quinta-feira, 29 de agosto de 2024

Retratos do Tempo Presente

 


Em 2023 me deu na telha começar um hobby novo. Temos há alguns anos uma câmera digital bastante robusta que meu pai comprou usada de um amigo fotógrafo, que um tempo depois inclusive se ofereceu pra comprar de volta, caso pensássemos em nos desfazer dela. Não só não pensamos como continuamos usando com bastante frequência, então resolvi explorar os recursos disponíveis e quem sabe, de repente, aprender um pouco sobre fotografia.

Como os algoritmos não estão pra brincadeira, mal comecei a buscar vídeos sobre iluminação, velocidade de obturador, ISO e outras particularidades desse mundo e uma enxurrada de conteúdo relacionado começou a brotar em todos os meios possíveis. Curiosamente, o que acabou por ficar mais em evidência no meio disso tudo foi um volume considerável de páginas e perfis de rede social voltados pra fotografia analógica.

Lembro que até meus 11 ou 12 anos tínhamos uma máquina cinza-prateada que nos acompanhou por anos. Não me recordo de marca ou modelo, mas praticamente toda a minha infância foi registrada através dela. Que privilégio é ter registros da própria vida. Não só as paredes de casa sustentam quadros com fotos de diversas fases do pequeno André e companhia limitada como temos uma gavetona numa estante de livros cheia de outros registros ainda mais velhos do que eu.

Pouco tempo depois migramos pras digitais, e vejam só que curioso: entre defeitos e trocas de computadores, acabamos perdendo uma quantidade considerável de imagens feitas com elas. Muita coisa ainda sobrevive num HD externo que resiste ao teste do tempo, mas muito menos do que havia antes. As fotografias reveladas, por sua vez, não, continuam aqui, com um pouco menos de nitidez do que um dia tiveram, mas ainda claras o bastante pra quase nos sentirmos novamente nos “quandos” e “ondes” registrados.

No fim das contas, até as digitais acabaram sendo aposentadas, e os telefones se prontificaram a ocupar o espaço vazio. Aí se criou, então, ou ao menos assim considero, o declínio não só do sentido do registro, mas do nosso próprio olhar sobre as pessoas, coisas, situações e paisagens. Tô falando de uma coisa geral, um blackout em massa, provocado em favor da tão desejada praticidade. Ao longo dos anos a qualidade das câmeras telefônicas evoluiu consideravelmente, e hoje não só é possível como bastante palpável a ideia de trabalhar com fotografia usando telefones, ao menos em um nível mais básico.

A transformação, no entanto, já se instalou, e com mais ou menos qualidade as pessoas se sentem quase compelidas a registrar qualquer merdinha possível. Não tô tirando o corpo fora, não, também fui pego nesse movimento, mas sempre coloquei pra mim mesmo um certo limite, na tentativa de manter o olhar menos afetado e viver com os sentidos mediados por si mesmos e não por uma máquina. Gosto muito de tecnologia, mas com todos os resguardos sobre os quais já falei - e provavelmente ainda vou falar. Me incomoda muito a ideia, por exemplo, de passar boa parte de um show com o braço travado numa posição desconfortável pra filmá-lo e poder “ver depois”. Cacete, pra quê então você pagou pra estar ali se não tá se permitindo ficar imerso na experiência?

As pessoas vão num restaurante e a primeira coisa que elas fazem? Foto da comida. Vão pro rolê e passam mais tempo tirando e postando fotos e vídeos do que interagindo com as pessoas ao redor. Poderia usar muito mais linhas pra citar exemplos que corroborem meu ponto, mas acho que já me fiz entendido. Entramos mais recentemente numa onda ainda mais estúpida de encantamento com efeitos e imagens criadas por inteligência artificial. Vou falar das IAs em outro momento, com todo o rancinho que eu guardo nesse coração direcionado pra elas, mas o ponto é que eis aí mais uma ferramenta tosca distorcendo nossa visão sobre o mundo. Óbvio, não existe visão pura, tudo na nossa percepção é moldado por diversos fatores, mas quando você a entrega pra ser filtrada por uma máquina, acho que se abre mão também da sua própria capacidade de estabelecer uma relação de troca entre o mundo e sua subjetividade.

Disse tudo isso pra, enfim, retornar ao ponto inicial. O hobby, no final das contas, não foi a câmera digital. Ela deu um piripaque e parou de funcionar no começo de 23, e só consegui alguém pra consertar recentemente. Pouquíssimo tempo antes, porém, impulsionado pelo monte de coisa que me apareceu sobre fotografia analógica, comprei uma câmera “point-and-shoot”, a famigerada “saboneteira”, simplona, sem recursos, perfeita pra um iniciante. Acho que não preciso citar todas as limitações que uma máquina movida à filme tem, mas só na eventualidade de você ter nascido num período em que analógicas já eram uma não-coisa, explico.

Você insere o filme, tira uma foto e avança até ele acabar. Se a câmera for eletrônica, com avanço e rebobinagem automática, ou totalmente manual, tanto faz, o princípio é mesmo. Será que a foto ficou ruim? Será que deu certo? A luz ficou boa? Queimou o filme? Todas essas perguntas só são respondidas depois do rolo revelado, o que te leva a tomar algum tempo pra entender os fatores que fazem ou não o filme render o máximo possível.

Eis o xis da questão. Todo esse processo, que parece contraproducente e nada intuitivo, te força a estabelecer uma nova forma não só de lidar com o equipamento na sua mão, mas também com o seu olhar pro mundo ao redor. O que vale a pena ser fotografado, registrado e ainda por cima atacar sua ansiedade com o tempo que leva entre todo esse processo e, por fim, a revelação? Acho que nisso tudo a palavra que me vem à mente é desacelerar. Diminuir o ritmo, esperar o momento certo, a melhor luz, o prédio mais bonito, o ângulo mais apropriado.

Já não tenho mais a câmera que comprei no ano passado. Depois dos primeiros 4 ou 5 filmes me senti confiante pra dar um passo a mais, descolei uma câmera com mais recursos, testei filmes diferentes e a coisa chegou num ponto em que meus amigos compraram a ideia e me agraciaram com mais câmeras, cada uma com as suas peculiaridades e possibilidades, incluída entre elas a máquina que eu tenho tatuada no braço direito. Eu tô cercado de gente incrível.

Desde que comecei, de fato muita coisa mudou. Mesmo quando uso o celular pra fotografar, a preocupação que tenho de entender o melhor possível o que quer que eu vá registrar se mantém, então em última instância acho que posso afirmar sem ressalvas que meu objetivo foi alcançado. Num dos meus livros favoritos, Como Escrever Bem, citado no texto “Cada Página Lida”, o escritor William Zinsser diz o seguinte: “Não sei quais maravilhas virão nos próximos trinta anos para tornar duas vezes mais fácil o ato de escrever, mas sei que elas não tornarão a escrita duas vezes melhor. Isso ainda exigirá o velho hábito de pensar […] e o manejo das velhas ferramentas da língua”.

Esse livro foi escrito em 1976. Passado todo esse tempo, a afirmação de Zinsser pode se traduzir quase universalmente, incluso meu objeto desse texto. Equipamentos muito mais avançados surgiram, tanto especializados quanto embarcados em outros dispositivos, o que não fez a fotografia necessariamente melhor, e afetou inclusive nosso senso de registro e memória. Me refiro, claro, ao mundano, corriqueiro e “universal”, já que prefiro acreditar que os usos artístico e profissional da fotografia se resguardam do nosso condicionado desapego às velhas formas de registro.

Também não sei o que vem por aí, mas sinto um crescimento no movimento da fotografia analógica. Se isso vai se manter já são outros quinhentos, mas independente disso espero ao menos que o cuidado com o olhar e o pé no freio pra que apreciemos o mundo com mais calma - enquanto ele ainda não foi consumido pelo fogo - continuem. Se nada disso rolar, que pelo menos sirva pra baixar o preço dos filmes. Essa merda tá cara pra cacete.

Até a próxima.


segunda-feira, 26 de agosto de 2024

Cada Página Lida

 


Seguindo na onda de mudanças deste último ano, me coloquei um objetivo claro e irrevogável, retomar o hábito de leitura. Quem me conhece há mais tempo sabe que desde a infância consumir literatura é minha maior habilidade e meu maior gosto, além de ser também meu grande refúgio.

Em não raras ocasiões passava 6, 7 horas lendo ininterruptamente. Fui uma criança e um adolescente - não que hoje seja muito diferente - pouco social, por uma série de fatores que me reservo o direito de não falar sobre, só porque sim. Apesar das muitas possibilidades de entretenimento individual pra uma criança do início do século XXI - ainda que não tantas quanto hoje - foram as páginas e páginas de papel Pólen preenchidas com fonte Register que mais ocuparam meu tempo e meu imaginário até a faculdade.

Quando iniciei a graduação, vivendo numa nova cidade com todo um novo mundo de sociabilidades se abrindo, minhas atividades solitárias foram ficando cada vez mais de lado - vide “Hoje Eu Quero Sair Só” - e os livros, que até então eram de tudo quanto é tipo, foram aos poucos se convertendo em receituários, volumes sobre administração de restaurantes e calhamaços enormes sobre História da Alimentação, dos quais boa parte ainda mantenho na minha biblioteca pessoal, apesar de não atuar mais profissionalmente como cozinheiro.

Não que a temática da alimentação já não me interessasse antes, mas era natural que estudando Gastronomia o interesse aumentasse e ocupasse um espaço quase absoluto na minha vida. Uma das coisas que falo pouco sobre esse período é que a cozinha, pra além de um gosto, beirou uma certa obsessão, e o afastamento no fim das contas foi bom, já que permitiu recriar minha relação com a cozinha, ainda que continue sendo excessivamente rigoroso comigo mesmo. Enfim, a literatura.

Muitos livros me marcaram em diferentes momentos da vida, mas quatro obras tiveram um impacto considerável na forma que penso e vejo o mundo, aqui dispostos numa linha mais ou menos temporal de leitura: “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, “A Divina Comédia”, “O Manifesto do Partido Comunista” e “Como Escrever Bem”. Vamos a eles.

O Guia, como já mencionei no “A Vida, O Universo e Só Mais Umas Coisinhas”, título inclusive inspirado na obra deste autor, é uma série de ficção científica escrita por Douglas Adams, responsável também pela bilogia do detetive Dirk Gently e o já citado “O Salmão da Dúvida”, além de ter colaborado consistentemente com a produção da - excessivamente, desculpem-me os fãs - longeva série Doctor Who e com o grupo britânico Monty Python, alicerce de muito do que se entende hoje como humor.

Apesar de fã de seu estilo humorístico, carregado de sarcasmo e nonsense, o que mais me marcou foi a forma como Adams construiu seus universos literários. Ainda que cientificamente ficcionais, tudo é muito real, na dimensão de que, se algum absurdo envolvendo burocracia entre civilizações interplanetárias ou a revelação cósmica de que de fato as perguntas sobre o sentido da vida fazem tão pouco sentido quanto as respostas, não nos espantaríamos completamente se qualquer dessas coisas acontecesse numa tardezinha gelada de domingo como a de hoje. Convenhamos, tem muita coisa pior acontecendo nesse exato momento e o mundo continua assistindo imóvel. Poderia escrever um texto exclusivamente sobre ele e sua obra, mas hoje meu intuito é ressaltar aquilo que mais me marcou em cada livro, então prossigamos.

“A Divina Comédia” foi um caso curioso. Fiz o ensino médio em uma escola construtivista, que ao longo do processo de ensino-aprendizagem desenvolvia diversos projetos com os alunos, entre eles a escrita de uma monografia. O objetivo era que estivéssemos preparados pra pesquisa e escrita científica quando seguíssemos para nossas graduações. A maioria dos meus coleguinhas - alguns deles talvez estejam lendo esse texto, então olá coleguinhas - escolheram temas bastante coerentes pra quem tem 16 anos, mas eu não. Talvez já tenha mencionado esse fato, mas fui um jovem vaidoso com a imagem que tinha da minha própria inteligência. Deus do céu, como eu era arrogante.

Essa peculiaridade colocou na minha cabeça que seria sensato, no segundo ano do ensino médio, escrever uma monografia sobre uma das obras mais complexas da história da literatura. Não tenho qualquer lembrança do trabalho em si, ainda que me recorde de ter tido certo êxito no resultado final, dadas as proporções do que um adolescente comum seria capaz de produzir. Independente disso, o ponto foi que Dante Alighieri me marcou.

Existe uma profundidade de referências e debates contidos n’A Divina Comédia que talvez, na literatura, só se encontre paralelo de relevância quando colocada frente a frente com a Bíblia. Pode ser forte fazer essa afirmação, mas a faço sem medo. Considere ainda que Dante escreveu boa parte da obra vivendo em exílio, participando ativamente das intensas movimentações políticas do que veio a se tornar o Estado italiano, em meados do séc. XIV, com poucos recursos e acesso à materiais referências, e a coisa se torna ainda mais impressionante.

Em contraste a centena de “cantos” da Comédia, por sua vez, o Manifesto do Partido Comunista me deixou uma marca pelo poder de síntese de Marx e Engels. Goste ou não dos dois, seja ou não de esquerda, o impacto causado por uma obra tão diminuta em extensão é estarrecedor e inegável. Li pela primeira vez por volta dos 14 anos a mesma cópia que ainda ocupa um espaço na minha estante de livros. Não que eu precisasse ser convencido de nada, considerando o contexto em que fui criado, mas foi meu primeiro contato com uma obra de teoria social e a porta de entrada pra busca por mais conhecimentos sobre os “comos” e “por quês” da vida em sociedade.

Torço pelo dia em que ninguém mais dirá “nossa, esse livro é tão atual”, já que o grande ponto e problema não é a atualidade do texto, mas a compreensão de que pouca coisa mudou do séc. XIX pra cá. Troque tecnologias digitais por manuais, mecânicas e analógicas e voilà, nós, proletários e pobres mortais, continuamos empurrados pelas mesmas mãos que ditavam as regras para os trabalhadores com quem Karl e Friedrich militavam, conversavam e debatiam.

Chego, por fim, ao livro que virou a chave não só na minha percepção sobre o fazer da escrita, mas também sobre como olhar o mundo e encontrar relevância no que parece ordinário. Lançado originalmente em 1976, “Como Escrever Bem” não é só um manual de redação. Como o próprio autor, o estadunidense William Zinsser, comenta em diversos momentos ao longo do texto, seu objetivo não é só levar a quem lê um conjunto de regras a serem seguidas, mas é proporcionar reflexões sobre como encontrar sua própria voz e estilo e construir uma narrativa que seja capaz de tornar até o tema mais corriqueiro em algo com o qual o leitor consiga se conectar.

Não sei exatamente com quais palavras explicar muito além disso, mas cada página lida me impulsionava ainda mais a olhar pro que eu havia produzido até então e as diversas melhorias que poderia fazer não só no material, mas na própria visão das coisas sobre as quais escrevi. Esse é um livro tanto pra quem produz literatura, seja ela do tipo e com o intuito que for, quanto pra qualquer pessoa que busque minimamente se manter atualizada e em movimento diante de suas próprias percepções frente a vida. Se puder, leia.

Outros muitos livros me marcaram, obviamente, mas os maiores impactos sem dúvida foram desses. Como falei sobre “O Guia”, não seria nenhuma provação escrever textos únicos sobre cada um, mas não me dou com a ideia de virar um resenhista ou ensaísta. Prefiro manter a vocação de palpiteiro semi-profissional e entregar impressões sucintas e nada modestas sobre o que eu entendo como bom. Seguirei lendo e acreditando que talvez, um dia, esses livros mudem. Até lá continuarei espalhando as palavras contidas aqui, dividindo um pouquinho das inspirações que me trouxeram até esse momento.

Até a próxima.

 

terça-feira, 11 de junho de 2024

Hoje Eu Quero Sair Só

 


Estou, no momento em que inicio esse texto, sentado sozinho na mesa de um restaurante. É segunda e acabei de sair da sessão das 19 de Furiosa, em que mais uma vez George Miller opera acima dos 142% pra produzir algo grandiosamente minimalista. Como eu amo Mad Max. Apesar disso, meu foco aqui vai todo pra parte de estar sozinho.

Me lembro de um ritual razoavelmente comum nos meus anos mantiqueiros. Morar sozinho não cria, necessariamente, solidão. No tempo da graduação raramente ficava desacompanhado, e nossa galera amava passar tempo junta. Na verdade, era mais provável que estivesse com outras pessoas do que só, e não apenas no sentido físico, pois havia um senso genuíno de coletividade e apoio entre nós. Nos fins de semana, no entanto, era quase inevitável que não ficasse ninguém conhecido na cidade, até porque pouca gente, como eu, morava consideravelmente longe. Foi aí que o hábito surgiu.

Chegava a noite, eu botava uma roupa quente, pegava meu falecido iPod - companheiro inseparável de todas as horas - e caminhava ouvindo música até um restaurante japonês que fica escondido no primeiro andar de um prédio no Capivari, quase alheio à profusão de lugares genéricos que tomam conta do centro turístico jordanense. Subia as escadas, sentava numa mesa na sacada e comia observando o movimento na rua. Levou algum tempo até que o dono do restaurante não estranhasse minhas refeições solitárias, e por um período considerável, assim que eu chegava, perguntava se era “mesa só pra um, mesmo”.

Ao longo dos anos acabei estendendo essa rotina pra outros lugares da cidade, que se tornou ela mesma minha companhia. Vi muita gente chegar e ir embora, e no fim a solidão era sempre inevitável, mesmo que temporária (para mais sobre esse tempo, leia “O Som das Araucárias”). Quando chegou a minha vez de deixar a serra, um tanto dela veio comigo. Nos curtos intervalos que fiquei na Baixada mantive o hábito de sair sozinho, e o costume instaura a normalidade. Ao longo desse tempo a solitude me propiciou entrar em contato com aspectos de mim mesmo que por muito tempo ignorei, e aprendi a ficar em paz com a minha própria companhia. Eis que chega 2020.

A transição entre as décadas gerou uma ruptura nunca antes vista na normalidade. Pra além do impacto objetivo de milhões de mortes que a pandemia causou, se estabeleceu desde então um senso geral de que existe alguma coisa que quebrou e não se conserta mais, ou que ao menos se arrasta desde então sem uma remediação completa. No meio disso tudo, minha relação com o estar só também mudou.

Uma pandemia, um relacionamento e um burnout depois, me vi num estado de profunda ambiguidade. Momentos de crise, em maior ou menor escala, sempre deixam suas impressões espalhadas por aí. E, sendo como sou, como poderia querer facilitar a situação? Se de alguma forma sinto o peso da solidão, confesso que cada vez mais as pessoas soam irritantes e/ou desinteressantes, e não parece um esforço muito grande manter certa distância. Eu que lute com a minha dialética autoimposta.

Valter Hugo Mãe, escritor angolano dos melhores que eu já tive o prazer de ler, abre seu magistral “O Filho de Mil Homens” narrando a vida de um homem solitário. Cito aqui algumas de suas palavras:

“Estava sozinho, os seus amores haviam falhado e sentia que tudo lhe faltava pela metade, como se tivesse apenas metade dos olhos, metade do peito e metade das pernas, metade da casa e dos talheres, metade dos dias, metade das palavras para se explicar às pessoas.

Via-se metade ao espelho e achava tudo demasiado breve, precipitado, como se as coisas lhe fugissem, a esconderem-se para evitar a sua companhia. Via-se metade ao espelho porque se via sem mais ninguém, carregado de ausências e de silêncios como os precipícios ou poços fundos. Para dentro do homem era um sem fim, e pouco ou nada do que continha lhe servia de felicidade. Para dentro do homem o homem caía”.

O tempo aos poucos dilui o limiar entre a solitude e a solidão, e fica cada vez mais difícil saber quando é bom e ou não estar só. Chegando aos 30 em poucas semanas me peguei ligeiramente aflito pela questão. Talvez a leitura recente do livro tenha remexido coisas nos compartimentos internos desse estranho e excessivamente movimentado ambiente que chamo de minha mente, mas ao mesmo tempo, estando numa fase da vida em que finalmente detenho certo nível de autonomia, começo de novo a enxergar no meu tempo só o momento para me conectar comigo mesmo, sem deixar de refletir sobre como lidar de forma menos tensa com os outros. Escrever é um aspecto disso e me ajuda nessa mediação.

Fato é que, invariavelmente, nunca vai ser 100%, e tudo bem. Aos poucos restabeleço minha relação com os mundos interno e externo, e volto a dar espaço pra mim. Às vezes a gente se põe pressão demais por coisas que não estão totalmente no nosso controle e nem nos damos conta.

Curiosamente estou sentado na mesma mesa do mesmo restaurante que costumava vir nas minhas folgas, às segundas, do meu primeiro emprego como cozinheiro em Santos. Duas outras mesas estão ocupadas e, ainda mais curiosamente, mesmo que seja o único exercendo minha solitude, pareço ser o único desfrutando de algum lampejo de alegria. São tempos estranhos pra estar acompanhado.

 

Até a próxima.


quarta-feira, 1 de maio de 2024

A Guerra Somos Nós - Comentários sobre “Guerra Civil”



Esse vai ser um texto um pouco mais curto que o comum, já que, apesar de algumas rápidas reflexões, o foco vai ser indicar uma coisa. Nesse caso, um filme: Guerra Civil. Pra quem ainda não viu nada sobre ele, uma sinopse rápida. Em um futuro não muito distante uma guerra civil (ora, ora) tomou conta dos Estados Unidos, e o enredo acompanha três fotojornalistas de zonas de conflito viajando de Nova York até a capital estadunidense, Washington, acompanhados ainda de uma jovem fotógrafa que almeja seguir seus passos na cobertura de guerras.

O filme, porém, não é sobre a guerra em si, mas sobre os “microimpactos” de seus diversos aspectos, além de, ainda que de forma menos direta, sobre fotografia. Não vou ficar destrinchando demais, falando sobre atuações, montagem e outros aspectos técnicos. Como mencionado anteriormente, não entendo quase nada de teoria do cinema, logo não vou ficar inventando moda. O foco é no que senti e minhas percepções sobre algumas questões que me saltaram mais aos olhos. Vamos então ao que interessa.

Pra falar sobre os diferentes impactos que o conflito tem em uma sociedade, começo falando sobre os dois personagens principais, interpretados por Kirsten Dunst e Wagner Moura. Em Guerra Civil, Lee, personagem de Kirsten, funciona como um retrato da própria narrativa, relativamente apática e distante mesmo nos momentos mais tensos. A quebra desse comportamento, no entanto, ocorre quase como um prenúncio do fim, tanto seu quanto da própria narrativa, quando toda a tristeza que só a guerra é capaz de gerar em alguém se abate sobre ela.

A morte de Sammy, personagem vivido pelo Stephen McKinley Henderson, jornalista veterano e mentor de ambos, causa uma ruptura da barreira que ela construiu em volta de si pra não ter que lidar com toda o peso das coisas que ela viu ao longo dos anos que cobriu zonas de conflito. A partir desse ponto, enquanto registram a ofensiva final contra a Casa Branca, todo o medo e tristeza a soterram, ficando quase imóvel diante da ação.

É só nos momentos finais, com o ataque praticamente concluído, que ela se recompõe, num ato que serve como um momento simbólico pra ela, que já tendo realizado quase tudo que poderia querer, profissionalmente, morre ao salvar a vida da personagem de Cailee Spaeny, Jessie, a aspirante, entregando a ela o “fardo” que viveu ao longo de seu trabalho na forma de uma foto incrível e uma “micro revolução” paradigmática para a jovem.

O personagem do Wagner Moura, Joel, representa uma outra face do lidar com todo esse contexto. Enquanto Lee é tomada pela apatia, ele age quase com euforia ao vivenciar momentos de ação, enquanto estava “distante” dos impactos da guerra. Em diversos momentos se comporta como se aquilo impulsionasse sua existência, vivendo por mais uma dose da adrenalina. Sua conduta, como a de Lee, só se altera frente à violência quando vê seus amigos próximos, dois jornalistas chineses, serem executados por um grupo de civis armados que, se aproveitando do caos gerado pela guerra em andamento, passam seus dias executando pessoas que não consideram “verdadeiros americanos”.

Essa cena, inclusive - com destaque pra atuação insana do Jesse Plemons - poderia facilmente ser recortada e vendida como um curta, e convenceria qualquer um que a assistisse de que foi pensada com esse objetivo, sem, em nenhum momento, parecer deslocada do resto da história ou da ambientação. As ações do grupo racista são de uma crueza quase corriqueira, como se não estivessem fazendo nada diferente de lavar uma louça ou calçar um tênis, e isso é o bastante pra gerar um nível de tensão tão denso que dá quase pra pegar com a mão.

Outros dois momentos marcantes, que também servem como reflexões distorcidas um do outro, são as paradas que o grupo faz. A primeira se passa no posto de gasolina que encontram pouco depois de saírem de Nova York, em que habitantes da cidade amarraram pelos pulsos e torturam dois homens que tentaram saquear o lugar, com um deles constatando, sem nenhum incomodo aparente, que havia estudado com um dos homens pendurados, posando tranquilamente pra uma foto ao lado dele. Em contraste, mais ao final da viagem, passam por uma cidade em que as pessoas continuam vivendo como se nada estivesse acontecendo no resto do país, num único lapso do que poderia restar de normalidade naquele cenário.

Um último aspecto notável, que se faz presente ao longo de toda narrativa, é que a todo momento as cenas são filmadas propositadamente de perspectivas pensadas para compor fotografias, servindo como uma metanarrativa, um filme de si mesmo, como um documentário sobre a obra que está inserido na própria narrativa. Aos amantes da fotografia, especialmente da analógica, como este que lhes fala, é um detalhe que enriquece muito a narrativa.

Enfim, acho que já falei o que tinha que falar. Guerra Civil está longe de ser um dos meus filmes preferidos, mas sem dúvida é um filme que vale a pena ser assistido, especialmente no cinema. Se puderem, vejam.

Ah, esqueci de avisar, têm spoilers no texto.

Até a próxima.

segunda-feira, 29 de abril de 2024

Da Originalidade

 


Aos poucos que ainda não sabem, já que tive muito afinco na divulgação, co-criei, apresentei e vez ou outra editei um maravilhoso podcast sobre cinema de baixíssimo orçamento, discutindo filmes de qualidade quase sempre condizente com suas restrições orçamentárias e que, em alguns casos, esculpiram marcas indeléveis no meu ser e nos de todos que participaram, fixa ou esporadicamente, dos 30 episódios lançados.

Apesar dos vários chutes e voadoras de vacilo que nos atingiram em cheio, em especial ao já não tão jovem Gabriel - o Guedo, Guedollas, Gabigollum e tantos outros apelidos fofos que eu cunhei ao longo dos nossos quase 10 anos de amizade - que teve a tarefa hercúlea de editar e ajustar as trocentas horas de material que gravamos, guardamos com muito carinho todo o riso, de alegria ou nervoso, que o melhor do pior do cinema poderia nos ter proporcionado. Agora, pra surpresa de todos, não vim aqui hoje pra falar sobre o Cinemasso, mas sim das tranqueiras às quais a gente se submeteu e sobre criatividade e originalidade.

Acredito que não precise nem dar exemplos quando relembro aqui que nos últimos anos tivemos uma enxurrada de remakes e tentativas de trazer de volta franquias há muito esquecidas ou que sequer precisavam ser refeitas e continuadas, e tenho certeza de que só de ter lido isso pelo menos uns três exemplos tenham vindo à sua mente. A Disney, especialmente, em sua incansável busca pelo monopólio absoluto do entretenimento, se vale muito dessa prática, retroalimentada por uma demanda que ela mesma, junto com outros grandes bastiões da indústria - no pior sentido possível - ajudou a criar, na tentativa de manter quem consome seus produtos incessantemente engajados.

Por que não, então, unir o útil ao agradável e só requentar infinitamente o que já deu certo, correndo riscos mínimos, ao mesmo tempo que fisga a audiência com facilidade ao alimentar os anseios de afirmação de seus gostos e de pertencimento ligado ao passado, se escorando na nostalgia mais tosca possível? Eis o entretenimento no século 21. Agora, antes de continuar, quero deixar bem claro que de forma alguma eu julgo quem consome essas coisas, até porque seria de uma hipocrisia sem tamanho. Minha crítica é direcionada à quem produz. Por que isso, então, tem a ver com o Cinemasso? Explico.

Se você entrar na nossa página no seu streaming ou rede social preferida - que nesse caso só pode ser o Instagram, já que é único lugar com um perfil do podcast - não tenho dúvida de que vai lhe ocorrer algo como “meu Deus, que filmes ridículos são esses”? Não discordo, ao menos na maioria dos casos, mas existe uma coisa que os une e que, mesmo te causando estranheza, há de se concordar: são ideias muito originais.

A década de 80 talvez seja a mais frutífera nesse sentido, um período histórico em que, sim, muitas ideias eram ruins ou imbecis, mas nunca o suficiente pra serem ignoradas. Os gêneros que mais se beneficiaram disso foram a ação, a comédia e o terror, e ainda que muita gente tenha vergonha de admitir, com certeza tem um filme xodó que se enquadra em um deles e que, se fosse feito hoje, estaria relegado ao mais absoluto fracasso. Me ponho como exemplo quando afirmo, sem medo de ser feliz, que Stallone Cobra é um dos meus filmes preferidos. Se não viu, veja, pois é uma obra que exemplifica muito bem meu ponto.

Pensando seu conceito, nada muito fora do tradicional filme de ação policial estadunidense. Mocinha perseguida por um bandido implacável e protegida pelo herói improvável, renegado por grande parte de seus pares, mas que carrega consigo a chama da justiça. O que diferencia Cobra dos outros é que, apesar da ideia entregar que vai ser só mais um filme genérico e previsível - e não deixa de ser, apesar dos pesares - existe uma tentativa genuína de inserir elementos que construam aquele mundo de forma diferente do que se encontra por aí. O que começa como uma narrativa um tanto comum se torna um festival de “mas de onde veio isso?” e “por que diabos esse cara fez aquilo?”, entre outros questionamentos que tem fazem duvidar se aquele filme é o mesmo que você começou a assistir. Mas agora você precisa de mais.

Entre as muitas maluquices, as minhas preferidas são, sem dúvida, o bizarríssimo ensaio fotográfico de Brigitte Nielsen com robôs de borracharia do interior, o carro velho e pesado do Stallone, completamente deslocado daquele universo como seu próprio protagonista, seus hábitos peculiares como cortar pizzas com tesoura, mascar palito de fósforo e fazer ele mesmo o retrato-falado do vilão. É tudo fora do tom e sem sentido, mas ainda assim quanto mais a história avança, mais a sensação de estranhamento diminui, porque naquele microcosmo de policiais de sobretudo num calor de 40 graus, como tudo é exagero, nada fica realmente fora do tom.

Agora, que lugar teria um filme como Stallone Cobra em 2024? É altamente improvável que um estúdio com alguma capacidade financeira tivesse qualquer impulso de injetar dinheiro na produção de algo parecido, como a Warner fez em 86 com o roteiro co-escrito pelo próprio Sly. É aí que mora a morte da expressão artística. Definir o que é ou não arte é um debate complexo e que requer cuidado e profundidade aos quais não me proponho nesse momento, o elemento dessa discussão que quero levantar aqui é o da construção de referências. A expressão artística, mesmo quando não mediada por um ferramentário técnico complexo, pode ter um alto grau de complexidade no seu resultado, mas pra que isso ocorra é necessário que o autor tenha uma considerável bagagem referencial.

Como essa bagagem se constrói, então? A resposta mais do que óbvia é consumir cada vez mais coisas, das mais variadas perspectivas, pra que seu referencial se complexifique e a criticidade do olhar se aprofunde. Qual é o efeito, então, de estarmos num momento de produção como o atual? As mídias de massa despejam tanto conteúdo homogêneo que existe pouquíssimo espaço pra que a criatividade respire, e quem busca criar algo com algum nível de originalidade fica relegado aos espaços “underground”. E aqui não me refiro apenas ao cinema, mas a todo tipo de expressão, artística ou não.

Transporte agora esse preceito pra outro campo. Pensemos no caso da ciência política. Quanto exatamente você conhece do referencial teórico que constrói o pensamento ao redor das coisas que você critica? Extrapolando ainda mais, o quanto você tem de embasamento pra defender sua própria visão de mundo? Se todo debate ou temática está sujeito ao processo de homogeneização, não estaria então todo o referencial sujeito também ao mesmo processo?

É claro que se pode argumentar que tudo, ou ao menos parte considerável, do que foi produzido ao redor desse processo, no passado ou no presente, continua disponível, mas em quantos espaços é possível se ter acesso à essas coisas? Quando você vai a uma livraria, quais são os primeiros títulos que você encontra próximos à entrada? Quantos filmes de produtoras pequenas ou independentes estão passando no cinema mais próximo da sua casa? Que shows são divulgados nos principais veículos de mídia que você acessa? Você sequer busca transpor a barreira da produção industrial de gostos pra descobrir o que se faz além dela?

Essas são apenas algumas das perguntas que se pode levantar, e como sempre meu papel é tentar te oferecer um espaço pra se questionar. Tenho minhas respostas e convicções sobre o tema, e algumas estão contidas nas entrelinhas desse texto. Ser original ou produzir originalidade num mundo com o tanto que já foi feito não é tarefa simples, mas nunca foi, especialmente quando não havia nada sobre o que refletir ou referenciar, então, apesar de quem lucra forte com essa régua média querer estabelecer algum tipo de limite pro que é relevante ou merece atenção, acho que pra gente a coisa quase chegou de bandeja.

Tem uma frase, que provavelmente ouvi no Choque de Cultura, apesar de não lembrar em qual episódio e sequer estar disposto a procurar, que diz que se tudo fosse genial, tudo seria medíocre - aqui com seu significado correto, de mediano - e que a gente precisa das coisas que são ruins pra ter parâmetro sobre o que é bom. Mas como pode haver o ruim sem experimentação, se tudo já é produzido sob parâmetros formuláicos? O que eu quero dizer é que a gente precisa estar aberto pra todo tipo de coisa. A gente só tem certeza se é bom ou não se estiver disposto a consumir ou produzir algo sem ficar criando expectativas abstratas. Se for bom, ótimo, aquilo te entregou uma nova referência positiva. Agora, caso contrário, paciência, a vida também tá cheia de momentos de merda que a gente não pode evitar. Nessas horas é que eu costumo tirar as melhores ideias pra textos. A vida entrega originalidade o tempo todo e a gente nem se dá conta.

Até a próxima.