domingo, 22 de fevereiro de 2026

Mensário da Incerteza

 


Essa não é uma crônica normal. Não que em qualquer outro momento eu tenha me desgastado de qualquer forma que seja buscando atingir alguma suposta normalidade, até porque se existe algo em que eu acredito é que normalidade é um dos conceitos mais abstratos, maleáveis e corruptíveis que a mente humana ousou arquitetar. Essa crônica é uma mistura de diário – ou melhor, mensário - com desabafo, duas coisas que de certa forma se cruzam.

Os últimos seis meses foram um maremoto. Não se preocupem, não vou fazer alguma analogia furada de livro de autoajuda que vende no Graal, dizendo que às vezes é preciso um tsunami destruir o que está posto pra que a gente possa se reconstruir. Deixo esse tipo de palhaçada pra quem leva o LinkedIn a sério. Não. Eu vim aqui pra normalizar a tristeza, falar dela, jogar um balde de água fria na positividade deletéria de quem usa isso pra mascarar o lamaçal onde as pernas estão enfiadas. Aí sim, depois disso, eu falo um pouquinho de coisas mais amenas.

Aqui vão breves relatos sobre o que se sucedeu nos últimos meses, e tal qual na minha vida, esse texto é um maremoto varrendo boa parte do que está contido na minha última crônica, e que, curiosamente, postei poucos dias antes de tudo ir pras cucuias, como dizem os jovens. Enfim, prossigamos. Como sempre, faço questão de deixar bem claro que não há aqui nenhuma tentativa de chegar a conclusões, muito menos explicar alguma coisa, por vezes me dando ao luxo de ser misterioso e enigmático. Uma pessoa adulta deveria ser capaz de lidar com a aleatoriedade da existência.

Uma parte do texto foi escrito um bom tempo atrás, enquanto a outra é tão recente quanto essa - mais uma vez - desnecessariamente longa introdução, mas se você chegou até aqui acompanhando minha escrita, já deve ter se acostumado. Vamos ao que interessa.

Novembro de 2025.

Há semanas eu não sei o que escrever. Sinceramente, sequer sei o que pensar. Como refletir sobre qualquer coisa quando todas as coisas perdem o brilho? Pensando nisso, resolvi pensar sobre o que pensar quando não se consegue pensar em nada. Não porque não se quer pensar em nada, mas porque um vazio toma conta de você. De mim, no caso.

A sensação de falha foi inevitável. Sei que fiz o meu melhor, mas é impossível não sentir que fui declarado inapto, incapaz, substituível, irrelevante. Nem sei direito o que pensar sobre tudo que aconteceu, tenho dificuldade em enxergar qualquer coisa boa dessa experiência e por diversas vezes me peguei pensando que talvez devesse ter escutado o André de dezenove anos, que não queria pisar nunca mais naquele lugar e esquecer desse delírio gastronômico. Não sabe do que eu tô falando? Tudo bem, pensa que é só uma reflexão abstrata sobre falha, quebra de expectativas e se sentir perdido.

Voltar pra casa não foi um fardo. Sou grato por ter uma família que me acolhe incondicionalmente, especialmente porque sei que é complexo. Como já vi padre Júlio Lancelotti dizer mais de uma vez, amar o próximo no seu pior não é fácil, mas é quando ele mais precisa. Cada peça de roupa colocada na mala, cada utensílio de cozinha acomodado em uma caixa, cada mínimo objeto retirado dos armários foi como um pedacinho arrancado de mil planos feitos pro futuro.

O que sobrou disso tudo foi ansiedade, insônia e desinteresse. De mim, não muita coisa. Mas sigo. Não é a primeira vez e acho pouco provável que seja a última. Me apego ao conselho que sempre dou a quem me pede: um dia de cada vez. As coisas, por mais estranhas, confusas e insuportáveis que pareçam, acabam se ajeitando. Volto quando tiver forças.

Fevereiro de 2026.

O ser humano, há milênios, padece do mal irremediável de tentar encontrar explicação lógica pra tudo, quando a realidade repetidamente joga na nossa cara a verdade universal de que quase nada faz sentido. Não me eximo de culpa nesse cartório, é normal querer que as coisas estejam bem claras e convenientemente organizadas pra que possamos olhar pra elas e dizer logo “ah, então é isso”. Esse foi meu último mês e meio, desde que comecei a cuidar da cachola pra lidar com a fossa generalizada em que me encontrava, buscar sentido pro que me trouxe até o presente momento.

Voltar foi conturbado porque tudo que aconteceu carregava anos de expectativas, tentativas frustradas e idas e vindas com esses planos, lidando ainda com os reflexos do que havia deixado pra trás quando voltei pra montanha. É a vida, afinal, vez ou outra as coisas ficam quase exatamente onde foram deixadas. Fato é que, agora que consigo novamente concatenar meia dúzia de ideias, sair de casa e lidar com a vida, entre mortos e feridos, salvaram-se todos.

Óbvio que nada é 100%. Os efeitos de 2025 ainda estão aqui, e é provável que ainda perdurem mais um pouco. Reencontrar alguma ordem depois do caos não acontece de um dia pro outro, e talvez a tarefa mais difícil não seja reordenar as coisas, mas entender o que fazer depois disso. Sei das possibilidades e sei que estou no lugar certo pra me cuidar e descobrir o quem vem a seguir, ainda que vez ou outra a frustração e as inseguranças ressoem.

Dito isso, nos últimos dias fiz em termos as pazes com a coisa de quase nada fazer muito sentido. Já falei sobre isso anteriormente e não pretendo digredir em alguma reflexão supostamente complexa sobre a questão. O ponto é bem mais simples: as coisas aconteceram. Fim. Foi chato, doeu - e ainda dói - mas aos trancos e barrancos a vida seguiu e seguirá.

No dia em que escrevo isso vi um texto reflexivo sobre um documentário do Werner Herzog que usava o termo “indiferença do Universo”. Discordo plenamente de qualquer que seja o sentido pretendido dessa análise mequetrefe, porque o Universo não é indiferente, isso é uma qualidade - no sentido de característica, não virtude - dessa coisinha frágil e autocentrada chamada ser humano, que insiste em querer projetar a si mesma e seus vícios e virtudes em tudo. O Universo não é indiferente, ele é. Ponto. Infinitamente grande, infinitamente existente, e no fim do dia, ainda que por vezes nos pareça intragavelmente longa a existência, ela sequer chega perto de fazer cócegas na fofa, macia e arredondada barriga da EXISTÊNCIA, essa coisa massiva que simplesmente é para todo o sempre e para todo o sempre será, independente do que a gente possa balbuciar aos céus numa noite estrelada de verão, inconformados com algum estranho desígnio da vida.

O mais curioso é que não acho que cheguei nessa conclusão. Óbvio que, sob a perspectiva concreta de ser capaz de ordenar essas palavras todas e comunicar essa ideia, sim. Eu digo no interior. Uma coisinha chata e perniciosa continua lutando dentro de mim contra a aceitação desse fato, de que a vida vai seguir e em algum momento as coisas vão ficar minimamente como eu gostaria que elas ficassem. Nosso âmago reluta em aceitar a falta de controle e que isso não é necessariamente ruim, independente da nossa capacidade de concretamente entender isso. Sempre fica algo ressonando na nossa cabeça, quase como um quadro permanentemente torto na parede, que você ajusta e, assim que vira as costas, entorta de novo. O quadro, porém, torto ou alinhado, continua exatamente o mesmo.

Sigo apegado no meu próprio conselho de “um dia de cada”. Acabou o Carnaval e consta que agora começa oficialmente o ano no Brasil. Não sou e acho pouco provável que algum dia eu seja um folião de qualquer espécie, mas muito me agrada esse zeitgeist que toma conta da nossa terra todo começo de ano. A vida já está em movimento, tudo segue acontecendo normalmente, mas a sensação de que agora sim, depois da festa, é que as coisas começam de verdade, também acontece aqui dentro. Não sei o que vem por aí, mas pela primeira vez em muito tempo não me sinto completamente massacrado pela correnteza, e começo 2026 com pelo menos a sensação de que ficou mais fácil juntar os caquinhos do que quebrou no ano passado.

P.S.: prometo também não demorar mais tanto tempo pra publicar o próximo texto (eu acho).

Até a próxima.