo.

Ler O Labirinto do Inumano é acessar uma dimensão de si que, mesmo que acredite estar bem resolvida internamente, o arrasta pra um sentimento comum dos expatriados, que é a falta de certeza. O quanto de si e sua obra é sua terra-mãe, sua cultura natal e seus parentes e amigos conterrâneos e o quanto é dos que colonizaram seu povo, desse país pra onde tantos como ele se deslocaram na tentativa de registrarem sua obra-memória em um lugar que os espalhe? Ou será ainda que isso tudo só serve de sustentação pra algo totalmente novo, e essas pessoas serão sempre a dialética entre esses dois lugares que ciclicamente os acolhe e rejeita?

A escrita e a leitura se tornam então a forma como não só Diégane, mas boa parte das pessoas que cruzam seu caminho, encontram pra tentar organizar todas essas dimensões do ser. O que importa, contudo, não é a organização, ou as respostas em si, mas essa busca. Sem ser claro pra não dar spoilers, o final do livro diz, ao não dizer muito, exatamente isso. Nosso narrador encontra algumas respostas, mas elas geram ainda mais dúvidas que provavelmente nunca serão respondidas, e Sarr faz isso com a gente assim como Elimane fez com Diégane.

Não sei se, de forma generalizada, quem escreve o faz com esse intuito, mas à medida que a narrativa avançava, me senti mais e mais conectado com esse sentimento. Por diversas vezes ao longo da leitura pensei nos motivos que me levaram a iniciar essa empreitada literária, e sempre que acreditava chegar numa possível resposta, outro pedaço da narrativa me conduzia pra um novo questionamento, e as reflexões reiniciavam e se retroalimentavam.

Tive muita dificuldade pra escrever esse texto, em grande parte porque ainda não consegui elaborar completamente todos os sentimentos que me transpassaram ao longo da leitura, mas precisava escrever. Talvez esse fosse o objetivo, estabelecer a ideia de movimento ininterrupto dentro e fora da narrativa. Não vou abstrair pra muito além disso, acredito que toquei nos assuntos e abri as discussões que pretendia. Espero encarecidamente que essa leitura possa te levar ao livro como ele me trouxe até aqui e que te permita tantas reflexões quanto me permitiu. Talvez retorne a ele em outro momento, pois sem dúvida, tendo novos questionamentos, é quase inevitável encontrar novas respostas.

 

Até a próxima.