Voltei pra
Mantiqueira, concretizando as quase proféticas reflexões produzidas na crônica
“O Som das Araucárias”. E que estranho voltar. Não que eu acreditasse em
transformações profundas, mas é engraçado como quase nada mudou. Ou melhor, uma
coisa mudou. Eu.
É a quarta vez que
moro em Campos. Como também dito no mesmo texto, houve um tempo em que
afirmava veementemente que nunca mais pisaria aqui, como se tivesse qualquer
controle real sobre como as coisas na vida se desdobram. Um ano após o outro,
sinto como se um fio me ligasse à montanha, se fortalecendo cada vez mais, me
puxando de volta sempre que se estabelece um desalinho.
A volta também foi
às panelas. Assim como disse aos 19 que nunca voltaria pra cá, disse aos 27 que
abandonaria a gastronomia. Minha última experiência na cozinha - sobre a qual
não me sinto exatamente confortável em falar sobre, ao menos por agora - marcou
meu âmago tanto quanto os respingos de óleo quente e os cortes de faca marcaram
minhas mãos.
Me desfiz de
uniformes, deixei de me apresentar como cozinheiro e decidi seguir outros
caminhos. Voltei pra faculdade, numa área sem relação nenhuma com qualquer
coisa que tivesse estudado antes, consegui um emprego igualmente distante da
restauração e entrei de cabeça na escrita, uma paixão que, ainda que acredite
que estivesse guardada em algum canto escuro aqui dentro, até então não havia
sido seriamente explorado. Mas alguma coisa parecia fora do lugar.
Não sinto que fiz a
escolha errada naquele momento. De fato, precisava me afastar de tudo, como meu
próprio corpo avisou quando, após receber um convite pra trabalhar em um dos
meus restaurantes preferidos de Santos, tive uma crise de ansiedade descomunal
só de pensar em pisar novamente em uma cozinha. Tempos complexos, mas nos quais
felizmente pude passar próximo da minha família, cuidar da minha saúde mental
e, como no passado, colocar as coisas em perspectiva e retomar as rédeas dos
meus sentimentos. E cá estamos novamente.
Ao longo desse
tempo, mesmo olhando pra todas essas marcas e tentando entender o que elas
queriam me dizer, o eco do som da cozinha, tal qual o das araucárias,
continuava reverberando em mim, um chamado quase instintivo ao ofício. Foi
inevitável atendê-lo, e cá estou novamente. Entre trancos, barrancos e acertos,
em algum lugar acredito que esse movimento seja, além de trabalhar num ambiente
educacional, minha grande busca em todos esses anos, uma forma de dizer pra mim
e pra todas as inseguranças e dúvidas que por muito tempo me consumiram que eu
ainda posso fazer isso. Sempre pude. Não é simples, mas nunca foi dito que
seria.
Depois de pouco mais
de um mês e meio, o sentimento é genuíno de que fiz a escolha certa. A sensação
de inadequação e incapacidade sempre volta pra dar aquele alô, mas com cada vez
menos frequência e intensidade. Tento levar um dia de cada vez, sem pensar
demais nos pormenores que uma mente ansiosa é capaz de produzir. Aos poucos
sinto que retomo a sintonia com os pisos antiderrapantes, fornos e panelas que
por tantos anos foram quase uma obsessão. O que vem por aí, só o tempo vai
dizer, e enquanto o ar da Mantiqueira não sussurra nos meus ouvidos a resposta,
sigo fazendo o que eu sei.
Até a próxima.
